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Correio Braziliense

Delegada Jane Klébia: empoderamento é questão humanitária, não de esquerda

Jane Klébia, chefe da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá), defende políticas públicas para mulheres, negros e grupos desprivilegiados, afirmando que divisão entre direita e esquerda impede avanços


postado em 02/12/2019 15:59 / atualizado em 02/12/2019 16:52

Delegada tem história de superação e hoje mostra representatividade (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Delegada tem história de superação e hoje mostra representatividade (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
“Eu era preta, pobre e morava longe”, apresenta-se Jane Klébia, delegada-chefe da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá), em entrevista ao CB.Poder — parceria do Correio com a TV Brasília —nesta segunda-feira (2/12).

Agora com cargo de destaque e sendo referência principalmente para mulheres e pessoas de baixa renda do Distrito Federal, ela afirma que o Estado precisa de políticas públicas para combater as desigualdades (veja a íntegra da entrevista abaixo).

A delegada também critica o momento atual do país, devido à divisão da sociedade em lados políticos. “Quando se faz essa luta de direita e esquerda, empobrecem as ações sociais. As pessoas acham que questões de empoderamento de grupos minoritários são de esquerda. Não são, são questões humanitárias. Com essas divisões, a sociedade não vai crescer como um todo. Precisamos de políticas afirmativas e precisamos entender que elas são de resgate”, opina.

Questionada sobre as desigualdades sociais, Jane afirma que é necessário fomentar ferramentas de correção em diferentes contextos. Usando a história dela como exemplo, a delegada detalha que passou por competições desiguais para entrar no serviço público.

“Para o concurso de delegado de polícia, eu tinha cinco colegas com pais com condições financeiras boas, que só precisavam estudar. Eu era preta, pobre e morava longe. Usava transporte público, ia para a biblioteca pegar livros, porque não tinha dinheiro para comprar, e precisava me esforçar mais do que outra pessoa. É por isso que acredito na política de cotas.”

Polícia acolhedora

Jane comenta ainda sobre seu trabalho de proximidade com a sociedade, dizendo ser esse o caminho ideal para combater crimes como a violência doméstica. “Para mim, é necessário conscientizar. Entender que a mulher tem seu lugar de fala, de ação. Isso passa pela educação, pela escola, com palestras ou visitas à comunidade. Vejo muitos casos de mulheres que não querem fazer a denúncia contra o agressor por uma série de motivos. Então converso, ouço, tento ver como ajudar para que ela não tenha dependência financeira ou emocional do homem”, conta.

Os jornalistas do CB.Poder também lembraram de recentes casos ede possíveis excessos por parte das forças de segurança, como a operação da Polícia Militar de São Paulo durante um baile funk em Paraisópolis, na madrugada deste domingo (1º/12), quando nove pessoas morreram pisoteadas. Para a delegada, é necessário reforçar o treinamento policial para que esses casos recorrentes tenham fim.

“É com muita tristeza que vemos isso. Eu acredito na polícia forte e acolhedora, que não pode se afastar do cidadão. O treinamento do policial precisa ser repensado, porque eles passam por situações de tensões muito grandes e precisam ter cuidado de refletir muito bem antes das operações.”

Para Jane Klébia, uma das possíveis soluções propostas para evitar esses casos, a Lei de Abuso de Autoridade, pode acabar atrapalhando o trabalho da segurança pública. “Ter medo de trabalhar é complicado. Temos que ter um trabalho sério e consciente, mas ela pode aumentar a criminalidade, pode enfraquecer o trabalho de policiais que podem ser punidos por fazer a coisa certa”, avalia.




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