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Correio Braziliense

Carnavalesco muda samba sobre Lamartine Babo por considerar letra racista

Leandro Vieira levará novamente à avenida, no ano que vem, enredo da Imperatriz Leopoldinense que homenageou o autor de O teu cabelo não nega nos anos 1980. Letra do samba, no entanto, será alterada


postado em 17/08/2019 18:57 / atualizado em 17/08/2019 19:02

Leandro Vieira foi responsável pelo enredo campeão da Mangueira este ano, em homenagem a mulheres negras brasileiras(foto: Mauro Pimentel/AFP )
Leandro Vieira foi responsável pelo enredo campeão da Mangueira este ano, em homenagem a mulheres negras brasileiras (foto: Mauro Pimentel/AFP )
O carnavalesco Leandro Vieira, que levou a Mangueira ao título de campeã do carnaval carioca este ano, decidiu adaptar o samba clássico da Imperatriz Leopoldinense O teu cabelo não nega (só dá Lalá), de 1981, por considerá-lo racista. A informação é do jornalista Ancelmo Gois, de O Globo.

 

Vieira, no que vem, além de fazer o desfile da Verde e Rosa no Grupo Especial, também representará a Imperatriz, na Série A. Para esta escola, o carnavalesco recuperará o enredo que, em 1981, homenageou o compositor Lamartine Babo, autor da marchinha O teu cabelo não nega, cuja letra (O teu cabelo não nega, mulata / Porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata/ Mulata, eu quero o teu amor) é muito criticada pelo movimento negro e chegou a ser tirada do repertório de vários blocos nos últimos carnavais.

 

De acordo com Góis, o enredo da Imperatriz será rebatizado para apenas Só dá Lalá, sem referência à marchinha famosa (veja a letra original do samba abaixo). 

 

Leandro Vieira é conhecido por tratar de questões raciais em seus projetos e pelo forte posicionamento político. No enredo que deu o título à Mangueira este ano, o carnavalesco homenageou mulheres negras brasileiras, como Dandara, uma das heróínas da luta contra a escravidão; Luíza Mahin, mãe do poeta abolicionista Luís Gama; e Marielle Franco,  vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março de 2018.   

 
Cristo periférico  

No Instagram, o carnavalesco compartilhou, na semana passada, a imagem oficial da camisa da Mangueira para 2020. Nela, há uma montagem de um Cristo negro, com colagens brancas em um braço, metade do tronco e em uma perna. 

 

"O Cristo que defini como logomarca tem a cara de qualquer uma das pessoas que sobem e descem o morro de Mangueira. Ele tá 'longe' daquele da cruz, mas sua feição humana é bem mais perto de nós", escreveu Vieira. 

 

Ver essa foto no Instagram

#BastidoresDaCriação - Hoje foi lançada a camisa da @mangueira_oficial para o carnaval 2020. Nela, a "ilustra" apresenta parte dos contornos visuais que pretendo dar ao Cristo periférico que, dia após dia, de hora em hora, de segunda à segunda, vai sendo gerado na minha cabeça e ganhando transposição real através das minhas mãos. . O Cristo que defini como logomarca tem a cara de qualquer uma das pessoas que sobem e descem o morro de Mangueira. Ele tá "longe" daquele da cruz, mas sua feição humana é bem mais perto de nós. Infelizmente, escolher um perfil - escolher uma única imagem pra definir uma proposta vasta tem dessas coisas - exclue os demais, é óbvio! Todavia, apresentar um perfil - diferente do conhecido e contra- hegemônico - abre caminho para os outros e possíveis perfis, que o desfile trará. Com o enredo "A verdade vos fará livre" eu não quero trazer respostas. Quero sim, fazer perguntas. . . Aos pedaços, "preto e branco", tendo o verde e o rosa como sina e cruz, tá aí a logomarca do carnaval 2020. . Ah! Na imagem a cor "branca" é predominante. Muito branco mesmo no fundo, contornando tudo. Vontade minha, que vê naquilo que propõe - nas "brechas" aonde me coloco inteiramente - um agradecimento pessoal e particular. O "branco" é um "acordo" soprado nos meus ouvidos por quem, no derradeiro mês de um já distante 2018, me pegou no colo; guiou os caminhos que estavam por vir segurando minha mão, me dando a alegria silenciosa de vitórias particulares inimagináveis e segue, depois de TUDO, andando na frente, abrindo caminhos com o brilho de suas ferramentas forjadas em prata. . Por vezes, com a sabedoria serena de um ancião - quando em mim faz brotar a centelha que incendeia a chama da criação - por vezes, diante do pilão sendo força brutal - quando em mim vibra a gana e a energia de realizar - seguimos, eu e ele, cumprindo sereno acordo. . E aí? Bora pro carnaval 2020 com o esse Jesus periférico e contra hegemônico? . P.S: A realização da logo é do amigo @igor.matos.98

Uma publicação compartilhada por Leandro Vieira (@_leandrovieirarj) em

  

Veja a letra original do samba da Imperatriz Leopoldinense de 1981

O TEU CABELO NÃO NEGA (SÓ DÁ LALÁ)

 

Neste palco iluminado

Só dá lalá (bis)

És presente imortal

Só dá lalá

Nossa escola se encanta

O povão se agiganta

É dono do carnaval

 

Lá lá lalá Lamartine

Lá lá lalá Lamartine

Em teu cabelo não nega

Um grande amor se apega

Musa divinal

 

Eu vou embora

Vou no trem da alegria (bis)

Ser feliz um dia

Todo dia é dia

 

Linda morena

Com serpentinas enrolando foliões

Dominós e colombinas

Envolvendo corações

Quem dera

Que a vida fosse assim

Sonhar, sorrir

Cantar, sambar

E nunca mais ter fim

 

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