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Correio Braziliense

Rhuan Maycon: um ano após o assassinato, famílias tentam recomeçar a vida

'A única pessoa que podia proteger e amar não pôde fazer isso. Ela interrompeu a vida do meu neto de uma forma trágica e macabra. Isso não tem perdão', afirma avó paterna do menino morto pela própria mãe


postado em 01/06/2020 17:33 / atualizado em 01/06/2020 18:20

Rhuan Maycon foi esfaqueado e esquartejado pela mãe e pela madrasta(foto: Facebook/Reprodução)
Rhuan Maycon foi esfaqueado e esquartejado pela mãe e pela madrasta (foto: Facebook/Reprodução)
Há um ano, a capital do país presenciou um dos crimes mais bárbaros da história: o assassinato de Rhuan Maycon, de 9 anos. O menino foi esfaqueado e esquartejado pela mãe, Rosana Auri da Silva Candido, e pela companheira dela, Kacyla Priscyla Santiago Damasceno, mãe da irmã de criação dele, de 8 anos. O caso ocorreu na casa onde eles moravam, na Quadra 625 de Samambaia, no dia 31 de maio. Enquanto as acusadas continuam presas aguardando julgamento, as famílias das crianças tentam recomeçar a vida.

Foi com a notícia do assassinato que as famílias de Rhuan e da irmã de criação souberam o paradeiro das crianças. Saíram de Rio Branco, no Acre, e viajaram mais de 2 mil quilômetros para chegar à capital. “Tudo desabou naquele momento. É um sofrimento inexplicável que passamos e que continua, mesmo um ano depois de tudo isso. Nossa tristeza não é apenas porque ele morreu, mas pela forma cruel como nosso pequeno foi tirado das nossas vidas”, lamenta a avó paterna da vítima, Maria de Oliveira Lima, 54.

“A única pessoa que podia proteger e amar, não pôde fazer isso. Ela interrompeu a vida do meu neto de uma forma trágica e macabra. Isso não tem perdão. O que aconteceu com o Rhuan mudou a minha família completamente. Meu filho (pai de Rhuan) sofre calado, não consegue se abrir. Meu marido teve o olhar alegre substituído pela tristeza. O Rhuan era um menino doce, carinhoso e com um sorriso feliz no rosto. Ele é amado intensamente por todos nós. A gente tenta seguir a nossa vida, mas parece que a cada dia que passa, nosso sofrimento só aumenta”, continua.

Segundo Maria, a família busca forças para superar a perda de Rhuan. “Tivemos o pior ano das nossas vidas, mas tentamos seguir em frente. Nós temos mais dois netinhos e é por eles que a gente prossegue se mantendo em pé e lutando contra tantas adversidades. Não tem um dia sequer que eu não pense do meu netinho e em como ele faz falta”, relata. 

Para o servidor público Rodrigo Oliveira, 30, pai da irmã de criação de Rhuan, a prisão das acusadas foi importante no processo de recomeço. “Tenho certeza que elas estão sofrendo muito, pois já estão pagando pelo que fizeram com ele. A Justiça vem, antes de tudo, de Deus. E ela começou há um ano atrás, quando foram presas por tudo o que fizeram com o Rhuan. O julgamento e tudo o que está por vir será consequência das atitudes delas”, afirma. 

Rodrigo também explica que a filha conseguiu se adaptar à nova vida em Rio Branco e que, aos poucos, se desapega dos ensinamentos fanáticos pregados pela mãe. “Ela ainda tem alguns costumes e comportamentos inadequados, mas nada que não possa ser mudado. Antes, ela me temia, pois tinha a visão que eu era um monstro. Isso é diferente agora, e a presença da minha mulher nesse processo foi fundamental”, frisa. 

“Minha filha se recuperou bem diante de toda a situação e só posso agradecer a Deus. Ela é uma garota saudável, esperta, e que conseguiu se adaptar ao convívio familiar, na igreja, na escola e entre os amigos. Ela tem recebido muito carinho e atenção. Claro que, em meio ao cenário de pandemia, o convívio social ficou mais difícil, mas continuamos desenvolvendo atividades saudáveis com ela”, reflete Rodrigo.


Fuga do Acre e assassinato

Rosana e Kacyla fugiram juntas de Rio Branco (AC) em 2014. Elas levaram Rhuan e a irmã de criação, e passaram a viver sem um endereço fixo. Residiram em dezenas de locais, como Trindade (GO), Goiânia (GO) e Aracaju (SE), até que chegaram ao Distrito Federal. Durante todos esses anos, as famílias paternas das crianças tentavam encontrá-las, mas sem sucesso.

Por anos, os filhos das suspeitas viviam em situação de maus-tratos e de constante medo. Não podiam sair de casa, ter contato com outras crianças ou frequentar escolas. A menina saía da residência apenas para acompanhar a mãe, Kacyla, e a madrasta, Rosana, na igreja. Rhuan não tinha sequer esse direito e passou a maior parte da vida como prisioneiro da própria mãe. 
 
Rosana Auri da Silva Candido e a companheira dela, Kacyla Priscyla (foto: Alexandre de Paula/CB/DA press)
Rosana Auri da Silva Candido e a companheira dela, Kacyla Priscyla (foto: Alexandre de Paula/CB/DA press)
 

Rhuan foi torturado e chegou a ter o órgão genital extirpado por quem deveria protegê-lo. Era tratado como uma garota: tinha os cabelos compridos e usava somente as roupas da irmã de criação. Todo o horror que o menino passou foi descoberto em 1º de junho de 2019, quando agentes da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia) prenderam em flagrante Rosana e Kacyla.

A denúncia partiu de um grupo de adolescentes que jogavam futebol na Quadra 425 de Samambaia, onde a mãe tentou desovar uma mala com partes do corpo do garoto. Aos policiais, elas alegaram que cometeram o homicídio porque Rhuan seria um “empecilho” ao relacionamento amoroso. Negaram que a irmã de criação teria visto o assassinato, mas a menina chegou a desenhar um corpo ensanguentado, com os órgãos de fora.
 
Rosana e Kacyla continuam presas preventivamente na Penitenciária Feminina do DF, a Colmeia. Elas estão isoladas uma da outra e da população carcerária, em decorrência darepercussão do caso. A medida foi tomada para evitar que as acusadas pudessem ser agredidas ou mortas. O casal responde por homicídio qualificado, lesão corporal gravíssima, tortura, ocultação e destruição de cadáver, além de fraude processual. A pena pode chegar a mais de 57 anos de prisão. 

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