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Correio Braziliense

Artigo: Me dá a sua mão

"O fato é que, às vezes, cansa. Martelar o assunto pode parecer uma cantilena exaustiva. Mas a verdade é que não é. Conquistas reais exigem engajamento real. A tal sororidade veio para ficar e crescer"


postado em 12/08/2018 07:00 / atualizado em 12/08/2018 09:10

Do início do ano até semana passada, foram 19 mortes, o mesmo número registrado nos 12 meses de 2017(foto: Editoria de arte/CB/D.A Press)
Do início do ano até semana passada, foram 19 mortes, o mesmo número registrado nos 12 meses de 2017 (foto: Editoria de arte/CB/D.A Press)
Recentemente, a filha de 15 anos de uma amiga minha disse para a mãe que não iria mais ao salão de beleza – que fica a 100 metros de sua casa – a pé e de short. Contou à mãe que se sente incomodada com os olhares ou cantadas de homens que passam de carro, abrem a janela e despejam falta de respeito e machismo em olhares, piadas e grosserias.

A mãe explicou que ela tem o direito de andar como quiser sem ser importunada ou constrangida, mas não soube exatamente o que dizer para que ela se sentisse mais segura nem o que fazer para que ela tivesse seu direito de ir e vir preservado. Disse apenas: “É por isso que devemos lutar contra o machismo, falar, brigar, denunciar, chamar a polícia”.

O fato é que, às vezes, cansa. Martelar o assunto pode parecer uma cantilena exaustiva. Mas a verdade é que não é. Conquistas reais exigem engajamento real – a tal sororidade veio para ficar e crescer. Em grupo, a filha da minha amiga se sente empoderada; consegue reagir a um comentário maldoso; consegue ameaçar chamar a polícia diante de cantadas agressivas; consegue continuar a usar seu short e ir com ele quando e para onde quiser. Sozinha, no entanto, somos uma voz solitária e acovardada.

Sozinhas, muitas vezes, somos presas fáceis. Somos a mulher do taxista morta a tiros, a mulher jogada pela janela aqui no DF, a outra assassinada pelo policial, a brasileira esmurrada, asfixiada e também jogada do quarto andar. Somos a dor de todas elas, assim como o grito de socorro que ninguém escutou ou que não quis ouvir porque daria trabalho ajudar – afinal, “em briga de marido e mulher...” Você conhece o ditado.

Os casos de feminicídio crescem de forma assustadora no Distrito Federal. Do início do ano até semana passada, foram 19 mortes, o mesmo número registrado nos 12 meses de 2017. As ocorrências de agressões contra mulheres que não levaram à morte também aumentaram em 2018. No primeiro semestre, houve 7.169 ocorrências desse tipo de crime, contra 7.029 de janeiro a junho do ano passado. Violência física, agressões morais, chantagem com dinheiro e toda sorte de covardias são cometidas diariamente por machos que não se cansam de bater, nem de maltratar.

A luta cansa; a batalha, às vezes, parece perdida. Mas é importante persistir, insistir, reagir, denunciar. Mais do que tudo, é importante a solidariedade entre mulheres que sofrem e precisam de apoio. Juntas, somos mais fortes. A Lei Maria da Penha fez 12 anos e temos a consciência de que, sem ela, seríamos presas fáceis e haveria ainda mais vítimas. Vamos fortalecer a legislação, exigir o cumprimento dela e garantir que nossas filhas e netas tenham um futuro com mais segurança e menos medo.

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