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Correio Braziliense

Festival de Brasília do Cinema Brasileiro busca novos caminhos nesta edição

O que esperar do evento a ser aberto amanhã, no Cine Brasília. Confira também outras estreias da semana


postado em 21/11/2019 06:40

(foto: PANDORA FILMES /Divulgação)
(foto: PANDORA FILMES /Divulgação)

Trata-se quase de realidade tão recorrente, a ponto de se tornar regra: o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro encampa a pluralidade; então é natural que, na 52ª edição, ressalte a produção nacional integrada por representantes de cada uma das cinco regiões brasileiras. O dado novo está na potência da abertura do evento, reservada para um longa italiano, apoiado por coprodução nacional: O traidor ganhará projeção (restrita a convidados, amanhã), tendo como atrativos paisagens brasileiras, o talento da atriz Maria Fernanda Cândido e a pré-seleção para o Oscar, entre 93 títulos internacionais, além de contar com a acuidade do politizado olhar do diretor Marco Bellocchio.

Num declarado caminho rumo à expansão e ao desvendar de plataformas que tragam know how de coprodução para os cineastas locais, o festival estende o tapete vermelho para um longa que reúne, ainda, profissionais alemães e franceses. O traidor mostra trajetória de um contraventor que abalou as bases da máfia, por meio de conflito direto.

Endossando a sensação de conflito deflagrada por O traidor, o longa-metragem Piedade abre (sábado) a mostra competitiva, que traz sete filmes. Interesses de poderosos ameaçam a tranquilidade dos moradores da Praia Saudade, no filme que leva a assinatura do pernambucano Claudio Assis. Nomes de peso formam o elenco, na trama do cineasta (dono de três prêmios Candango de melhor filme): Fernanda Montenegro, Cauã Reymond e Matheus Nachtergaele.

Conflitos externos de personagens que tomam as rédeas do destino demarcam os enredos de outros concorrentes, entre os quais Alice Júnior (de Gil Baroni) e Loop (de Bruno Bini). No primeiro, uma personagem trans se vê inserida numa sufocante atmosfera conservadora. Já em Loop, estrelado por Bruno Gagliasso, o protagonista duela com a crise de ver a namorada morta. A partir daí, persegue a ideia de alterar o passado.

Documentário de Francisco Bosco e Raul Mourão, O mês que não terminou, igualmente, se detém em passado: mas analisa fatos recentes do Brasil que levaram à atual crise política. Volume morto é outro longa concorrente, em disputa completada pelos filmes A febre e O tempo que resta. Kauê Telolli (também ator, conhecido pela série O negócio) dirige Volume morto, sobre a trajetória de um estudante, visto como vítima de bullying. A febre, de Maya Da-Rin, e O tempo que resta, de Thaís Borges, também foram selecionados na competição pelos prêmios Candango.

O primeiro trata da tomada de atitude de um indígena que questiona sua integração junto à sociedade, enquanto a produção O tempo que resta, do DF, mostra a resistência de mulheres lutadoras, na Amazônia usurpada, na exploração madeireira, mineradora e agrária. Contabilizada a inclusão de Chico Mendes — Um legado a defender, filme local de João Inácio, uma dúzia de curtas também se dispõe na mostra competitiva. A diversidade toma conta ainda de flancos do Festival como a mostra paralela Territórios, que traz apanhado de produções de 19 estados. O DF está representado pelo longa Servidão, de Renato Barbieri e Neto Borges.

Com curadoria de longas associada a olhares abrangentes que trouxe profissionais como Flávia Guerra, Anna Karina de Carvalho e Erica Lewis, além de Marcus Ligocki Jr. e Tiago Belottti, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro destaca figuras como o veterano Vladimir Carvalho (que apresentará o longa de encerramento — Giocondo DiasIlustre clandestino), Daniel Filho, o produtor e diretor Márcio Curi (morto em 2016), o ator Stepan Nercessian, o pesquisador de cinema Fernando Adolfo e a cineasta e antropóloga Debora Diniz (confira entrevista).

