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Correio Braziliense

Óleo derramado em praias do Nordeste tem origem venezuelana, conclui UFBA

Universidade analisou nove amostras e comparou com material produzido no país vizinho. Produto, porém, pode ter origem em navios, ressalta pesquisadora


postado em 10/10/2019 17:19 / atualizado em 10/10/2019 19:49

(foto: Adema/Governo de Sergipe)
(foto: Adema/Governo de Sergipe)
Pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA) chegaram à conclusão de que o óleo derramado recentemente em diversas praias nordestinas é original de uma bacia petrolífera da Venezuela. Ao Correio, a diretora do instituto, Olívia Oliveira, confirmou uma "extrema similaridade" entre o óleo que contamina o litoral brasileiro e o encontrado no país vizinho.

Segundo a pesquisadora, foram analisadas nove de 27 amostras coletadas nos litorais da Bahia e de Sergipe. Depois de separado da areia e da água do mar, o óleo foi colocado em um equipamento que fornece uma espécie de "impressão digital" dos materiais. O resultado foi comparado com análises feitas anteriormente em petróleos produzidos ao redor do mundo, o que apontou a semelhança entre o produto que polui as praias brasileiras e o petróleo venezuelano.

Oliveira reforça, no entanto, que não se pode descartar a possibilidade de o material ser combustível de navio. "Quando falamos de Venezuela, temos que separar a questão geográfica. Esse óleo que analisamos apresentou extrema similaridade com um óleo que é produzido, formado, originado, na bacia da Venezuela. Porém, pode ter sido qualquer um que contaminou, que comprou o óleo e carregou até aqui. Não temos a mínima ideia e não compete a nós, como geoquímicos, dizer o que aconteceu", explicou.

Venezuela e Brasil se pronunciam

Mais cedo, a estatal Petróleos da Venezuela S/A (PDVSA), emitiu comunicado em que rechaçou o que considera "suspeitas infundadas". "Não existe evidência alguma de derrame de óleo cru dos campos petroleiros da Venezuela que pudessem haver gerado danos no ecossistema marinho do País vizinho", afirmava o texto. 

ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, respondeu então algo semelhante ao dito pela cientista: "A hipótese aventada é que pode ter sido derramado a partir de navios que trafegaram ao longo da costa brasileira, e não necessariamente de campos do governo ditatorial venezuelano."

Também nesta quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro afirmou ter "quase certeza" de que o derramamento de óleo é criminoso. A declaração foi dada no Fórum de Investimentos Brasil 2019, em São Paulo. 

Um pouco depois, no mesmo evento, o ministro da Defesa,  general Fernando Azevedo e Silva, foi mais cauteloso. "Estamos levantando os navios e bandeiras. Pode ter sido acidente ou incidente, ainda não chegamos a essa conclusão", afirmou.

Desastre ambiental

As poças de óleo começaram a surgir nas praias brasileiras em setembro. Pelo menos 139 locais em 63 municípios diferentes foram afetados até agora. As investigações das causas e dos responsáveis são conduzidas pela Polícia Federal (PF), Marinha, Ministério da Defesa e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), com auxílio da Petrobras e do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (DF). 

Segundo Humberto Angelo, professor do Departamento de Engenharia Florestal da UnB, o incidente é uma "tragédia ambiental", com impacto significativo sobre a fauna aquática e a microfauna. "É preciso pagar para retirar esse óleo. Os municípios e praias afetadas por isso vão sofrer um impacto imenso na questão do turismo, principalmente nessa época, em que se recebe um contingente enorme de turistas", analisa. "É um prejuízo ambiental, social e econômico", acrescenta. 

*Estagiária sob supervisão de Humberto Rezende

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