O impacto das mudanças na educação

A grande novidade da educação brasileira em 2018 é o início da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Especialistas comentam as perspectivas trazidas pelo documento

postado em 11/01/2018 03:15 / atualizado em 11/01/2018 10:33

Wallace Martins/Esp.CB/D.A. Press
 
Os próximos dois anos trarão o desafio da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O documento que norteará a elaboração de currículos de escolas públicas e privadas de Norte a Sul do país, homologado em dezembro do ano passado, é a grande novidade da educação em 2018. O caminho para que as diretrizes previstas na Base cheguem até as salas de aula não será fácil. Segundo especialistas, ainda este ano, as mudanças que a BNCC promoverá levarão gestores e professores a uma reflexão sobre o ensino e sobre as transformações a serem feitas com o objetivo de melhorar o sistema educacional.
 
Professora do Departamento de Métodos e Técnicas da Universidade de Brasília (UnB), Stella Bortoni classifica a BNCC como um avanço na história da educação brasileira, não só no que diz respeito aos métodos de ensino, mas também ao conjunto de valores que formam os cidadãos. Ela reconhece que o documento, por si só, não resolverá todas as mazelas da educação brasileira, mas considera um primeiro passo, com novas perspectivas para os próximos anos.
 
“As dificuldades na área da educação estão relacionadas aos problemas sociais e regionais. O documento vai ajudar na melhoria de algumas lacunas e contribui para que todos os alunos tenham o direito à educação assegurado. Os gestores e docentes poderão repensar sobre os métodos educacionais e o que mudar para melhorá-los”, avalia.
 
Mônica Gardelli, superintendente do Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), afirma que os resultados da implantação da Base não devem ser vistos ainda este ano. “As redes de ensino e escolas têm até dois anos para revisarem seus currículos e projeto político pedagógico, de modo que ela só deve chegar às salas de aula em 2019 ou no início de 2020”, explica. Mônica ainda salienta que esse processo precisa ser acompanhado de outras iniciativas, que fortaleçam as redes de ensino. 
 
“É necessário que as metas estabelecidas pelo PNE (Plano Nacional de Educação) sejam cumpridas. Uma delas é a garantia das condições para que professores e gestores escolares tenham o apoio necessário para que os objetivos de aprendizagem sejam efetivamente trabalhados em sala de aula. Isso passa a assegurar infraestrutura e condições materiais às escolas. Dessa forma, levará tempo para que a Base possa impactar os indicadores educacionais, como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)”, afirma a especialista. 
 
O presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), Luis Claudio Megiorin, concorda com a visão de que a BNCC reforça o direito à educação, tanto no ensino público quanto no privado. “As escolas poderão estruturar um currículo mais realista, trazendo mais transparência ao processo de ensino”, analisa.

“Existem componentes curriculares específicos, por exemplo, nos quais é preciso que o docente se especialize para estar preparado para ensinar. É necessário garantir condições, materiais de trabalho, além da valorização e remuneração adequada aos educadores”
Mônica Gardelli, superintendente do Cenpec e doutora na área de currículo 

 

Mais clareza para os pais

 


Outro possível avanço destacado por especialistas e membros da sociedade civil que se envolveram no processo de elaboração do documento é a clareza para os pais e responsáveis sobre o que esperar do desenvolvimento dos filhos a cada etapa do ensino. “Antes desse documento, os pais tinham dificuldade em saber se os colégios cumpriam o currículo. Agora, eles terão mais clareza para avaliar se as escolas realmente são boas, pois contarão com um documento para cobrar os resultados e avanços”, diz Megiorin, que também é membro do Conselho de Educação do Distrito Federal (CEDF) e preside a Comissão de Educação do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF).
 
Uma das tarefas das instituições de ensino será sinalizar aos responsáveis o papel da BNCC, conforme explica Cleuza Repulho, integrante do Movimento pela Base Nacional Comum. “As escolas devem explicar para as famílias de forma clara qual a importância da Base para que elas entendam qual é o valor dos colégios na formação das crianças”, afirma. Ela acrescenta ainda outro desafio a ser enfrentado: “Existem redes de ensino que estão mais preparadas do que outras. Escolas rurais, bilíngues e quilombolas, por exemplo, vão precisar ter uma atenção técnica especial por terem menos estrutura e recursos”.
 
Mônica Gardelli, superintendente do Cenpec, também acredita que a implementação da Base será complexa e que uma avaliação sistemática dos entraves desse processo em cada região precisará ocorrer. “Por meio da BNCC, será mais fácil estabelecer os direitos de aprendizagem de cada estudante, porém é preciso se preocupar, principalmente, com aqueles alunos que, por algum motivo, não conseguem aprender com os métodos de ensino usados em sala de aula”, observa Mônica, que é doutora na área de currículo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
 
O sucesso na implementação dependerá, em grande parte, dos professores, que precisarão de formação adequada. “Existem componentes curriculares específicos, por exemplo, nos quais é preciso que o docente se especialize para estar preparado para ensinar. É necessário garantir condições, materiais de trabalho, além da valorização e remuneração adequada aos educadores”, alerta a especialista.
 

