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Correio Braziliense

HCB realiza nova cirurgia inédita no DF neste sábado; paciente tem 1 ano

Depois de separação de gêmeas siamesas, Hospital da Criança fará o procedimento conhecido como extrofia de bexiga em menininho de 1 ano e 11 meses


postado em 14/06/2019 18:26 / atualizado em 14/06/2019 19:50

O tempo da cirurgia, no Hospital da Criança, será de nove a 12 horas(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O tempo da cirurgia, no Hospital da Criança, será de nove a 12 horas (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Depois de a população brasiliense ter acompanhado — e torcido — pela separação das gêmeas siamesas Mel e Lis, em cirurgia realizada pelo Hospital da Criança de Brasília José de Alencar, a instituição se prapara para um novo desafio neste sábado (14/6): ajudar um garotinho de 1 ano e 11 meses a ter um desenvolvimento normal após nascer com uma malformação na bexiga e genitália.

Como no caso de Mel e Lis, a cirurgia no pequeno paciente, chamada extrofia de bexiga, é inédita no DF. O menino nasceu com a parede abdominal aberta, deixando expostas a bexiga e a genitália, que se desenvolveram unidas. Em uma intervenção anterior, separaram-se as estruturas malformadas. O que ocorrerá neste sábado (15/6) é a reparação da bexiga e da uretra. 

"Depois que reconstruirmos tudo, dando aos órgãos o formato que, desde o início, deveriam ter, devolveremos toda a estrutura para o seu lugar e ali fixaremos os órgãos novamente", explica Hélio Buson, coordenador da urologia do HCB e um dos responsáveis pela cirurgia.

Complexo e raro contra o método inovador

Entre nove e 12 horas. Este será o tempo necessário para que os médicos consigam realizar o procedimento inteiramente. A complexidade da cirurgia está associada à raridade. Segundo Buson, a extrofia é algo pouco comum, acometendo três a cada 100 mil recém-nascidos no país. No Distrito Federal, uma criança por ano nasce com essa malformação.

Para lidar com o problema, a equipe envolvida na cirurgia utilizará um método ainda pouco usado no país, mas bem mais eficaz que a reconstrução tradicional. A Técnica de Kelley consiste na correção da deformação da bexiga e da parede abdominal de forma a evitar o refluxo vesicoureteral e a incontinência, sem a necessidade de alterar os ossos do quadril. A técnica também permite uma recuperação mais rápida da criança, ao preservar outros órgãos. 
 
"Ela (a técnica) nos permite identificar e liberar os outros tecidos do organismo, em relação aos órgãos que estão malformados e que precisam ser reconstruídos. As outras técnicas nos permitiam uma resultados aquém do desejado. Essa técnica foi uma descrita na década de 1970 e não recebeu muita atenção pela grande dificuldade, mas com o avanço da tecnologia, com novos insturmentemotos cirúrgicos, com isso foi possível fazer a cirurgia de maneira mais segura", aponta Buson.
 
Para aplicar a Técnica de Kelley (nomeada após a idealização do urologista australiano Justin Kelley), uma equipe chegará a Brasília diretamente do Rio de Janeiro. O Grupo Cooperativo Brasileiro Multi-Institucional para o Tratamento de Extrofia de Bexiga pela Técnica de Kelley já operou seis crianças em todo o Brasil, sendo que outras seis estão em acompanhamento. 
 
"É muito pouco paciente para que determinada cidade tenha uma equipe pronta sempre, então nós juntamos um grupo de especialistas e viajamos pelo país para fazer as cirurgias", complementa.
 
Sobre a antecipação do procedimento, Buson é assertivo: "A expectativa é a melhor possível. Nós só estamos conseguindo realizar isso aqui por conta da existência de um hospital de ponta que tem estrutura humana e tecnologia. É muito difícil realizar esse tipo de cirurgia e com o apoio de todo o corpo clínico, da diretoria da instituição, a gente têm muita tranquilidade para fazer esse procedimento".

Um marco histórico

A separação de Mel e Lis foi um dos grandes feitos médicos da história do Hospital da Criança. Tudo foi minuciosamente preparado para a segunda operação das meninas. Além dos moldes em três dimensões, a equipe do hospital adotou insumos médicos e uniformes de cores diferentes para identificar as pacientes. Em referência à flor-de-lis, o rosa marcava todos os itens — desde toucas e estetoscópios a adesivos em seringas de anestesia — associados a Lis. O amarelo, pela semelhança sonora com o nome de Mel, identificava materiais e profissionais relacionados a ela.

Depois de receberem anestesia geral, as meninas foram posicionadas de bruços, uma de frente para a outra, sobre um molde colocado em duas macas unidas durante a cirurgia. Após a separação, as macas foram afastadas e os trabalhos continuaram individualmente. Líder da equipe de enfermagem durante a cirurgia, Carlos Eduardo da Silva auxiliou no processo de escolha do time e falou sobre o comprometimento dos envolvidos. "Desde o início, sabíamos que seria um desafio. Muita gente estava de férias e veio para compor a equipe. Minha perspectiva é a mesma dois pais: quero que elas fiquem bem", ressaltou.
 
No âmbito acadêmico, a operação das gêmeas foi comemorada por docentes da área médica. O cirurgião pediátrico Simônides da Silva Bacelar, da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), destaca que o procedimento é considerado de extrema complexidade. "Esse tipo de operação é muito rara. Poucos casos ocorreram no Distrito Federal. Nessa, por exemplo, houve prognóstico positivo, já que não houve miscigenação do cérebro", ressalta.

Com 39 anos de atuação no Hospital Universitário de Brasília (HUB), Simônides conta que viu apenas um caso de gêmeos siameses na unidade de saúde. "As crianças nasceram com a pélvis ligada, junto com o ânus, por isso, não foi possível realizar cirurgia para separação total, apenas parcial. Nesse caso, a vida dos pacientes corria riscos caso fizéssemos o procedimento", relata.

Para o professor, ter esse tipo de cirurgia realizada na rede pública de saúde é uma conquista. "Esse caso é visto com bons olhos. Toda a equipe dos hospitais de Base e da Criança é forte. Essa cirurgia pode ser um exemplo para o país todo."

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