BRASÍLIA 66 ANOS

Carioca muito candanga: Brasília me convidou a brincar com emoções

Brasília nos deu, além de sua beleza, os ideais da fraternidade, da igualdade e muitos motivos para resistir

Ana Maria Lopes,  jornalista, poeta e integrante do Coletivo Maria Cobogó

 

Larguei minha prancha de surf vermelha no Rio de Janeiro e me tornei a carioca mais candanga de Brasília. Aqui cheguei em 1963. Aos poucos fui me fundindo ao chão vermelho, à poeira que voava em espirais e às tempestades. Sentia-me conectada à feitiçaria, à mágica de uma cidade que brotava do chão rude. E desse amálgama a vida encheu meus dias, e os dela, num balé de emoções.

Brasília me convidou a brincar com emoções. Não imaginava que no convite estaria incluído um festival de flores que tingem minhas retinas de ipês, flamboyants, cambuís, sibipirunas, quaresmeiras e muito mais.

Aliada à sua monumentalidade arquitetônica, surgiram mestres que trouxeram beleza e mais leveza a esse corolário de sentimentos. E lhe passeio, Brasília, vendo Athos, Bianchettis, Burles, Giorgios, Pierretis e Darlans. A trilha sonora vem da voz de Renato, de Cássia, dos bandolins de Hamilton e Reco, da flauta de Odette, da música e da poética de Clodo, Climério e Clésio.

Foram tantos gênios a preencher a cidade que criamos, Marcia Zarur e eu, a coleção Mestres Cobogós, projeto do Coletivo Maria Cobogó que pretende levar, pela biografia desses artistas, pertencimento e cidadania aos jovens das escolas públicas do Distrito Federal.

Brasília sempre respirou poesia. E eu, jornalista, escritora e poeta, vejo-as surgirem nas calçadas, nos mosaicos do Gougon, nas linhas de Behr, de Noélia, Angélica, Cassiano, Amâncio e tantos outros que despejam poemas nas quadras, blocos e bares.

Nessa caminhada lírica, a pausa está no cinema candango, aquele que nos orgulha e comove. De Brazza, Vladimir, Moriconi e Barbieri saem imagens que instigam, revoltam, apaixonam e convidam a refletir.

E tantos são os caminhos que Brasília oferece que, por vezes, me perco nessa peregrinação/elegia e me deparo com a arte e a resistência de Ceilândia, Samambaia, São Sebastião. Ali, a cultura explode jovem e efervescente em ritmo, rima e dança.

Um museu a céu aberto. E que céu! Sob esse festival de cores e nuvens, criei filhos, netos e bisneta que ostentam comigo o prazer de caminhar nessa cidade. Nós assistimos a todas essas maravilhas sem desconhecer a desigualdade, a falta de justiça social, o descompromisso público.

Mas Brasília nos deu, além de sua beleza, os ideais da fraternidade, da igualdade e muitos motivos para resistir. E amar.

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