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Correio Braziliense

Morre, aos 74 anos, o advogado e ex-deputado federal Sigmaringa Seixas

Sigmaringa morreu em decorrência de um câncer, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde era tratado. Velório ocorre nesta quarta-feira de manhã, no Campo da Esperança da Asa Sul


postado em 25/12/2018 13:47 / atualizado em 26/12/2018 00:08

Colegas descreveram Sigmaringa como um humanista que se destacou na luta pela redemocratização do Brasil (foto: Jose Varella/CB/D.A Press)
Colegas descreveram Sigmaringa como um humanista que se destacou na luta pela redemocratização do Brasil (foto: Jose Varella/CB/D.A Press)
Morreu, nesta terça-feira (25/12), o advogado e ex-deputado federal Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, em decorrência de uma mielodisplasia, tipo de câncer que comumente evolui para um quadro de leucemia. Há um mês, Sig, como era chamado carinhosamente pelos amigos, foi submetido a um transplante de medula na esperança de curá-lo, mas o procedimento não teve o sucesso esperado.


Segundo o irmão José Carlos Sigmaringa Seixas, o corpo do advogado será velado na quarta-feira (26/12) a partir das 8h, no Cemitério Campo da Esperança da Asa Sul, em Brasília. O sepultamento está marcado para as 16h30. "Perdi um irmão e um amigo sempre pronto a ajudar a todos. O que mais lamento é que ele tinha muita vontade de viver", afirmou José Carlos, que publicou um texto sobre o irmão nas redes sociais (leia íntegra abaixo).

Políticos e amigos também lamentaram a morte e destacaram as qualidades de Sigmaringa, eleito três vezes deputado. O advogado era muito respeitado e tinha relações pessoais com representantes de diferentes correntes políticas. Foi filiado ao MDB, PSDB e PT, seu último partido. Era um grande amigo do senador José Serra (PSDB-SP) e do ex-presidente Lula, que teve negado, nesta terça-feira, um pedido para comparecer ao enterro.


No governo Lula, Sigmaringa foi várias vezes cotado para assumir o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Mas sempre preferiu permanecer na advocacia. Era filho do ex-presidente da OAB/DF Antônio Carlos Sigmaringa Seixas, que morreu aos 94 anos, em janeiro de 2016.

Ver galeria . 8 Fotos No seu escritório de advocacia, em 2004 Jose Varella/CB/D.A Press
No seu escritório de advocacia, em 2004 (foto: Jose Varella/CB/D.A Press )


Para o deputado distrital Chico Vigilante (PT-DF), Sigmaringa Seixas será lembrado como um homem "determinado, tímido e muito corajoso". "Ele era um conselheiro, um conciliador, humanista. Costumam dizer que existem perdas irreparáveis, mas essa é a mais irreparável e insubstituível. Ele lutou bravamente para sobreviver, mas infelizmente, neste dia 25, ele passa para um plano superior", afirmou.

O parlamentar lembra que em 1982 foi liberto do Complexo Penitenciário da Papuda duas vezes por Sigmaringa, em função de greves que eram realizadas na época. "Ele lutou contra a ditadura opressora. Sempre que soube que alguém havia sido preso injustamente, esteve nos cárceres soltando", ressaltou Chico Vigilante.

Presidente do PT, a senadora Gleisi Hoffmann (PR) usou o Twitter para prestar homenagem ao advogado. "Com tristeza imensa acabei de saber da morte de nosso grande querido e companheiro Sigmaringa Seixas. Lutador incansável pela justiça e pela democracia em nosso país. Vai fazer muita, muita falta, Sig! Solidariedade à família e amigos", publicou.

Nota de pesar do governador

O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, divulgou uma nota de pesar pela morte do ex-deputado. No texto, o chefe do Executivo afirma que a capital federal "chora e lamenta a morte de um dos maiores nomes de sua história". "Sigmaringa, o querido Sig, construiu uma trajetória política ímpar na cidade, da banca de advocacia de sua família para a Câmara dos Deputados", lamenta.

No texto, Rollemberg se refere ao político como defensor dos direitos humanos e destaca, ainda, que Sigmaringa "se notabilizou na luta pela redemocratização do país e pelo direito do brasiliense de votar e eleger seus representantes para o governo e os parlamentos local e federal".

