Publicidade

Correio Braziliense

Cine Brasília sedia debate sobre cinema taiwanês neste sábado

Mostra de Cinema Taiwanês no Cine Brasília revela similaridades entre o oriental e o brasileiro


postado em 12/10/2019 06:20 / atualizado em 13/10/2019 15:12

(foto: ARS Film Production/Divulgação)
(foto: ARS Film Production/Divulgação)


Pela tela do Cine Brasília, o público da capital tem a possibilidade de transcender ao imaginário e superar os estereótipos do mundo asiático por meio da Mostra de Cinema Taiwanês. Desde quarta-feira, o festival apresenta uma variedade de cineastas, estilos e gêneros que vêm compondo a cinegrafia mais recente daquele país, indo desde clássicos mais autorais a dramas multiculturais, passando por drama musical apropriado a toda a família, baseado em fatos, romance musical, fantasia e documentários.

Neste sábado, após a exibição do filme Crystal Boys (Rapazes Cristais), obra que denuncia a homofobia em Taiwan na década de 1970, haverá um debate, aberto ao público, com a presença do diretor do longa Yu Kan Ping; do curador da mostra e mestre em literatura comparada, Marcos Coimbra e do editor-chefe da Revista de Cinema, Bruno Andrade, entre outros convidados. O Correio aproveitou a oportunidade para conversar com Coimbra e Andrade sobre o cinema taiwanês e a cultura asiática. A Mostra de Cinema Taiwanês nasceu de uma parceria entre o Escritório Econômico e Cultural de Taipei no Brasil e o Governo do Distrito Federal e revela uma multiplicidade de temas e olhares da região.

O que o cinema de Taiwan, de um modo geral, tem para revelar para Brasília?

Marcos Coimbra: O cinema, como as demais artes, vai adquirindo matizes e formatos conforme a cultura e a época que o elaboram. Como temos uma tendência geral de maior distribuição e facilidade de acesso ao cinema norte-americano mais recente, que igualmente tem muitas qualidades e merece ser visto, o esforço por conhecer a produção de outros lugares e épocas e, com isso, mergulhar na sensibilidade de outras culturas é sempre enriquecedor e merece atenção dos produtores culturais e dos espectadores de forma geral. Essa diferenciação aparece tanto nos temas abordados quanto no estilo de filmagem de cada autor, e podemos dizer que a Ásia como um todo traz um universo fílmico a ser saboreado por quem tem olhos atentos, com participação singular do cinema de Taiwan.


Ele tem alguma similaridade com o cinema brasileiro? E diferenças?

Bruno Andrade: A partir dos anos 1980 surge uma geração, encabeçada por Hou Hsiao-hsien e Edward Yang, que compartilha num primeiro momento preocupações semelhantes às que vemos no cinema brasileiro contemporâneo, particularmente o dos últimos 15 anos. Observa-se nesses cineastas a necessidade de confrontar o material ficcional à realidade social do país, e de fazer um retrato desromantizado do país através de narrativas intimistas. É essa fusão de uma visão pouco romântica a serviço do um retrato íntimo de personagens desconfortáveis nas suas situações sociais que parece ser o que há de comum entre o novo cinema taiwanês e o cinema brasileiro contemporâneo. As diferenças são, sobretudo, de ordem estética e cultural.


O que representa e significa, em termos linguísticos, o cinema taiwanês?

Bruno Andrade: Diretores como Hou Hsiao-hsien e Edward Yang trouxeram ao cinema novos modos de estruturação do tempo narrativo e da apreensão do espaço, fosse este urbano ou rural. Há como que uma erosão nessas duas dimensões, temporal e espacial, motivada por um processo em que uma interpenetra a outra e muda as suas coordenadas originais. Em Edward Yang isso é particularmente visível no filme A Brighter Summer Day, cujo arco narrativo funciona como que por interposição de camadas côncavas e convexas cujos limites se tocam em pontos que fazem o drama convergir de maneira inesperada; em Hou Hsiao-hsien isto se dá mais nitidamente em filmes como Goodbye South, Goodbye e Millennium Mambo, ainda que o seu trabalho, distinto do de Yang, já esteja virtualmente definido em um filme como Poeira ao vento.


O que mais te chama a atenção na cultura de Taiwan? De onde surgiu seu interesse?

Marcos Coimbra: Além dos recentes avanços em sua industrialização, economia e conquistas sociais, com redução da pobreza e da desigualdade, no aspecto cultural o mais peculiar de Taiwan é ser um lugar de mescla de diferentes influências ao longo de sua história e de conseguir harmonizar isso em uma identidade cultural própria (o país já teve ocupação temporária europeia em algumas cidades, domínio japonês, preserva história e memória da cultura chinesa e tem etnias indígenas em sua formação). Esse aspecto de seu multiculturalismo nos faz traçar um paralelo com a própria formação cultural brasileira, que teve influência de diversos povos além das três etnias fundadoras. Temos esse sentimento em comum, essa abertura à diversidade cultural cunhada em nossa formação histórica, mantidas as características inerentemente regionais.


Na curadoria dos filmes, você comentou que buscou englobar todos os tipos de públicos e de gêneros, quais são os principais temas abordados?

Marcos Coimbra: Os 10 filmes da Mostra trazem uma grande diversidade temática, mas gostaria de destacar como a passagem do tempo e as mudanças de escala e dos modos de vida afetam diferentes gerações em Poeira ao Vento, com destaque para as consequências da modernização acelerada sobre os habitantes vindos do interior e suas relações afetivas, assim como a reflexão provocada em A arte de viver, que aborda a um só tempo o conflito familiar entre diferentes gerações, o senso de desencaixe na adaptação cultural de um senhor oriental no ocidente moderno, o aumento das distâncias provocado pelas diferenças linguísticas e, principalmente, o drama que envolve as formas de se envelhecer em um mundo de mudanças aceleradas sem perder a si mesmo no meio do percurso, ou se recriando com novo equilíbrio sempre que o mundo assim nos obriga. 
 

Acredita que ainda existe preconceito com relação ao cinema Oriental? Se sim, como quebrar isso?

Bruno Andrade: Se existe, este se deve mais a uma certa coloração local e a questões de ordem cultural. Esteticamente, o cinema taiwanês, principalmente através dos filmes de Tsai Ming-liang, foi bastante bem acolhido no Brasil e suficientemente absorvido para deixar algumas influências, principalmente no circuito do curta-metragem.



Mostra de Cinema Taiwanês

No Cine Brasília. Entrada gratuita. Sábado, Debate Um olhar sobre o cinema taiwanês, às 18h, em seguida exibição do filme Kano

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade