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Correio Braziliense

Saiba quais podem ser as estratégias para lidar com o coronavírus no DF

Pesquisadores divulgam nota com 11 princípios para nortear ações durante a pandemia. Estudo mostra quatro simulações e, no cenário mais catastrófico, mortes poderiam passar de 6 mil. No entanto, especialistas consideram hipótese improvável


postado em 28/04/2020 06:00 / atualizado em 28/04/2020 10:29

Exames por drive thru começaram a ser feitos na terça-feira passada. Ontem, cinco novos pontos de testagem foram ativados(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Exames por drive thru começaram a ser feitos na terça-feira passada. Ontem, cinco novos pontos de testagem foram ativados (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Enquanto não surgem soluções definitivas para lidar com o novo coronavírus, analisar dados científicos pode ajudar na elaboração de recomendações para mitigar a disseminação dele. Ontem, pesquisadores que compõem o observatório multidisciplinar PrEpidemia divulgou uma nota técnica com 11 princípios estratégicos que podem auxiliar gestores públicos no combate à Covid-19 no Distrito Federal. Além das propostas, o documento apresenta a simulação de quatro cenários, nos quais as consequências da pandemia são estimadas com base na variação do rigor das medidas de contenção impostas no DF.

Entre as quatro simulações, a segunda seria a mais adequada, de acordo com o documento (leia Compilado). Ela prevê medidas de contenção ligeiramente mais flexíveis do que aquelas que entraram em vigor na capital federal em 19 de março e que, de lá para cá, passaram por modificações. Considerando-se esse cenário, o número de mortes causadas pela Covid-19 poderia ficar abaixo de 800 no acumulado entre 27 de fevereiro de 2020 e 31 de dezembro de 2021.

Em outra situação hipotética, na qual não haveria qualquer medida adotada para frear a disseminação do vírus no DF, o número total de mortes poderia passar de 6 mil, no intervalo de 27 de fevereiro a 31 de dezembro de 2020. Apesar da representação catastrófica, chegar a esse patamar seria improvável, de acordo com os pesquisadores, pois a simulação leva em conta um cenário de total ausência de ações restritivas. Diante das consequências da doença, a própria sociedade reagiria para se proteger.

“Desenhamos modelos que permitirão facilitar análises do governo. (A morte de) 6 mil pessoas é um quadro hipotético que não existe, porque a sociedade não fica paralisada diante do processo. Existem reações naturais que alterariam o processo da disseminação e esse número, dentro dessa realidade, poderia ser reduzido”, observou o professor do Instituto de Geociências da UnB Edilson de Souza Bias.

A equipe do observatório que elaborou a nota técnica é composta por 18 pesquisadores voluntários de áreas como engenharia, geociências, matemática e saúde. Eles fazem parte da Universidade de Brasília (UnB), da Fundação de Ensino e Pesquisa em Ciências da Saúde do DF (Fepecs), do Instituto Federal de Brasília (IFB), da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), além de instituições públicas e particulares parceiras.

Custo-benefício


Pesquisador da iniciativa GigaCandanga, Paulo Angelo Alves Resende lembrou que a nota tem três objetivos: avaliar a situação da Covid-19 no DF, as medidas adotadas pela sociedade e pelo governo, além dos impactos das ações para a propagação da doença; ver os cenários de evolução possíveis; e propor princípios estratégicos norteadores, não soluções específicas. “As medidas adotadas, até então, têm efetividade. Mais na frente, questionamos a sustentabilidade delas. Não é razoável supor que, se fechar tudo, consiga-se ficar por muito tempo. Há impactos sociais e econômicos”, comentou.

A equipe destaca que, além do custo-benefício, as informações que os gestores consideram na hora de tomar decisões levam em conta o impacto gerado na população como um todo. No entanto, esse processo precisa avaliar as particularidades de cada região administrativa do DF e como essas áreas são afetadas pela doença. Para garantir a efetividade das medidas, é importante que ocorram reavaliações periódicas da pandemia (leia Princípios estratégicos).

