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Correio Braziliense

Referências na literatura, elas falam sobre raça, gênero e direitos civis

Toni Morrison, Maya Angelou, Maryse Condé, Djaimilia Pereira de Almeida e Angela Davis refletem sobre gênero, raça, identidade, colonialismo e literatura


postado em 12/11/2019 06:44 / atualizado em 12/11/2019 10:53

Toni Morrison: reflexão sobre como uma pessoa se torna racista(foto: Franck Fife/ Divulgação)
Toni Morrison: reflexão sobre como uma pessoa se torna racista (foto: Franck Fife/ Divulgação)

 

Maya Angelou ensina os significados de casa, filantropia, verdade e violência a partir de sua perspectiva. Angela Davis fala sobre prisões, tortura e democracia em uma série de entrevistas enquanto Toni Morrison reflete sobre como uma pessoa se torna racista. Cotada para o Nobel, a francesa Maryse Condé conta a história de Tituba, uma das primeiras mulheres julgadas por bruxaria em Salém e essa história de dominação colonial é a mesma que serve de fundo a Djaimilia Pereira de Almeida em Luanda, Lisboa, Paraíso. Cinco autoras negras cujos nomes figuram na lista do que melhor se tem produzido em termos de ficção contemporânea e ensaios quando o tema é colonialismo, discriminação, direitos civis e democracia chegam às livrarias com lançamentos que não podem faltar em uma biblioteca.

 

Angela Davis e Maya Angelou são duas referências da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. A primeira integrou os Panteras Negras e teve o nome incluído na lista de dez pessoas mais procuradas pelo FBI nos anos 1970. Acabou presa e libertada depois de uma campanha intensa para, em seguida, tornar-se uma das ativistas mais importantes do país. A democracia da abolição – Para além do império, das prisões e da tortura é resultado de uma série de entrevistas concedidas em 2005 a Eduardo Mendieta, professor de filosofia na Stony Brook University.

 

Angela Davis: prisões, torturas e democracia em uma série de entrevistas(foto: Reprodução/ Internet)
Angela Davis: prisões, torturas e democracia em uma série de entrevistas (foto: Reprodução/ Internet)
 

 

Conhecida pelo discurso que critica o sistema prisional americano, Angela fala sobre política para presídios, mas também sobre sua própria trajetória, a campanha global que a levou a ser solta nos anos 1970 e a autobiografia, um clássico da literatura afro-americana, influência para toda uma geração de autoras negras que vieram em seguida à sua publicação, em 1974. Mas Davis questiona o poder de transformação do cânone ocidental operada por textos como Uma autobiografia. “Tenho a impressão de que as lutas para contestar textos da literatura se assemelham às lutas por mudanças e transformações sociais. O que nós conseguimos fazer, a cada vez que obtemos uma vitória, não é tanto assegurar uma mudança definitiva, e sim criar novas áreas de luta”, reflete.

 

Nas entrevistas, Angela, que foi candidata a vice-presidente pelo Partido Comunista dos Estados Unidos, também fala sobre nacionalismo, capitalismo e exploração. Ela conta que sempre preferiu se identificar com um tipo de pan-africanismo que confere aos negros do Ocidente a responsabilidade para aqueles que vivem na África, na América Latina e na Ásia. “(...) não em virtude de uma ligação biológica ou racial, mas em virtude de uma identificação política que é forjada na luta”, diz. Ficar de olho na África não é um dever decorrente de uma obrigação por conta da origem comum e sim porque é um continente permanentemente vítima do colonialismo e do imperialismo.

 

Para Angela, o nacionalismo se tornou obsoleto em tempos de globalização, mas ele continua sendo um elemento fundamental da formação da identidade negra norte-americana. A ativista também fala sobre a necessidade de uma nova política. “(...) que trate do racismo estrutural que determina quem vai para a cadeia e quem não vai, quem frequenta a universidade e quem não frequenta, quem tem seguro-saúde e quem não tem”, explica Davis, que é professora emérita da Universidade da Califórnia.

 

De uma geração anterior à de Davis, Maya Angelou lutou ao lado de figuras icônicas como Malcolm X e Martin Luther King e também é autora de uma autobiografia que entrou para lista das obras mais importantes de literatura afro-americana. Mas é um livrinho de memórias, sem compromisso cronológico e ora com reflexões, ora com narrativas de momentos tristes e violentos, que chega às prateleiras brasileiras este mês. Dividido em temas como Casa, Filantropia, Revelações, Dando à luz, Vulgaridade, Violência, Condolências e outros, Carta a minha filha narra a própria trajetória de Maya, que morreu em 2014, de uma maneira mais lírica e lúdica do que em uma biografia amarrada pela cronologia..

 

Recém-publicado em edição caprichada da Companhia das Letras A origem dos outros — seis ensaios sobre racismo e literatura traz textos de Toni Morrison, a primeira mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura, escritos para uma série conferências na Universidade de Harvard. Nos ensaios, a autora reflete sobre a literatura do pertencimento e analisa a presença do racismo e de questionamentos sobre identidade em diversas obras do cânone norte-americano. “A identificação e a exclusão raciais não começaram nem terminaram com os negros. Cultura, características físicas e religião eram e são, entre todos precursores de estratégias para a ascendência e o poder”, escreve Morrison.

