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Correio Braziliense

Fotógrafo Bob Wolfenson compartilha experiências em curso online

Prestes a completar 50 anos de carreira, fotógrafo conversa com o Correio sobre novo projeto e o olhar que o tornou reconhecido


postado em 21/09/2019 06:15 / atualizado em 20/09/2019 20:17

(foto: Roberto Cecato/Divulgação)
(foto: Roberto Cecato/Divulgação)


Um fundo meio cinza, uma sobrancelha arqueada, um olhar arregalado de Salvador Dalí, um cabelo devidamente bagunçado e o retrato do tropicalista Caetano Veloso. Em outro clique, sobre um fundo branco, a expressividade de Fernanda Montenegro e nada mais. Com quase 50 anos de carreira, o fotógrafo Bob Wolfenson chancelou com seu olhar uma variedade de fotografias, de personalidades e desconhecidos, de editoriais de moda à rotina paulistana. Para um profissional multifacetado, que transita por diferentes vertentes e lugares, o trabalho é estruturado metodologicamente, porém respeita a causalidade dos encontros. 

Depois de uma bem-sucedida exposição em São Paulo, que atraiu cerca de dez mil pessoas, Wolfenson inicia, este mês, um novo itinerário. É o curso on-line de fotografia Em busca do retrato ideal, em parceria com a Fotoweb Academy, do fotógrafo Roberto Cecato. “É um curso meio documentário. Tem a função de curso, mas tangencia a minha história. Tem aulas específicas, sessões fotográficas e tem eu contando como fiz algumas fotos, como foram os encontros, os retratos. Apesar de ter o nome de retrato, o curso vai passar pelos gêneros da fotografia os quais eu pratico”, detalha Wolfenson. Ao todo, serão 20 aulas que estarão disponíveis durante um ano aos inscritos.
 
Caetano Veloso pelos olhos do fotógrafo(foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
Caetano Veloso pelos olhos do fotógrafo (foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
 

Entre as experiências compartilhadas, o fotógrafo relata a viagem para Nova York para trabalhar no estúdio de Bill King — um dos responsáveis por colocar Twiggy e Cindy Crawford na capa da Vogue americana. “Tinha alguns anos de carreira e me considerava medíocre. Precisava dar um salto, aprender mais. Fui ser assistente em Nova York e nem levei câmera, vendi tudo o que eu tinha. Queria reaprender e me recolocar. Foi, talvez, o gol que eu fiz. Opção que eu tive muita sorte também”, comenta. Uma chance que Wolfenson tentou com outros fotógrafos como Irving Penn, Richard Avedon, Arthur Elgort e Barry Lategan, mas só King respondeu. 
 

Nu artístico
Bob colaborou para a revista 'Playboy' e trouxe elementos artísticos para a fotografia de nu(foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
Bob colaborou para a revista 'Playboy' e trouxe elementos artísticos para a fotografia de nu (foto: Bob Wolfenson/Divulgação)


Além do olhar para a moda e para o retrato, duas aulas serão dedicadas ao nu. Durante anos, Wolfenson foi um dos principais colaboradores da revista Playboy. Mais uma vez, o fotógrafo criou uma assinatura. Deixou de lado a imagem da mulher nua padrão e trouxe uma história e um elemento artístico. “No meu trabalho sempre tinha algo se interpondo entre a fotografada e eu, uma atenuante para a questão da nudez”, detalha. Fernanda Young, Alessandra Negrini e Nanda Costa foram atrizes que confiaram no profissional para ensaios que romperam com os cânones vigentes.

Para o garoto que começou a trabalhar aos 16 anos, hoje, tudo, de certa forma, ficou mais fácil. “Há uma distinção natural”, completa Wolfenson. O fotógrafo recorda da primeira vez que fotografou a modelo Naomi Campbell. “Ela era a personalidade e, para ela, eu não era nada”, conta aos risos. Em um segundo momento, a dinâmica do encontro já foi diferente. O profissional também recorda que, para todos os lugares que olhava, pensava fotograficamente. “Tem muitas fotos que não fiz, porque não estava com a câmera”, acrescenta.
 