Para Ana Carla Bittencourt Reis, professora da Faculdade de Tecnologia da UnB, se o monitoramento for constante, será possível perceber quais ações tomaram o rumo esperado e quais fugiram de controle. “O cenário dois varia de forma suave com o que foi adequado, e surtiu efeito nisso. Ele tem uma variação pequena em relação ao cenário mais conservador. Se eu tomar ‘N’ decisões em paralelo, como vou saber o impacto de cada uma? Esse é um cenário mais complexo”, analisou.

Testes


A Secretaria de Saúde abriu novos postos de testagem em massa para detecção do novo coronavírus. Nesta segunda fase, além do Plano Piloto e de Águas Claras, Ceilândia, Guará, lagos Norte e Sul, bem como Sobradinho e Guará ganharam pontos de atendimento drive-thru. Ontem, profissionais da saúde testaram 5.251 pessoas. Entre eles, 17 receberam resultado positivo para a Covid-19. Ontem, muitas pessoas tiveram problemas para marcar uma data e, por isso, não conseguiram atendimento.

Morador da cidade, o frentista Darlan Sousa, 41 anos, chegou ao posto de testagem a pé, mas não havia marcado horário de atendimento. Como a fila de carros estava pequena, enfermeiros o orientaram a entrar no site da Secretaria de Saúde e efetuar o agendamento na hora. “Não sabia que precisava marcar com antecedência. Há dias não estou sentindo o gosto dos alimentos. E, como lido com clientes o dia inteiro, eu me preocupo”, disse.

Desde ontem, para fazer o teste, é preciso fazer agendamento prévio pelo endereço eletrônico sistemas.df.gov.br/mteste, e efetuar um cadastro. Em seguida, um e-mail de confirmação pedirá a chave de ativação disponível no próprio portal. Por fim, o usuário receberá um comprovante por e-mail, com informações sobre local e hora do exame. O documento deve ser apresentado no ponto de testagem.

Princípios estratégicos


Confira as ações sugeridas para a promoção e imposição de medidas sustentáveis, com foco no exercício seguro de funções e interações sociais:

1 - Estratificação por espaço geográfico e pelas dimensões que compõem a sociedade

2 - Avaliação contínua da pandemia em ciclos curtos

3 - Geração de dados para acompanhamento

4 - Definição de protocolos por área para garantir o distanciamento social e segmentar a população
5 - Transparência e participação social no acompanhamento e tomada de decisões

6 - Priorização de medidas resilientes e com baixo impacto na sociedade e na economia

7 - Gestão da infraestrutura hospitalar para pandemia e para atendimento de outros pacientes

8 - Definição de protocolos padronizados para o tratamento da Covid-19
9 - Promoção do acompanhamento psicológico da sociedade

10 - Promoção da alteração da dinâmica de atuação e de interação da sociedade

11 - Governança compartilhada entre DF, cidades e municípios vizinhos

Fonte: Nota Técnica 1 — Cenários da epidemia de Covid-19 no Distrito Federal; Observatório PrEpidemia, abril/2020

Compilado


Veja as simulações com base nas variações do rigor das medidas impostas pelo GDF:

Cenário 1: Relaxamento total das medidas de contenção impostas: risco de sobrecarga do sistema de saúde, mas a situação é hipotética e improvável devido a uma inevitável reação social que se seguiria
» Mortes acumuladas: mais de 6 mil

Cenário 2: Medidas de contenção de impacto ligeiramente mais flexíveis que as atuais: contexto mais equilibrado entre os quatro que demandaria a implementação de medidas sustentáveis
» Mortes acumuladas: abaixo de 800

Cenário 3: Medidas de contenção de impacto moderadamente mais flexíveis que as atuais: risco de sobrecarga do sistema de saúde
» Mortes acumuladas: mais de 2,5 mil

Cenário 4: Medidas de contenção de impacto mais rígidas que as atuais: demandaria medidas de contenção fortes, o que poderia ser insustentável e implicar custos econômico-sociais altos e prolongados
» Mortes acumuladas: abaixo de 120


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