Família e escola devem ser parceiras

O ensino se transforma, mas a participação dos pais continua sendo fundamental para apoiar e complementar o trabalho desenvolvido em sala de aula

postado em 11/01/2018 03:30 / atualizado em 11/01/2018 10:33

 Bárbara Cabral/Esp.CB/D.A Press
Os tempos são outros, as formas de ensinar estão em transformação, o perfil dos alunos é diferente. A escola não é a mesma de anos atrás, mas uma coisa nunca muda: a importância da participação dos pais na vida escolar dos filhos. E como eles devem se adaptar a tantas mudanças?
 
Especialistas afirmam que parte dessa resposta pode ser dada pela própria escola. Segundo o psicopedagogo Eugênio Cunha, para que a família possa participar e contribuir, é fundamental que a coordenação pedagógica explique aos pais as novas tecnologias e métodos de aprendizagem adotados em sala de aula.
 
Cunha destaca que muitos pais foram educados da forma tradicional, distantes das metodologias ativas adotadas em algumas instituições de ensino atualmente, que buscam maior participação dos alunos. “Eles sentem falta daquele conteúdo que vem para casa, daquele livro cheio de perguntas e respostas, de um caderno muito escrito. Isso são resquícios de metodologias de um ensino antigo, portanto é preciso que as escolas esclareçam essas novidades”, ressalta.
 
Luiz Claudio Megiorin, presidente da Associação de Pais e Alunos do Distrito Federal (Aspa- DF), aponta que acompanhar essas mudanças é um desafio para as famílias, principalmente aquelas que envolvem as tecnologias. “Realmente, os tempos mudaram. A gente só consegue seguir os filhos até um certo ponto. Temos dificuldades. Inclusive, muitos pais perceberem essa mudança no comportamento dos filhos. Vejo, ainda, que a tecnologia está ganhando cada vez mais espaço na sala de aula. Enquanto o professor fala lá na frente, os alunos já estão pesquisando.”

Mais agilidade no aprendizado

 
Os métodos de ensino participativos e o uso da tecnologia em prol da educação já chegaram à sala de aula da estudante Kimberlly do Vale, 12 anos, filha de Janaina do Vale, 40. Kimberlly acaba de concluir o 7° ano e traz em sua bagagem acadêmica, além dos tradicionais conteúdos, a habilidade de pesquisar e apresentar as informações para os colegas. Janaina comenta que é notável a diferença do desenvolvimento da filha com o dela quando estava na escola. “Os alunos, hoje, são outros. Percebo que a Kimberlly pega as coisa muito mais rápido do que eu quando estudava”, observa.
 
A mãe reforça que as metodologias adotadas têm ido muito além do ensinar português e matemática. “Eu percebo que os professores estão fazendo os alunos confiarem mais neles mesmos, terem sua própria opinião e respeitarem a do outro. Eles estão tendo um papel fundamental na formação não só acadêmica, mas também no caráter dela”, enfatiza.
 
Janaina tenta contribuir e complementar os esforços dos educadores em casa, para potencializar as habilidades da filha. Ela afirma que ajuda a adolescente nos trabalhos e chega até a dar algumas sugestões de como fazer, mas que deixa com a Kimberlly a responsabilidade pelas escolhas dela. “Em um trabalho de religião, por exemplo, achei interessante ela escolher pesquisar uma religião que não é a nossa. Eu vi que aquela atividade despertou uma curiosidade nela, que foi atrás das informações”, lembra. A mãe ainda complementa: “Eles buscam não só nos livros, mas em vídeos na internet, em filmes. Já a ajudei em trabalhos com matérias que eu vi nos jornais. Acho isso muito legal. Quanto mais conhecimento ela tiver, melhor”.

Contexto social deve ser avaliado


O doutor em educação Antonio Augusto Batista, coordenador de pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), ressalta que as escolas não podem esperar a mesma participação e compreensão de todas as famílias. Ele assegura que cada caso deve ser tratado de forma diferente, olhando o contexto social e a experiência escolar de cada um.
 
