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Correio Braziliense

Isolamento social leva cristãos a celebrar on-line a Semana Santa

Em meio ao isolamento social, cristãos vivenciam a Semana Santa em casa, assistindo a missas e a cultos pelas redes sociais


postado em 09/04/2020 06:00 / atualizado em 09/04/2020 10:54

A família de Amilton Mendes este ano estará conectada com outros fiéis pelas redes sociais(foto: Arquivo Pessoal)
A família de Amilton Mendes este ano estará conectada com outros fiéis pelas redes sociais (foto: Arquivo Pessoal)
Nos bancos da igreja, nenhum fiel. Estão todos em suas casas, assistindo ao padre que, do altar, celebra a missa olhando para um celular. Em tempos de pandemia, essa é a realidade que os católicos têm vivido. E, durante a semana santa, não poderia ser diferente: esse importante momento de para centenas de cristãos é vivenciado por meio de transmissões feitas pelas redes sociais.

A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos, em que é celebrada a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e termina com sua ressurreição no Domingo de Páscoa, no próximo dia 12. O vigário da Paróquia Nossa Senhora do Lago, Wilker Ferreira Lima, explica a importância da data. “Para nós, é vista como a ressurreição de nosso senhor Jesus Cristo. É o período solene, a grande semana, em que preparamos nossas famílias e nossos corações para receber e aceitar aquele que morreu e ressuscitou por nós”, afirma.

Wilker diz que a celebração durante esses dias ocorre para que os cristãos vivam um período de meditação quanto à maneira como cada um vive. “É para percebermos que, ainda hoje, temos as mesmas atitudes. Proclamamos Jesus como filho de Davi, como rei da nossa vida, e, aos poucos, por conta dos problemas do mundo e de tudo aquilo que estamos vivendo, fazemos a opção de esquecê-lo. Isso demonstra uma espécie de traição, a exemplo de Judas.”

O vigário ressalta que, anualmente, a tradição é que os fiéis participem das celebrações solenes e, mesmo que estejam todos em quarentena, isso não deve mudar. Segundo Wilker, a orientação é de que todos permaneçam em suas casas: “Aconselhamos que os fiéis reúnam suas famílias para assistirem às missas diárias e celebrem a Semana Santa em ritmo de alegria. Ela não pode ser vista com tristeza, pois celebramos a morte para, assim, comemorarmos a ressurreição, a vida eterna.”

Esperança e fé

Positivismo. Esse é o lema que as irmãs Camila e Carolina David Miranda, 22 e 26 anos, respectivamente, têm buscado seguir durante esta semana. Elas contam que a tradição da família vai se manter neste ano, com uma mudança: não poderão ir até a igreja. “No primeiro momento, isso quebrou o nosso coração, porque é um período único. Mesmo que muitos não entendam o significado, nós sabemos a falta que faz”, lamenta a universitária Camila. “Ficar distante da Santa Eucaristia, o corpo de Cristo, tem sido muito duro”, completa a engenheira civil Carolina.

As irmãs Camila e Carolina David Miranda próximas ao altar da casa delas, onde celebrarão a Páscoa(foto: Arquivo Pessoal)
As irmãs Camila e Carolina David Miranda próximas ao altar da casa delas, onde celebrarão a Páscoa (foto: Arquivo Pessoal)
Apesar de a tristeza ter abraçado a família em um primeiro momento, elas explicam que tentam não se abalar. “Quero pensar que este tempo de recolhimento que Deus nos deu sirva para aprendermos a viver melhor a Semana Santa. Então, farei com que seja a melhor vivida por mim”, exalta Camila. Para Carolina, não é diferente. Ela acredita que o momento pede ao povo mais fé e esperança. “Deus permitiu que isso acontecesse neste momento, então o que precisamos fazer é vivenciá-lo em oração, nas nossas casas, com nossas famílias. É voltar o nosso interior para Cristo mais do que nunca”, reforça.

As irmãs dizem que a tradição será mantida pela família. “Vamos sempre às celebrações durante toda a semana. No Domingo de Páscoa, reunimos a família em um almoço e vamos à missa. Este ano, faremos tudo da mesma forma, com a diferença de que todas as celebrações serão acompanhadas pela televisão”, explica Carolina. Para Camila, a mensagem é clara: “Usem este momento a favor de vocês. Por mais difícil e complicado que possa parecer, não é hora de enfraquecer na fé, mas, sim, se erguer. Se querem nos tirar do calvário, que possamos manter nossa intercessão por aqueles que estão lá, principalmente nossos sacerdotes”, pede.

