A hora certa de investir na educação

Para alcançar índices melhores na educação, é preciso começar a investir em políticas públicas e novas formas de ensinar agora, já que o retorno vem a longo prazo

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
 
Os resultados de mudanças e investimentos em educação ocorrem quase sempre em longo prazo. Quando se fala em melhoria nos índices e avaliações internacionais, são décadas para se sentir o resultado de políticas públicas bem desenvolvidas. Também é unanimidade entre especialistas que essa é a direção a ser seguida se o objetivo for alcançar melhorias em outras áreas, como saúde, segurança e desenvolvimento científico. É por isso que esse movimento de valorização do ensino deve começar já.

Segundo o professor Roberto Lent, coordenador da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), o momento de investir em educação é agora se o Brasil quiser colher bons frutos nos próximos anos. “É um investimento de gerações, mas nós podemos acelerar isso. Se investirmos em educação infantil hoje, isso vai repercutir daqui a 10 ou 20 anos”, afirma.
 
Para Lent, o papel da escola vai muito além de ensinar os conteúdos tradicionais. O termo da vez são os conhecimentos socioemocionais. “O desenvolvimento de um país é feito com pessoas preparadas, que tenham cultura, que sejam capazes de resolver problemas. O que a indústria moderna precisa? Ela precisa de um profissional que crie, que inove. Isso não é um dom, é algo que a gente desenvolve”, destaca o professor. 
 
Apesar de não haver uma fórmula universal para a aprendizagem efetiva, observar o contexto em que escola e alunos se inserem é o caminho, conforme destaca Lent. “Os matemáticos têm um conceito que é o ‘limite’.  O limite, para o matemático, é inalcançável, mas pode-se chegar perto. É um pouco isso. Temos uma meta e vamos sempre estar correndo atrás dela”, analisa. 
 
Essa meta passa pela tão sonhada motivação dos alunos. Na avaliação do professor, esse é um grande desafio e, para chegar lá, é preciso rever as metodologias aplicadas em sala.  “O que motiva um estudante a estudar matemática, por exemplo?  Ele estuda por obrigação, e isso acontece porque ele não vê utilidade naquilo, é um ensino muito árido. Em vez de obrigar o aluno a resolver um problema para ganhar nota, é preciso fazer ele ter prazer em resolver o problema. Isso é bem mais motivador”, exemplifica. 
 
Algumas escolas já caminham para inovações, mas é muito comum encontrar salas tradicionais, com os alunos de costas uns para os outros. Lent observa que é preciso aproveitar o que a modernidade proporciona. “É um momento de ouro. Você não precisa perder tempo passando informação, porque eles já têm tudo à mão. Você pode aproveitar o tempo para aprimorar o trabalho coletivo, a criatividade, a motivação.  Essas são capacidades que, se a criança tiver, alcançará um desempenho muito bom e o capital humano do país vai ficar muito mais qualificado.”


Expectativas para o futuro


O desenvolvimento dessas habilidades faz parte do que a servidora pública Viviane Silva Varga almeja para a educação do filho, Pedro Henrique, 4 anos. Além da alimentação saudável e de um ambiente que proporcione cuidado, ela busca, na escola e em casa, um lugar em que ele possa interagir de forma plena com outras crianças. “Hoje, as crianças saem um pouco do ambiente apenas familiar e começam a conviver de uma forma mais intensa mais cedo, e eu busquei isso. Achei importante que o meu filho tivesse essa socialização”, relata.
 
O objetivo principal é que Pedro Henrique possa ser exposto a experiências e aprendizados que estimulem a capacidade de interagir com as pessoas e de analisar informações em um mundo tão repleto delas. “Acho que o ser humano do futuro tem que aprender e ter essa capacidade de se relacionar, conectar informações de campos diversos. A escola de hoje deve ter o ambiente favorável para que a criança desenvolva essas habilidades, e não só na escola — esse é apenas um dos caminhos que existem —, mas também em casa, nas leituras, no que ele vê no tablet”, elenca. 
 
Aos poucos, o pequeno começa a mostrar preocupação com a preservação do meio ambiente e atende a maior expectativa da mãe: que ele contribua para um país mais produtivo e menos desigual. “Eu gostaria muito que meu filho ajudasse a construir isso.”
 
 “Já se conhece a escola 4.0, a que é capaz de promover, juntamente com os estudantes, capacidades cognitivas, metacognitivas, emocionais, motoras e sociais, ou seja, o estudante é o autor da sua aprendizagem”
Marta Pires Relvas, psicopedagoga e neurocientista 


Habilidades em alta até 2030


Afinidade com o conhecimento científico, pensamento crítico e criatividade estão entre as principais aptidões buscadas pelo mercado até 2030, segundo pesquisa da empresa britânica de educação Pearson, que indicou ainda as metodologias de ensino e aprendizagem que as escolas precisam desenvolver com os alunos hoje para alcançar essas habilidades. O levantamento teve como público-alvo jovens dos Estados Unidos e Reino Unido, e o Correio ouviu especialistas em educação para descobrir quais dessas competências também devem ser desenvolvidas no ensino brasileiro.
 