Segundo Batista, pesquisas mostram que a maioria dos pais se preocupa com a educação dos filhos e tenta ajudar, mas que nem todos conseguem acompanhá-los. “Não é só dificuldade com um universo de tecnologias e conteúdos novos, mas um afastamento, outras necessidades mais importantes. Existe uma espécie de distância entre o mundo cultural da família e o mundo cultural da escola, e eles precisam ser aproximados”, alerta.
 
Para Eugênio Cunha, a relação escola e família precisa ser fortalecida diariamente, de maneira que os pais possam contribuir efetivamente. “É uma parceria que precisa se estreitar. Ficar por dentro da rotina do trabalho que é feito em sala de aula, das pesquisa que são feitas em casa, além dos projetos em que o aluno precisa trazer a família para a escola. Existem várias atividades durante o ano que podem ajudar nessa relação”, aconselha.
 
 “A escola tem autoridade e autonomia para decidir o caminho pedagógico a seguir com os alunos, mas é evidente que as sugestões dos pais são sempre bem-vindas”
Eugênio Cunha, psicopedagogo 

Acompanhamento é fundamental


Os pais não precisam concordar com tudo o que a escola impõe. Afinal, é a educação dos filhos que está em jogo. Os especialistas ressaltam que é preciso avaliar se as metodologias adotadas pela instituição estão cumprindo o objetivo de uma instituição de ensino, que é educar. As intervenções, no entanto, devem ser feitas de com cautela, de maneira a ajudar, e não atrapalhar.
 
O psicopedagogo Eugênio Cunha ressalta que a relação entre família e escola deve ser sempre uma parceria, mas a instituição de ensino é soberana nos aspectos pedagógicos. “A escola tem autoridade e autonomia para decidir o caminho pedagógico a seguir com os alunos, mas é evidente que as sugestões dos pais são sempre bem-vindas”, afirma. Cunha adverte que o problema é que muitas vezes as famílias responsabilizam os professores quando há problemas com os filhos.
 
No ano passado, a filha de Janaina esteve com problemas em matemática, mas, por conhecer a escola e a própria filha, a mãe logo viu que o problema não estava com o professor. “Quando percebi a dificuldade dela, tratei logo de procurar um reforço e, assim, conseguimos resolver”, conta.
 
Cunha destaca que, quando o pai acompanha a vida acadêmica do filho, ele consegue supervisionar melhor se ele está conseguindo cumprir as metas e as diretrizes da escola, assim como se está sendo ativo nas aulas. Dessa forma, é bem mais fácil identificar onde está o problema quando as coisas não vão bem.

Dentro do limite

Luiz Claudio Megiorin, da Aspa, alerta que é preciso ter cuidado ao querer questionar o professor. Para ele, há pais que passam dos limites na hora de opinar sobre as decisões da escola, chegando a querer descaracterizar os projetos pedagógicos das instituições. “Eu acho que tudo tem limite. A gente tem que saber o que é importante e fundamental ser moldado e aquilo que pode acabar destruindo um projeto pedagógico. A participação dos pais é muito bem-vinda, desde que seja uma participação equilibrada e organizada”, observa.
 
Segundo Batista, do Cenpec, uma dica para saber quando intervir é verificar se a instituição de ensino está conseguindo cumprir a função dela. Ele explica que a escola tem três finalidades: o desenvolvimento pessoal; a formação cidadã; e a formação para o trabalho. Caso não esteja atendendo esses papeis, é hora questionar. 

Ponto a ponto

Saiba como melhorar sua relação com a escola e contribuir mesmo em casa


Fique por dentro de tudo 
» Participe sempre das reuniões pedagógicas

Estreite sua relação com a escola 
» Mantenha-se informado sobre a rotina da sala de aula; participe das atividades em que a família é convidada

Acompanhe seu filho de perto 
» Converse com seu filho, ajude nos trabalhos de pesquisa em casa e estimule o potencial dele

Tecnologia é bom, mas na medida 
» Acompanhe e monitore o uso das tecnologias. Procure usá-las a seu favor

Mantenha o diálogo 
» Evite grupos de redes sociais para resolver problemas escolares. Trate diretamente com a escola

Fonte: Eugênio Cunha