Bob fez o ensaio da última peça de Fernanda Young(foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
Bob fez o ensaio da última peça de Fernanda Young (foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
 

O advento da tecnologia, contudo, permitiu que Wolfenson dividisse e multiplicasse sua impressão digital do mundo. Apesar da facilidade do celular e das novas mídias, o fotógrafo é categórico: “Nem todo mundo que escreve em português é escritor. A mesma coisa para a fotografia. Nem todo mundo que fotografa não é fotógrafo. Para ser fotógrafo precisa ter os mesmos elementos que o escritor tem: ideias, estilo, imaginação, repertório e técnica”.

Prestes a completar 50 anos de trajetória artística, Bob Wolfenson poderia ser facilmente identificado por qualquer um dos inúmeros retratos que fez. Entretanto, é a imagem do seu WhatsApp que lhe representa. Uma selfie, em formato polaroid, resultado da união de recortes fotográficos, como um quebra-cabeças. “Eu todo entrecortado”, define o fotógrafo. Sempre em trânsito, “de lá para cá”, Wolfenson se torna completo na reunião. “Não há um encontro mais marcante, há encontros”, finaliza. 

 

Entrevista / Bob Wolfenson
(foto: Bob Wolfenson/Divulgação)
(foto: Bob Wolfenson/Divulgação)

Qual a sua relação com a fotografia?

Não me veria, hoje, como outra pessoa que não fosse esse fotógrafo. É a minha paixão. Todas as coisas que eu penso são a partir do fato de eu ser fotógrafo. Essa comunicação feita por meio do meu trabalho é a minha relação com o mundo, a minha inserção no cenário cultural brasileiro se dá por esse viés.

Nos últimos tempos, você tem se posicionado cada vez mais politicamente em suas redes sociais, por quê? É uma responsabilidade como profissional ou como cidadão?

Como cidadão, porque eu tenho essa formação. Meus pais eram militantes. Nasci nesse caldeirão sincrético de judaísmo, esquerda e política. Isso está no meu DNA. Só que, em uma época na qual essas paixões não estavam afloradas, ninguém sabia. Até havia uma identificação da minha persona pública com algo mais do establishment, com algo mais cosmético. Hoje, eu quis deixar claro que eu não pertenço a isso, pelo menos como cidadão.

Você refuta a ideia do retrato como algo que extrai a alma do retratado.O que é o retrato para você?

Ele é bidimensionalidade, breves encontros e opiniões em choque, a do cara que é fotografado e a sua. Não há a possibilidade, nesse breve encontro, de haver a captação da alma. Isso é um arranjo teórico e romântico. Ele é um encontro que obedece a natureza dos encontros. Há algumas constantes, como o lugar, mas o resultado do nosso encontro, da nossa conversa é imponderável, depende um pouco da sua reação, da minha, do dia, do entorno, das conjunturas política, social, de tantas outras coisas que fazem essa mediação.

Você tem alguma metodologia ao fotografar? Imagina a foto antes do clique?

Tenho algum tipo de método, de estimular algum tipo de gesto, porque o gesto produz alguma coisa ruidosa, interessante, diferente. Mas  varia de acordo com a personalidade da pessoa. Às vezes uma foto sem gesto, sem gesticulação, é tão relevante quanto uma superperformática. A relevância não se encontra aí. Há algo de misterioso no resultado que é interessante. 

Como você escolhe entre fotografias em preto e branco e coloridas? 

Acho que tem coisas que precisam ser coloridas e outras em preto e branco. Como transito por várias vertentes da fotografia, não considero que tem que ter uma verdade única para todas as coisas. Gosto de, para cada trabalho, escolher aquilo que seja mais interessante, desafiante e bonito esteticamente.

Seu olhar muda de um contexto para o outro? Da fotografia de moda, para o retrato, para o nu e a foto do cotidiano paulista?

Não, tem que ser o mesmo se não estaria internado num sanatório. Como eu transito muito por essas várias vertentes, acho que esse Bob daquele momento fazendo aquele trabalho está habitado por todos aqueles outros. Só posso ser aquele porque todos os outros existem e está sendo alimentado por aqueles outros. É multifacetado.
 
 

Serviço 

Em busca do retrato ideal

As inscrições para o curso Em busca do retrato ideal estão abertas até 29 de setembro e podem ser feitas pelo link fotowebacademy.com/inscreverbob. Além das aulas, haverá um concurso para eleger as 20 melhores fotos, cujos autores passarão um dia no estúdio de Wolfenson 
 
 

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