 

Ficção

 

Djaimilia Pereira de Almeida é uma das boas revelações da nova geração de autores de língua portuguesa. Aos 37 anos, ela tem na bagagem quatro livros e já acumula alguns prêmios. Com Esse cabelo, de 2015, ganhou o prêmio Novos na categoria literatura e, em 2018, a autora levou o Prêmio Literário Fundação Inês de Castro com o romance Luanda, Lisboa, Paraíso, que agora chega ao Brasil em edição da Companhia das Letras. Gênero, raça, colonização, identidade e imigração atravessam esse romance que conta a história de um angolano em viagem a Portugal para consertar o defeito de nascença no pé do filho adolescente.

 

Com muito lirismo, Djaimilia, que nasceu em Angola mas é portuguesa e cresceu em Lisboa, mergulha nas feridas deixadas pela colonização na identidade angolana. Quando desembarca em Lisboa vindo de Luanda, Cartola se dá conta de que a terra do colonizador não pode ser chamada, também, de sua terra. “Ninguém os esperava no aeroporto, mas era Portugal”, constata o narrador. Por causa de um problema no calcanhar, Cartola deu ao filho o nome de Aquiles. E é ao lado dele, em uma rotina de hospital perpassada pela dificuldade de adaptação na metrópole, que passa a se descobrir colonizado. “O pai de Aquiles queria vomitar Luanda, mas ainda não conseguia. queria livrar-se da primeira vida, mas ela fazia-lhe frente; passar à próxima etapa, mas era ainda o mesmo homem”, escreve Djaimilia, em uma das passagens mais fortes de Luanda, Lisboa, Paraíso.

 

Identidade, colonização e violência também são o ponto forte de Eu, Tituba, bruxa negra de Salém. Filha de uma escrava estuprada por um marinheiro, Tituba vai da terra natal, Barbados, a Salém, a cidade norte-americana famosa pelo julgamento que condenou à morte diversas mulheres por praticar bruxaria. A personagem está presa quando Maryse Condé, cogitada para o Nobel de literatura deste ano e vencedora do The New Academy Prize em 2018 (além de outros 16 prêmios da literatura de língua francesa), se debruça sobre ela.

 

Na história da autora guadalupense, Tituba deixa a prisão e retorna à terra natal em tempos de revoltas de escravos. “A memória da escravização vivida pelos povos africanos diversas vezes é conclamada pela personagem, na medição dos sofrimentos pelos quais ela passa no presente. Barbados, como metonímia da África, lugar distante, é retomado pela memória nas terras em que Tituba se encontrava isolada”, avisa Conceição Evaristo, no prefácio do romance. “E, para saber de Tituba, a bruxa negra de Salem, é preciso acompanhar quem sabe lidar com a alquimia das palavras. Maryse Condé tem as fórmulas, as poções mágicas da escrita”, completa.

 

TRÊS PERGUNTAS // DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA

 

Pode contar o que inspirou para escrever Luanda, Lisboa, Paraíso? Que preocupações ou reflexões motivaram o romance?

 

Antes de ser um livro, o Luanda, Lisboa, Paraíso foi uma coleção de objetos em segunda mão que fui comprando em feiras de velharias, que costumo visitar. Com o passar do tempo, conjugadas com imagens que fui coligindo e algumas leituras, começou a emergir dessa coleção um ambiente e um tom que viria a dar origem a esta história.

 

Quando Cartola e Aquiles chegam em Lisboa, é claro o sentimento de pátria negada. O romance é também sobre esse sentimento de pertencimento, de desenraizamento? O que te faz querer falar sobre isso em forma de ficção?

 

Mais do que pensar num tema em particular, interessou-me pensar ficcionalmente na natureza de certos ambientes e relações. Nunca pensei na noção de ‘pertencimento’ como ponto de partida, mas pensei no modo como me interessava explorar, por exemplo, gradações e deslocações do poder em relações assimétricas, como é a relação de Aquiles, um rapaz doente, com o mundo e com o seu pai, seu cuidador. Luanda, Lisboa, Paraíso é um livro muito melancólico, cheio de tragédias, mas com uma linguagem muito elegante, sem nunca cair na pieguice.

 

Pode falar um pouco sobre os desafios de construir uma narrativa nesses moldes, de ser trágico e catastrófico sem ser piegas?

 

O Luanda, Lisboa, Paraíso tem uma dimensão trágica, mas procurei que não fosse um livro sentimental, não sei se consegui completamente. Do ponto de vista da escrita, talvez essa busca tenha sido a de não me deixar levar completamente pelo meu amor por Cartola e Aquiles, minha companhia ao longo de tanto tempo e duas personagens de quem tenho ainda saudades.

 

Serviço 

 

A origem dos outros — seis ensaios sobre racismo e literatura

De Toni Morrison. Tradução: Fernanda Abreu. Companhia das Letras, 148 páginas. R$ 54,90

 

A democracia da abolição — Para além do império, das prisões e da tortura

De Angela Davis. Record, 128 páginas. R$ 34,90


Carta a minha filha

De Maya Angelou. Tradução: Celina Portocarrero. Agir, 144 páginas. R$ 29,90

 

Eu, Tituba — Bruxa negra de Salém

De Maryse Condé. Tradução: Natália Borges Polesso. Rosa dos Tempos, 252 páginas. R$ 44,90

 

Luanda, Lisboa, Paraíso

De Djaimilia Pereira de Almeida. Companhia das Letras, 198 páginas. R$ 59,90

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