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Correio Braziliense

'As pessoas amam o technobrega e a aparelhagem', afirma Gaby Amarantos

Representante da cultura do Norte, Gaby Amarantos vive novo momento na carreira, mas reafirma intenção de valorizar as raízes


postado em 02/06/2018 07:20

Com palavras simples, Gaby Amarantos leva o discurso feminista às mulheres ribeirinhas(foto: RD Comunica/Divulgação )
Com palavras simples, Gaby Amarantos leva o discurso feminista às mulheres ribeirinhas (foto: RD Comunica/Divulgação )

Representatividade é a palavra de lei da carreira de Gaby Amarantos. Quando estourou pelo Brasil com o hit Xirley, em 2011, ela já tinha mais de 15 anos de carreira no cenário technobrega do Pará. O auge veio com Ex mai love, música que integrou a trilha sonora da novela Cheias de charme, da Globo. Tudo isso sem perder a essência nortista para derrubar a barreira das fronteiras entre regiões e chegando a todo o país.

“Eu fico muito feliz. As pessoas amam o technobrega e a aparelhagem e querem mais. Tem uma demanda gigante. As pessoas ficam sempre me pedindo para regravar as músicas do Techno Show, que, para minha carreira, foi a minha Banda Eva. (risos). As pessoas escutam até hoje as músicas no Spotify e no YouTube. Além de atender essa demanda maravilhosa, quero trazer cada vez mais essa representatividade porque o Brasil está precisando de mais autoestima nesse momento em que estamos vivendo”, analisa Gaby Amarantos em entrevista ao Correio.

Nesta semana, a cantora lançou o clipe de Sou + eu, o primeiro single do próximo álbum, que deve ser lançado no segundo semestre. A música, que tem mais de 220 mil visualizações no YouTube, chamou a atenção logo por ter uma letra e uma estética bastante atuais, em que há a valorização das minorias: mulheres, negros, indígenas e homossexuais. “É o momento de olhar para dentro do Brasil e entender as nossas raízes, de onde a gente veio e fazer justiça com esse povo tão lindo e maravilhoso”, afirma.

De forma leve e divertida, a paraense fala na música de uma mulher que está se livrando de um homem que a faz mal ao descobrir o amor próprio. “Aprende a me amar/ Não me fazer chorar/ Você não entendeu/ Agora eu sou mais eu/ Não quis valorizar/ Cansei de te aturar/ Otária já morreu/ Agora eu sou mais eu/ Sou mais eu, sou mais”, diz trecho da canção. Sobre a escolha pela sutileza no discurso, ela explica: “Eu sou uma mulher do Norte e sei do índice de violência contra a mulher lá. Faço uma música assim para chegar à mulher ribeirinha que não faz ideia do que é o feminismo. É uma forma de poder despertar e colocar uma sementinha para ela se dar valor. É uma música muito simples e bagaceira para chegar onde, talvez, esse discurso não chegasse”.

Clipe


No vídeo, que tem direção de Marcelo Sebá, essa história é contada com um elenco formado por pessoas que, na maioria das vezes, estão fora do protagonismo midiático. “É o momento de representatividade do povo negro, do povo indígena, que está se urbanizando, e da mulherada, que está exercendo a liberdade sexual. Tudo isso está no clipe de forma bem divertida, pop e colorida”, define a cantora.

Gaby Amarantos e Gleici Dasmaceno(foto: RD Comunica/Divulgação)
Gaby Amarantos e Gleici Dasmaceno (foto: RD Comunica/Divulgação)


O elenco é composto por alguns nomes conhecidos do público. Estão lá, por exemplo, a judoca e campeã olímpica Rafaela Silva; a vencedora do BBB 18, Gleici Damasceno; os atores Jonathan Azevedo, que esteve em A força do querer, e Jessica Ellen, conhecida pela atuação em Justiça; a rapper Preta Rara; e a militante e blogueira Magá Moura. “Escolhemos o elenco a dedo, se você pesquisar, todas as pessoas que participaram têm um envolvimento com causas sociais e de representatividade”, conta. Além dos nomes mais famosos, o clipe tem ainda personalidades que estão se destacando aos poucos, como os indígenas Kapaí Kalapalo, Aruan Kaiowa e Tamikuã Txhi e o modelo senegalês Nabillah Sedar.