De acordo com a pesquisa, as habilidades sociais serão a chave para o sucesso. Aprendizagem e escuta ativas e julgamento e tomada de decisões estão entre elas. Além disso, o estudo aponta um crescimento na exigência por habilidades cognitivas, como fluência de ideias, originalidade e expressão oral. Já para habilidades físicas, como resistência e noção de profundidade, a expectativa é de declínio. 
 
Para a psicopedagoga e neurocientista Marta Pires Relvas, a perspectiva é o currículo do ensino básico contemplar, nos próximos anos, os processos emocionais e o cenário tecnológico. “A escola 1.0, de quadro e giz, não sobreviverá”, afirma. “Já se conhece a escola 4.0, a que é capaz de promover, juntamente com os estudantes, capacidades cognitivas, metacognitivas, emocionais, motoras e sociais, ou seja, o estudante é o autor da sua aprendizagem”, sustenta.
 
A diretora do Instituto Inspirare e especialista em inovações para a educação, Anna Penido, ressalta que, para o modelo de ensino impactar os futuros profissionais, é necessário repensar práticas pedagógicas. “Essas habilidades não se aprendem sentados nas cadeiras, um de costas um para o outro”, reforça. Ainda de acordo com Anna, desenvolver essas habilidades é fundamental para mudar e promover mudanças sociais. “As pessoas vão ter um outro tipo de relação com a saúde e com os direitos humanos”, reflete. 
 
Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press
 
 

Equilíbrio entre tradição e contemporaneidade


O administrador Klaubert Herr da Silveira, 41 anos, tem dois filhos, e um deles está prestes a ingressar no ensino médio. Para ele, o desenvolvimento de diferentes habilidades é importante, mas as escolas não podem deixar de lado conteúdos essenciais, como o de português e o de matemática. “É preciso haver equilíbrio entre o ensino tradicional e o moderno”, opina.
 
A psicopedagoga Eunice Mendonça da Silva, 47, afirma que gostaria de ver a filha, Caroline Mendonça Gomes, 16, ser estimulada a desenvolver o pensamento crítico, a buscar a independência e o autoconhecimento, e reforça a importância de as instituições de ensino se atualizarem.

Caroline também percebe essa necessidade. “Na escola, o conteúdo parece estabilizado e temos pouca prática”, afirma. “Eu, por exemplo, tenho facilidade com o inglês, mas tudo o que aprendi foi fora da sala de aula, como assistindo a filmes e a séries estrangeiras”, completa. 

As 10 mais

Confira quais serão as habilidades valorizadas nos próximos anos


Capacidade de lidar com o conhecimento
» É importante que o jovem tenha acesso a ensino de qualidade. Hoje, não é mais a questão de “saber de tudo um pouco”, mas, sim, conhecer bem as diferentes áreas do conhecimento.

Pensamento crítico, científico e criativo
» É preciso ter conhecimento crítico para formular teses, perguntas e confirmar a veracidade de informações. E, ao mesmo tempo, é necessário ser criativo e ter a capacidade de pensar em novas possibilidades para o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas.

Conhecimento cultural aliado à prática de ensino
» Os estudantes devem ter acesso aos bens culturais. É preciso explorar outros ambientes, trabalhar em grupo e renovar o repertório acadêmico, lidando com diferentes culturas e identificando as diversas formas de estar no mundo.

Comunicação
» Para essa nova geração, é importante saber escutar, dialogar de forma produtiva e usar os multimeios de comunicação. Isso pode ajudar a superar problemas da atualidade, como a intolerância diante dos posicionamentos nas redes sociais. 
Acesso à cultura digital
» Além de saber usar, é preciso entender o mundo tecnológico, ou seja, não se limitar apenas a aprender a usar um computador. É necessário se apropriar do universo digital.

Defesa de ideias com consistência
» É essencial ter a capacidade de argumentar com consistência e segurança. Na hora de preparar o aluno para isso, no entanto, o professor precisa fazê-lo com ética e responsabilidade, para não influenciar o posicionamento dos jovens. 

Independência
» Os jovens precisam ser capazes de gerir a própria vida. Esse ponto é importante para ajudá-los a estabelecer metas e alcançar objetivos.

Autoconhecimento
» Os estudantes precisam reconhecer os limites do corpo e da mente. Isso ajuda a evitar o desestímulo para a realização de atividades.

Trabalho em grupo
» É preciso ter a perspectiva de colaboração com o próximo, construir um trabalho em equipe e ser capaz de se colocar no lugar do outro.

Agente de transformação
» Exercer as atividades diárias com autonomia, ética e responsabilidade para se tornar um ser capaz de propor inovações para o mundo é outra das habilidades exigidas para 2030.