"Amigo de toda hora, honrado, honesto e intransigente defensor da democracia, Sig é uma daquelas pessoas inesquecíveis pelo exemplo, pela solidariedade, pela lealdade a seus princípios democráticos e aos seus amigos. Tive o privilégio de compartilhar de muitas dessas lutas e conquistas da cidadania. Tive o privilégio de aprender com ele diversas lições de vida, de atuação política", encerra a nota oficial.

Outras autoridades se manifestam

O governador eleito do DF, Ibaneis Rocha, por sua vez, afirmou em nota que Sigmaringa foi um político marcante. "Em um momento decisivo para o Distrito Federal e para o Brasil, ajudou a escrever a Constituição  do país e desempenhou papel importante para a ampliação  das liberdades Civis e dos direitos e garantias fundamentais do cidadão. A história do Sigmaringa se confunde com a história de Brasília. Acima de tudo, morreu um amigo, que irá fazer falta", lamentou Ibaneis.

O presidente da República, Michel Temer, por sua vez, deu os pêsames à família do ex-parlamentar. "Lamento imensamente a morte do grande advogado e homem público Sigmaringa Seixas, um lutador pela democracia brasileira. Meus sentimentos de pesar à família e amigos", divulgou nas redes sociais.

 

O ministro do STF Gilmar Mendes usou o Twitter para lamentar a morte de Sigmaringa. "Um grande advogado, um mestre na arte da conciliação e da tolerância, um agregador por natureza e vocação. Um democrata na acepção da palavra. Fará muita falta ao Brasil e a nós, seus amigos", escreveu.

 

O ministro Luís Roberto Barroso também se manifestou.  “Sig foi uma das pessoas mais adoráveis que conheci. Bom caráter, plural, conciliador. Leal e dedicado na vitória e na derrota. O mundo podia ser povoado de gente como ele. Toda minha família o adorava. É um momento de grande tristeza para nós", disse. 

 

Relato de José Carlos Sigmaringa sobre o irmão

 

"Seu primeiro sonho foi ser jogador de futebol. Jogava bem, adorava jogar e jogou até quando a doença o contundiu. Mas a vida tinha outros planos para ele. Sig pai o batizou de Luiz Carlos em homenagem ao Cavaleiro da Esperança. Cedo entrou na militância política, seguindo o exemplo do pai e dos avós. Tinha 19 anos quando houve o golpe militar de 64. Resistiu. Primeiro no movimento estudantil. Estava lá na passeata dos 100 mil. Terminou o curso na Faculdade de Direito de Niterói e veio para Brasília, onde sua família já estava morando.

Desde o início da carreira se dedicou à defesa de presos políticos. Não selecionava nem discriminava os clientes. Simpatizante do Partidão, defendeu a todos os perseguidos pela ditadura militar, independentemente do matiz ideológico ou posição política. Defendeu a todos. Sempre de graça. Atuou intensamente na luta pela resistência democrática, participando dos movimentos pela anistia, organizando o Centro Brasil Democrático — Cebrad e pela representação política para Brasília.

Prestava assistência jurídica a movimentos sociais, como os Incansáveis Moradores da Ceilândia e a sindicatos. A luta pela redemocratização do país o levou a se tornar deputado já na primeira eleição em que o DF elegeu parlamentares. Sua atuação no Congresso foi reconhecida pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar — DIAP, como deputado nota 10.

Constituinte, foi membro da Comissão de Sistematização da Constituição Cidadã. Foi reeleito duas vezes. Atuava sempre na retaguarda, dedicando-se à superação das divergências para alcançar o entendimento, sempre se mantendo discreto. Gostava de ajudar a todos. Passou pelo antigo MDB; depois, PSDB e, por último, PT. Era íntimo dos donos do poder, mas nunca usou essa proximidade em benefício próprio. Em tempos de delações, corrupções, prisões justas e injustas, ele não foi sequer citado em inquéritos e investigações.


Morreu de complicaç%u014Des decorrentes de um transplante de medula óssea para curar a mielodisplasia, uma pré-leucemia. Dizem que a angústia conta muito para o surgimento da doença. Acho que foi isso que o derrubou. Ele não conseguiu resistir às injustiças e traições que presenciou. 


Vai, Sig, continue sendo gauche, doce, amigo e solidário! Por enquanto, estamos aqui. A luta continua, até que a morte nos reúna."

José Carlos Sigmaringa

 

 

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