BRASÍLIA 66 ANOS

O Plano é Piloto, mas o piloto é o homem

Em 2027, completo 60 anos de amor por Brasília e 80 de vida. E penso que, no fundo, aquela plataforma espacial da minha infância existia mesmo. Só que não flutua no céu — flutua dentro de mim

 13/06/2018 Cr..dito: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press. Brasil. Bras..lia - DF. Projeto pioneiros. O artista Plastico Darlan Rosa com suas esculturas em frente ao Memorial JK. 
     -  (crédito:  Luis Nova/Esp. CB)
13/06/2018 Cr..dito: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press. Brasil. Bras..lia - DF. Projeto pioneiros. O artista Plastico Darlan Rosa com suas esculturas em frente ao Memorial JK. - (crédito: Luis Nova/Esp. CB)

Darlan Rosa, artista plástico e criador do personagem Zé Gotinha


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A cidade que eu sonhava ficava no espaço. Pelo menos era assim que minha cabeça de menino entendia aquelas reportagens de O Cruzeiro, lá pelos anos 1950, quando minha mãe lia para mim sobre plataformas espaciais e futuros improváveis. Eu nem sabia juntar letras, mas já juntava mundos. E quando ouvi no rádio, aos 10 anos, que iam construir Brasília, em forma de avião, imaginei logo: claro, é uma daquelas plataformas. E anunciei, convicto, que iria morar lá. Afinal, seria a capital de todos os brasileiros.

Depois percebi que Brasília não nasceria no espaço, mas num planalto tão alto que, para o menino que eu era, parecia quase tocar o céu. O sonho continuava suspenso, firme, brilhando no horizonte. Eu seguia acompanhando cada notícia, cada desenho, como quem vigia o crescimento de algo que já sente seu. Até descobrir que o tal Plano Piloto tinha, sim, um "piloto" de verdade: Lucio Costa, vencedor do concurso de 1957, o homem que traçou no papel a cidade que eu imaginava flutuando.

Em 1967, finalmente desembarquei na Brasília de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. A sensação era estranha e familiar ao mesmo tempo — como se eu estivesse voltando para um lugar onde já tinha vivido, mesmo sem nunca ter pisado ali antes. Fui trabalhar na TV Brasília como desenhista e, sem querer, virei o "Titio Darlan" do programa Carrossel. Contava histórias, fazia brincadeiras, alegrava tardes inteiras. O programa durou quatro anos, mas eu não aguentei a popularidade. Não podia nem ir à padaria sem virar evento. Saí de fininho.

Fui então para o Ministério da Educação, trabalhar na revista Cultura, fotografando museus e conhecendo artistas que me empurraram, sem que eu percebesse, para o caminho das artes. Estudava jornalismo, publicidade e relações públicas à noite, no Ceub, porque o curso de arte da UnB era diurno e eu precisava trabalhar. A vida ia me moldando pelas bordas.

Em 1986, comecei a colaborar com o Unicef. Nasceu ali o Zé Gotinha. Foram 16 anos de desenhos animados, livros infantis, no Brasil e em outros países. Muitas viagens e descobertas. Em 1996, fui estudar computação gráfica na Califórnia e terminei o curso espalhando esculturas digitais pela cidade que me adotou.

De volta ao Planalto, transformei pixels em aço. A primeira obra, no Pontão do Lago Sul, foi instalada em 1999 — e hoje pede socorro, precisando de reparos que tento conseguir há anos. De lá para cá, são 27 anos de esculturas, 63 obras públicas espalhadas por Brasília: no Memorial JK, no CCBB, no Congresso, Itamaraty, em museus, em praças, em frente a prédios que viram minha arte antes de ver o dia nascer.

Em 2027, completo 60 anos de amor por Brasília e 80 de vida. E penso que, no fundo, aquela plataforma espacial da minha infância existia mesmo. Só que não flutua no céu — flutua dentro de mim. 

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postado em 21/04/2026 05:30
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