Reconciliação com Deus

Nova vida, reconciliação e libertação: a Páscoa vai muito além de ovos de chocolate. Marco Antônio Carvalho, pastor da Igreja Cristã Evangélica Águas Claras, resume o significado da Semana Santa. “É a oportunidade para nos reconciliarmos com Deus, por meio do seu sacrifício na cruz do calvário.” O religioso detalha que a data é comemorada por boa parte dos cristãos por meio de celebrações que recontam a última semana de Jesus com musicais, teatros e, principalmente, mensagens bíblicas. “O auge de nossas celebrações é o Domingo da Ressurreição. Muitas igrejas costumam se reunir nas primeiras horas do domingo para se recordarem que, no início da manhã, Jesus Cristo ressuscitou”, completa.

Celebração da Páscoa na Igreja Cristã Evangélica Águas Claras em anos anteriores: necessidade de isolamento social(foto: Divulgação ICE Aguas Claras)
Celebração da Páscoa na Igreja Cristã Evangélica Águas Claras em anos anteriores: necessidade de isolamento social (foto: Divulgação ICE Aguas Claras)
Em meio ao isolamento, Marco diz que a recomendação aos fiéis é que celebrem a data com aqueles que amam, sempre em oração. “Cada um deve estar em família, separando um tempo para orações, cânticos e reflexão sobre a importância do sacrifício de Cristo — assim como tem sido desde 15 de março, primeiro domingo que cancelamos nossas reuniões presenciais”, explica. Para o pastor, o importante é que a comunidade se mantenha positiva. “Peço que mantenham a esperança naquele que venceu a morte. As dificuldades deste tempo não se comparam com a expectativa da vida por vir, pois a nossa esperança não se limita apenas a esta Terra”, reforça.

Para Marco, o momento é triste, mas há a certeza de que no momento certo os encontros retornarão. “Um coração pastoral jamais deixará de ser, mesmo em tempos de dispersão. Em outros momentos da história, os cristãos, por determinados períodos, não puderam também se reunir, os sinos não batiam, as portas das igrejas estavam fechadas, mas não seus corações”, ressalta.

Entre as celebrações dos protestantes, tradicionalmente, fazem parte a Santa Ceia, símbolo de uma nova aliança. O pastor diz que é o sacramento em que se recorda a obra redentora de Cristo, como o cordeiro de Deus que foi morto em favor dos pecados. Além disso, há as orações de gratidão, cultos com cantatas, que anunciam, por meio da música, os eventos principais deste momento tão importante. E finalizam ouvindo a exposição da palavra de Deus. Este ano, as celebrações serão realizadas por meio de transmissão ao vivo nos veículos da igreja.

Sempre firmes


As tradições da família do representante comercial Amilton Mendes, 47, mudarão nesta Semana Santa. Enquanto, em anos passados, a Páscoa era celebrada na igreja, com encenações, reflexões, louvores e filmes sobre a morte e ressurreição de Cristo, este ano, será feita uma santa ceia em casa, com uma transmissão on-line com os membros e o pastor de sua denominação, Igreja do Evangelho. O representante comercial lamenta a situação. “Estamos tristes. Não poder sentir o calor humano de um abraço, ou um aperto de mão como cumprimento. Como bons brasileiros que somos, isso nos passa uma sensação ruim e estranha”, lamenta.

Apesar de estarem assustados com o problema, Amilton reforça: “Cremos em algo que está acima de nós, algo maior e poderoso. Então estamos com esperança e tentando nos manter calmos e firmes”, diz. Ele aconselha os amigos que se reúnam com quem estiver em casa. “Precisamos permanecer firmes. Façam algo que possa lhe tirar a atenção de tanta notícia ruim, busquem Deus o quanto puderem. Estejam felizes nas dificuldades e não percam o equilíbrio e a vontade de viver. Dias melhores virão”, acredita.

A programação da Arquidiocese de Brasília


As celebrações serão transmitidas pelo Instagram (@arqbrasilia) e site da arquidiocese (www.arqbrasilia.com.br).

Quinta-feira Santa: o Lava-Pés, já opcional, e a procissão ao fim da missa na Ceia do Senhor foram omitidos. O Santíssimo Sacramento será mantido no tabernáculo. Horário da missa: 20h.

Sexta-feira Santa: à celebração da Paixão do Senhor, às 15h, na Oração Universal, deve ser acrescentada uma prece especial “pelos que padecem a pandemia do Covid-19”. A coleta para os Lugares Santos será transferida para uma data a ser oportunamente divulgada.

Sábado Santo: omite-se o acender o fogo e acende-se o círio e, omitindo a procissão, segue-se o Precônio Pascal. Horário da Vigília Pascal: 15h.

Domingo de Páscoa: missa às 10h30


Cultos
A celebração do Domingo de Páscoa na Igreja Cristã Evangélica (ICE) Águas Claras será transmitida às 10h e às 19h pela página do Facebook (www.facebook.com/ iceaguasclaras).
 
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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