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Correio Braziliense

O que um representante da indústria tabagista fazia em um congresso médico?

Patrick Picavet, diretor médico de uma fabricante de cigarros, apresentou no 73º Congresso Brasileiro de Cardiologia estudos sobre formas menos nocivas de consumir tabaco


postado em 19/09/2018 18:10

Picavet ao lado do poster que apresentou no Congresso Brasileiro de Cardiologia(foto: Divulgação)
Picavet ao lado do poster que apresentou no Congresso Brasileiro de Cardiologia (foto: Divulgação)
 
No último fim de semana, entre os dias 16 e 18, Brasília recebeu especialistas em cardiologia do mundo todo para o 73º Congresso Brasileiro de Cardiologia. Entre tantos médicos e cientistas no encontro, Patrick Picavet era uma presença inusitada. Isso porque o pesquisador não só trabalha para a maior fabricante de cigarros do mundo como estava ali para apresentar estudos científicos que, no fim das contas, podem reduzir drasticamente o consumo de cigarros.

Explica-se. Picavet é diretor de Assuntos Médicos da Philip Morris International, empresa que vende milhões de cigarros diariamente em todo o planeta, mas que, no último ano, anunciou sua intenção de contribuir para um mundo livre de cigarros. 

Evidentemente, não se trata de um suicídio corporativo. Faz alguns anos que a PMI passou a desenvolver produtos que usam o tabaco, mas, diferentemente do que ocorre com o cigarro tradicional, não passam pela queima da planta, mas apenas seu aquecimento, os chamados sistemas de aquecimento de tabaco (THS, na sigla em inglês). Assim, sem combustão, centenas de toxinas cancerígenas deixam de ser liberadas, tornando o consumo do tabaco menos nocivo.

Em vários países, a empresa já está substituindo suas fábricas de cigarro por plantas de produção do IQOS, um THS que tem conquistado fatias importantes no mercado internacional (o dispositivo ainda não teve a venda aprovada no Brasil).

A estratégia da PMI tem gerado controvérsia. Enquanto alguns especialistas consideram positiva qualquer iniciativa que ofereça aos fumantes alternativas menos nocivas que o cigarro, outros ressaltam que a fabricante não abandonou o negócio de cigarros e está apenas introduzindo um novo produto no mercado, que, embora possa fazer menos mal, não deixa de ser danoso ao organismo.

O Correio conversou com Picavet sobre essas questões e os estudos que apresentou em Brasília sobre os THS. Leia a seguir.

Quais são os principais resultados que o senhor veio apresentar em Brasília?
Apresentamos o resultado de três estudos que investigaram o potencial de sistemas de aquecimento de tabaco (THS, na sigla em inglês) para reduzir o risco de doença cardiovascular. O primeiro, um estudo in vitro em laboratório, mostrou que a fumaça emitida por THS, em comparação à do cigarro, promove menor adesão de monócitos na artéria coronária (o que provoca aterosclerose). O segundo, feito com camundongos, mostrou que a exposição à fumaça de THS gerou uma progressa mais lenta da aterosclerose do que a fumaça do cigarro. Já o terceiro, um estudo clínico, mostrou que, ao trocar o cigarro por THS, fumantes tiveram os riscos de doenças que afetam o coração e o pulmão reduzidos.

Como cientista, o senhor diria que é seguro para um médico recomendar THS a um paciente que está tentando parar de fumar?
Antes de mais nada, não existem produtos que contêm nicotina ou tabaco seguros, e a melhor opção para qualquer fumante sempre é parar. Para fumantes adultos que continuam a fumar, no entanto, os dados científicos disponíveis até agora indicam que mudar para produtos que aquecem, mas não queimam o tabaco ou cigarros eletrônicos é uma opção muito melhor que continuar a fumar cigarros. Fumantes que não largam o cigarro deveriam consultar seus médicos para identificar a melhor opção.

Quais são os males que os THS causam?
Eles contém tabaco e nicotina, que é viciante. Não são produtos livres de risco. No entanto, os dados mostram que o THS reduzem as emissões de toxinas encontradas nos cigarros em mais de 90%, em média.

Por que o THS desenvolvido pela Philip Morris tem tanta nicotina?
O produto foi desenvolvido como uma estratégia de redução de danos e substituição de cigarros. Assim, ele precisa ser aceitável para fumantes. Entre os quesitos para isso, a nicotina, ao lado de sabor, ritual e experiência sensorial, desempenham um importante papel para que os fumantes consigam mudar para o THS. Nossos estudos mostram que os fumantes que mudaram para o THS alcançam níveis de satisfação comparáveis aos obtidos com os cigarros, o que é fundamental para que os THS sejam uma alternativa ao cigarro.

Mas a nicotina faz mal ao organismo, não? Quais os males causados pela substância?
A nicotina é viciante e não é livre de risco, mas também não é a principal causa das doenças relacionadas ao cigarro. Estas são provocadas por partículas que se formam quando o tabaco é queimado. O Royal College of Physicians, em 2016, publicou um relatório no qual afirma que "a nicotina, em si, não é uma droga altamente ameaçadora". A nicotina, prossegue o relatório, "aumenta a frequência cardíaca e a pressão sanguínea e gera uma conjunto de efeitos desconfortáveis, mas não é um carcinogênico". É importante adicionar a essa descrição que a nicotina afeta a saúde da mãe e do feto, assim como o desenvolvimento cerebral, não devendo ser usada por mulheres grávidas e jovens.

Não seria importante que outros cientistas, sem ligação com a indústria tabagista, conduzissem estudos sobre os THS?
Sim. A corroboração e a verificação dos nossos resultados por pesquisadores e especialistas independentes é um passo crucial para a aceitação das pesquisas conduzidas pela Philip Morris International. Agora que o produto está no mercado (de diversos países), nós começamos a ver um número crescente de publicações independentes sobre os THS, além de relatórios governamentais, como nos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. São estudos que focam desde a química presente nos aerossóis até o impacto na saúde dos usuários. Ficamos encorajados de ver que esses trabalhos estão, geralmente, em acordo com o nosso.

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