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Correio Braziliense

Cannes x Netflix: Especialistas acreditam em redesenho das premiações

Festival de Cannes começa sem produções da Netflix, mas embate está longe de acabar


postado em 15/05/2018 10:40 / atualizado em 15/05/2018 10:45

Segundo especialistas, a tendência é a Netflix se distanciar de Cannes(foto: RYAN ANSON)
Segundo especialistas, a tendência é a Netflix se distanciar de Cannes (foto: RYAN ANSON)

 
Que a Netflix está oficialmente excluída da edição do famoso Festival de Cannes deste ano não é mais segredo para ninguém. Entretanto, a decisão não pode ser encarada como um simples banimento. Especialistas e profissionais do cinema apontam importantes parâmetros para o futuro desta briga em grandes premiações e para o cinema. Além disso, a empresa promove ação de desafio perante ao festival ao tentar um comprar uma das exibições já selecionadas.

Para quem ainda não estar a par: a exclusão da Netflix do festival teve como principal justificativa a não veiculação das produções nas salas de cinema do país – assim como ocorrerá com todas as plataformas de streaming com este preceito. Contudo, o pedido é muito difícil de ser atendido pela Netflix, já que a legislação francesa aponta, claramente, que os filmes só podem ser exibidos em plataforma de streaming após 36 meses da última exibição nas salas de cinema que foram distribuídos. “A França, especificamente, é um país onde a legislação do audiovisual é muito protecionista, muito consciente, como inclusive deveria ser aqui”, lembra o cineasta brasileiro José Joffily, nome por trás de produções como Olhos azuis (2009) e Quem matou Pixote? (1996), ao Correio.

Festivais do streaming


A decisão sobre o banimento não é unanimidade entre especialistas e profissionais do cinema. Por exemplo, Santiago Dellape, cineasta e presidente da ABCV (Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo), é a favor do veto de Cannes. Mas para professora do Departamento de Audiovisual da Universidade de Brasília (UnB), Dácia Ibiapina, a exclusão não leva em conta a evolução do audiovisual. Independentemente das opiniões divergentes, ambos concordam: o circuito de premiações e o próprio cinema passam por mudanças consideráveis.
 
Elenco de 'Okja', produção da Netflix foi a Cannes ano passado. Na ocasião, produção foi vaiada por não ter sido exibida previamente nos cinemas(foto: ALBERTO PIZZOLI/AFP)
Elenco de 'Okja', produção da Netflix foi a Cannes ano passado. Na ocasião, produção foi vaiada por não ter sido exibida previamente nos cinemas (foto: ALBERTO PIZZOLI/AFP)
 

Para o futuro de Cannes sem a Netflix, Dellape acredita que uma alternativa viável pode ser uma premiação a parte para o streaming, já que este mercado pode coexistir paralelamente. “Eu vejo que elas não podem dividir, mas acho que esses próprios canais precisam se reinventar, é possível, e mais coerente, ter um prêmio só para o streaming. O que não dá para fazer é ter uma premiação que tem dois pesos e duas medidas”, defende.

Dentro deste contexto é importante lembrar que o Festival de Cannes implantou, a partir deste ano, um evento alternativo de premiação somente de projetos para séries e filmes televisivos. O Canneseries ocorreu entre 7 e 11 de abril. A mostra não contemplou produções do streaming da Netflix, mas teve série norte-americana de canal aberto nos Estados Unidos.

Banimento francês?


Dácia, por sua vez, responde a uma preocupação comum sobre a exclusão do streaming de Cannes: tal ação não será contagiada em premiações. “A força do streaming é muito grande, representa uma renovação, e prêmios como Oscar são muito industriais e afetados por esta força, acho que essa situação dificilmente chegará aos Estados Unidos”.

Joffily também corroborá com Dácia comentando que o protecionismo francês é muito mais viável a um banimento: “É um dos poucos países onde de fato tem mais filmes nacionais do que norte-americanos, cerca de 60% contra 40% dos Estados Unidos. Agora o contexto norte-americano é mais baseado em financiamento. Enquanto o streaming estiver assinando os cheques, não existirá esse tipo de exclusão lá”.

Dellape discorda da limitação francesa ao banimento da Netflix. Para o cineasta, a experiência das salas de cinema tem fundamental importância para a premiação de um filme, já que o processo de produção guarda singularidades entre um projeto para as projeções e para o streaming. “Eu não duvido, que os franceses são mais rigorosos, mais puristas, é natural, mas acho que não ficará restrito na França, pode chegar ao Oscar. A plataforma influencia drasticamente as escolhas do diretor, ele sabe para onde o filme está sendo dirigido. Os canais vão precisar achar uma saída se eles quiserem ter esse tipo de prestígio dos grandes festivais”.

A afronta da Netflix


A revista norte-americana Variety divulgou na última segunda-feira (7/5), uma ação que pode ser uma verdadeira afronta por parte da empresa de streaming. De acordo, com o veículo, a Netflix tem planos de comprar o filme Everybody knows, de Asghar Farhadi, com Penélope Cruz e Javier Bardem.
 
'Everybody knows' pode ser comprado pela Netflix ao mesmo tempo em que é exibido em Cannes: desafio da empresa ao veto do festival(foto: Reprodução/Internet)
'Everybody knows' pode ser comprado pela Netflix ao mesmo tempo em que é exibido em Cannes: desafio da empresa ao veto do festival (foto: Reprodução/Internet)
 

A produção está selecionada como uma das exibições de abertura do festival, sendo que estreou nos cinemas na França na última quarta-feira (9). Mas mesmo que o canal de streamig decida por adquirir os direitos de exibição do filme, a vitória da Netflix é relativa, pois a produção não poderá estar disponível na França nos próximos 36 meses por conta da legislação do país, mas já poderá ser exibida em outros países.
 
 
 
*Estagiário sob supervisão de Adriana Izel 

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