Ponto a ponto

Confira as principais orientações da BNCC para cada etapa do ensino


Educação infantil

» Dividida em dois eixos: 
interações e brincadeira
» Direitos de aprendizagem e desenvolvimento: 
conviver, brincar, participar, explorar, expressar, conhecer-se
» Campos de experiências: 
o eu, o outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação; espaços, tempos, quantidades, relações e transformações
» Faixas etárias: 
bebês (de zero a 1 ano e 6 meses); crianças bem pequenas (de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses); crianças pequenas (de 4 anos a 5 anos e 11 meses)

Ensino fundamental

» Áreas de conhecimento: 
linguagens (língua portuguesa, artes, educação física e língua inglesa), matemática, ciências da natureza, ciências humanas (geografia e história) e ensino religioso
» Língua inglesa: 
será ofertada nos anos finais 
» Ensino religioso: 
será estabelecido como componente curricular obrigatório nas escolas públicas, mas com matrículas facultativas

Fonte: Ministério da Educação (MEC) 
 

Mudanças dividem opiniões


Mãe de Marcos Vinícius, 16 anos, e Maria Clara, 14, a pedagoga Alba Corrêa, 48, acompanha de perto a educação dos filhos e as discussões acerca da BNCC. Na opinião dela, a Base tem pontos positivos e negativos. “É um documento que busca melhorar o ensino no Brasil e, se bem estudado e implementado, pode contribuir muito com o sistema educacional”, afirma. “Porém, cada região tem uma realidade diferente. Eu tenho parentes que moram em outros estados e, muitas vezes, as escolas não têm estrutura, nem professores”, conta a moradora de Taguatinga Norte.
 
Para Alba, é necessário haver mais políticas públicas voltadas para a educação. “Não acredito que os docentes estejam preparados para a implementação da Base, com a volta do ensino religioso, por exemplo. Cada aluno tem sua crença. Como os educadores vão lidar com essa questão? É preciso ter um olhar diferenciado para que todos caminhem juntos em busca de uma educação melhor”, diz.
 

Como vai funcionar a BNCC?


A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê os conteúdos mínimos que todos os alunos brasileiros de escolas públicas ou privadas precisam aprender na educação básica, ou seja, da educação infantil ao ensino médio. Porém, a parte desta última etapa ainda não foi homologada, por conta da reforma do ensino médio aprovada no ano passado.
 
Segundo o Ministério da Educação (MEC), a previsão é de que esse trecho do documento seja enviado ao Conselho Nacional de Educação (CNE) ainda neste semestre. Seguindo orientações do documento, cada escola deverá elaborar o próprio currículo. A formação inicial e continuada dos professores também será peça chave para a implementação da Base. Outra mudança será na elaboração de livros didáticos de acordo com a BNCC. As avaliações nacionais, como a Prova Brasil/Saeb e o Enem também serão alinhados de acordo com o documento.  


Cara a cara

Diversas falhas


Acredito que será muito difícil implementar a BNCC nos próximos anos, pois está repletas de falhas. Há uma certa insistência no tradicionalismo pedagógico, no qual os professores são meros reprodutores de conteúdos, quando o ideal é que os docentes construam o conhecimento com os alunos. A Base restringe o currículo do ensino fundamental, é antiquada e ultra conservadora, excluindo, por exemplo, as questões de gênero e sexualidade. O documento não se preocupa com as escolas rurais, bilíngues ou quilombolas e passa a ser um mero instrumento de controle do trabalho dos educadores. Mas os bons profissionais vão superar a Base, incluindo, respeitando e promovendo os valores previstos na Constituição Federal.

Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e doutor em educação e ciência política


Referência


A implementação da BNCC não vai tirar a autonomia dos professores em sala de aula. A Base é uma referência para que cada escola — estadual, municipal, pública ou privada — forme seu próprio currículo de acordo com as características das redes de ensino locais. Ela explica o que ensinar aos alunos, e os colégios, com os docentes, vão trabalhar em como transmitir esses conhecimentos aos estudantes. Por isso, é de extrema importância que os educadores estejam bem informados e instruídos sobre o documento e que recebam uma formação continuada para ajudar, principalmente, aqueles alunos que tenham mais dificuldade no aprendizado.  

Stella Maris, professora do Departamento de Métodos e Técnicas da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em linguística e educação