Em Sou eu, Gaby Amarantos quis derrubar paradigmas. Nabillah e Jonathan Azevedo são os grandes galãs do clipe e tem motivo: “o negro é sempre colocado como aquela figura de estereótipo, numa posição de emprego menor, de criminoso. Por isso, chamei para serem galãs no meu clipe”. Outro assunto de debate no vídeo são as religiões de matrizes africanas. “Esse ônibus que tem no clipe, era o ônibus que eu pegava na infância. Tinha uma senhora que era mãe de santo. Fiz uma homenagem a ela e as religiões de matrizes africanas”.

Carreira


Sou eu é o primeiro single de um novo álbum de Gaby Amarantos. O material será sucessor de Treme treme, de 2012. O disco, que ainda não tem nome, é definido pela artista como “afro-pop-amazônico”. “Minha intenção é entrar em estúdio e lançar no segundo semestre. Vou continuar trazendo os estilos que são do Pará, do Norte, mas com novidades. É um álbum afro-pop-amazônico, com a minha representatividade”, adianta.

Esse tem sido um momento de destaque para a carreira de Gaby. Desde o início do ano ela integra a nova formação do programa Saia justa, do canal GNT. Ela assumiu o posto deixado por Taís Araújo e debate temas atuais ao lado de Mônica Martelli, Pitty e Astrid Fontenelli. “O Saia está sendo demais. Acho que foi um complemento muito maravilhoso para a minha carreira. Lá é o lugar de colocar a Gaby formadora de opinião”, aponta.

Elenco do Saia justa(foto: Juliana Coutinho/GNT)
Elenco do Saia justa (foto: Juliana Coutinho/GNT)


E ela já tem visto essa influência no programa nas ruas. Gaby Amarantos conta que recentemente, quando estava na praia, foi abordada pela dona de uma barraca falando que passou a assistir e a entender o programa quando a paraense entrou no elenco. “Acho que assim a gente pôde trazer um novo público e acrescentar ao lado daquelas mulheres maravilhosas. Elas me acolheram de uma forma ótima e estou aprendendo e trocando com elas. Acho que era muito importante ter a ótica de uma mulher do Norte”, analisa.

No Saia justa, além de participar dos debates, ela é responsável pelo quadro Treme Gaby, em que reconstrói músicas machistas numa temática feminista. “São discursos muito importantes e que precisam ser ditos. Precisa desenhar, sim, porque parece que as pessoas não entendem que chega de assédio, que tem de respeitar as manas. Está sendo uma parada bem didática”, acrescenta.

Gaby ainda conta que ao fazer o quadro pensou no filho. “Ele tem de ouvir o funk e a música sertaneja de uma outra forma, pensando que tem de respeitar a mulher. A gente quer educar nossos filhos, mas não pode evitar que eles escutem algo que nos denigre, que nos coloca com objetificação. O Treme Gaby é um quadro para mostrar para as crianças nas escolas, nas faculdades. É bom saber que as pessoas o estão assistindo e discutindo, isso é um serviço muito bacana que estamos fazendo”, completa.

Relação com Brasília
Assim que estourou com Ex mai love, em 2012, Gaby Amarantos fez um show emblemático em Brasília de graça na área externa do Museu Nacional da República, na Esplanada dos Ministérios. Algo que ela lembra até hoje. “Aquele show foi incrível. Tenho muitas lembranças boas de Brasília, tenho muita saudade também. Agora que voltei com esse single, minha agenda está começando a se agitar, tenho certeza que em breve estarei aí”, espera. Sobre o público brasiliense, ela decreta: “tem uma energia, uma parada tão forte nessa cidade que me toma quando estou aí. Brasília tem uma galera enérgica, que eu amo, um povo que sempre me acolheu”.

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