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Correio Braziliense

Brasiliense Marcia Costa ganha prêmio na Venezuela por atuação em curta

Ela nunca estudou teatro como profissão, mas encontrou nas artes um talento nato


postado em 14/10/2019 06:20

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

“Depois de dias e dias de gravação, pensei que só apareceria meu dedo. Minha surpresa quando vi o trailer do curta e estava lá minha cara. Paralisei. Me tremi inteira. Para quem saiu praticamente do nada. Não é coisa de ego, é satisfação pessoal. Quis fazer esse filme. A história é muito verdadeira. É uma situação social que tem que ser vista. São mulheres esquecidas”, conta Marcia Costa. Ao relembrar capítulos da vida real e da ficção, a brasiliense precisa fazer uma pausa no depoimento para segurar o choro.

Nas telonas, ela interpretou Maria, uma das detentas do curta Presos que menstruam, obra que narra histórias de mulheres no sistema carcerário brasileiro com base no livro homônimo da jornalista Nana Queiroz. A produção, com direção de Alisson Sbrana e preparação de elenco de Catarina Accioly, soma uma lista de premiações. Entre as estatuetas, uma estampada na capa do Facebook de Marcia: ela foi eleita pelo júri do Five Continents Internacional Films Festival FICOCC #24, na Venezuela, a Melhor Atriz Coadjuvante.

Na interpretação da personagem Marcia Costa Dias, contudo, a brasiliense não se reconhece atriz. “Tem pessoas que estudaram, que lutam por isso há anos. Gosto da oportunidade que apareceu para mim. E das que aparecem. Não gosto de fazer nada que vá me ferir. Quando encontro meus colegas fico envergonhada”, comenta. Para explicar as razões, ela volta alguns anos. Era 2004 e Marcia, na época professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal, descobriu o primeiro câncer na mama direita. Primeiro porque, quatro anos depois, o tumor voltaria no outro lado.

Ao buscar uma qualidade de vida, ela deu sentido aos olhos vivos, ao sorriso largo, aos gestos dramáticos que sempre lhe acompanharam. “Morava em Samambaia Norte e, em 2005, comecei a fazer uma oficina de teatro com a Verônica Moreno aos domingos. Ela me acolheu como uma dos pupilos dela”, relembra a brasiliense. Ali começava uma trajetória de encantamentos e descobertas. “Uma amiga me mandou o casting do curta e eu fui fazer. Tive medo, pensei em não ir, nunca tinha feito aquilo, mas eu gosto. Não tenho experiência, não tenho conhecimento acadêmico, mas gosto. E fui fazendo e passando”, comenta.

Até então, Marcia tinha dado vida apenas a uma bruxa com a colega de sala de aula também professora e nada mais. Agora, emenda um trabalho no outro. “Por meio desse filme, dessa premiação, participei da filmagem de outro curta como protagonista. É um trabalho impactante e muito social também, que tem muita verdade de vida mesmo. Estou muito agradecida”, descreve a atriz. Em todas as falas e exemplos de Marcia, nota-se seu envolvimento com a preparação dos personagens, sobretudo, aqueles que flertam com a realidade. “Sonho em fazer um papel de cangaceira. Acho que deve ser muito forte a construção da personagem. A luta por um ideal coletivo”, justifica.

Didática natural


Apesar de dizer que não tem estudos acadêmicos, Marcia carrega consigo uma sensibilidade e uma humanidade dignas de grandes estrelas. Aprendizados da sala de aula da vida. “Quando pego o texto, tento ver o personagem, o que esse personagem vai sentir. Tenho os sentimentos que trago comigo, que vou usar. Tenho histórias de vida, mas tenho coisas que não vivi. Então, tento buscar dentro de mim o sentimento daquele personagem, o que eu posso, por meio dessa atuação, levar para quem está assistindo. Não quero levar para o outro uma verdade negativa”, afirma.

Nos bastidores, Marcia confessa que recorre à fé e a algumas orações para controlar o nervosismo. “Vai apertando o coração, respira, vamos seguir e reza. A coisa não é fácil não no momento da atuação, nos ensaios. Quando acaba, ufa, amém”, conta. A revelação da carreira artística também surpreendeu a família. “Até hoje eles não acreditam em mim”, comenta aos risos a brasiliense. Ela é casada, mãe de dois filhos e avó de um neto. Apesar da novidade, a família, sem dúvida, é a primeira a aplaudir de pé o talento natural da atriz.

Aos 56 anos, Marcia compreende sonhos que, até então, desconhecia ou estavam empoeirados. “Um sonho? Ah, atuar com Fernanda Montenegro, mas não coloca isso não. Morro de vergonha. A gente tem que ter o pé no chão, né?”, finaliza. A cena do trailer de Presos que menstruam, da emoção de ver o rosto estampado na tela, nunca será esquecida. Da mesma forma que a primeira porta aberta por Verônica Moreno e, que hoje, se multiplica em perspectivas.
 

» Depoimento


Fui convidada para fazer a preparação de elenco do curta. Era uma preparação extensa pela complexidade das personagens e pelo tamanho do elenco, então começamos muito tempo antes. Dentro da configuração do elenco, o diretor fez questão que a Marcia estivesse, ele viu a personagem no teste dela. A Marcia sempre foi muito disponível e muito simples. Tem uma aptidão natural, uma facilidade de embarcar nas propostas das atividades que colaboram muito para que ela tenha um bom desempenho no final cênico. Ela é disciplinada. Ela faz construções delicadas da personagem, aceita as orientações, investe tempo. É muito sensível como pessoa. Com certeza, é uma pessoa com quem eu quero trabalhar novamente. A expertise, ela traz da trajetória de vida dela. Ela tem esse feeling baseado na convivência com as filhas, com a mãe, é super religiosa, muito genuína, se importa com o próximo. Ela tem tudo isso como pessoa, está na intérprete e imprime isso nas personagens. Além disso, traz a sabedoria dentro de um tipo, um perfil que a gente tem que dar atenção.

Catarina Accioly, atriz e diretora
 
 

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