Com o chamado Ambiente de Mercado — proposto para vincular diretores com a produção e o escoamento de filmes, via empresas de plataforma de streaming —, a Mostra Brasília BRB vai agitar a cena local. Cineastas como Adriana Vasconcelos, André Luiz Oliveira, Rama de Oliveira e Gustavo Galvão entram na disputa por R$ 150 mil em prêmios. Ainda em mostras paralelas, Marcelo Díaz e Leo Bello completam a lista de diretores locais em evidência no evento que terminará dia 1º de dezembro.

Lançamentos


Um outro amor, a mesma chuva


(foto: PedroMachado/Divulgação)
(foto: PedroMachado/Divulgação)

O calendário cinematográfico, para além do circuito do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, traz ao menos duas paradas obrigatórias — Nova York e Rio de Janeiro. As duas cidades, vistas na telona, servem de cenário para dois filmes muito aguardados: Um dia de chuva em Nova YorkA vida invisível, respectivamente.

No caso do filme brasileiro A vida invisível, fica difícil destacar apenas um motivo para a ida ao cinema. Trata-se do primeiro filme nacional premiado na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes (França), está pré-selecionado pelo Brasil para competir ao Oscar de melhor filme estrangeiro, foi dirigido pelo ex-estudante da Universidade de Brasília Karim Aïnouz, e ainda traz Fernanda Montenegro no elenco.

Estrelado por Carol Duarte e Julia Stockler, A vida invisível tem por base roteiro que adapta livro de Martha Batalha. A convivência com os efeitos do patriarcalismo, ao longo dos anos de 1950, aniquila a relação entre as irmãs Guida e Eurídice. O cearense Karim Aïnouz, vale lembrar, é diretor de filmes como Madame Satã (2002) e Praia do Futuro (2014).

Num retorno à cidade que despertou seu amor pelo cinema, o diretor Woody Allen enfoca a costumeira ciranda de paixões, em Um dia de chuva em Nova York. Estrelado por Elle Fanning (Malévola: Dona do mal), Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome) e Selena Gomez, o filme mostra a involuntária separação de Gatsby (Chalamet) e Asheigh (Fanning), enquanto, numa viagem, ela canaliza a atenção para um novo amigo: o cineasta Roland Pollard (Liev Schreiber). Se o amor é perene é uma das avaliações embutidas no roteiro da comédia de Woody Allen. (RD)

Duas perguntas / Debora Diniz

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Autora do livro Zika: Do sertão nordestino à ameaça global, professora universitária (da Universidade de Brasília), documentarista e atuante em favor da descriminalização do aborto, a antropóloga Debora Diniz foi a personalidade escolhida pela Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) para receber homenagem no Festival de Cinema. “Não estarei na homenagem, mas fiz um vídeo para ser exibido no evento”, explica, ao Correio, Diniz, que é integrante do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos e se encontra na condição de exílio forçado.

“Sem poder estar” na capital, a diretora — que assinou filmes como A casa dos mortos (2009), e em 2005, Uma vida Severina e Habeas corpus — viu o ciclo de relacionamentos sociais ameaçados, num golpe contra seus alunos, seus familiares e colegas de trabalho. 


Percebe a homenagem como indicativo da valorização feminina no cinema?

Percebo a homenagem como valorização das mulheres documentaristas, da presença das mulheres no audiovisual — e essa é minha trajetória. E ainda noto o reconhecimento da importância do audiovisual engajado. Todos os meus filmes contam histórias de pessoas comuns que não estariam em pauta nos jornais, por exemplo, se elas não contassem as suas próprias histórias por um meio que convida à escuta, e convida à assistência. São temas quase proibidos para o espaço político. Entre eles, abordam a loucura, o aborto e a pobreza. Todos os meus filmes partem de uma pergunta, mas não oferecem resposta. Mostram um caminho para se entender as escolhas políticas que fazemos sobre essas questões tão delicadas da democracia brasileira.


Como vê a ferramenta do audiovisual, no contexto atual do Brasil?

O audiovisual é uma ferramenta, é um meio, é uma arte que permite a aproximação, que permite conhecer, ampliar a imaginação. Permite imaginar os que não conhecemos — histórias que talvez nem quiséssemos conhecer — gente que talvez até inspirasse medo — ou, simplesmente, permite imaginar. É uma plataforma poderosa de sensibilização democrática. Ao ampliar a imaginação, ampliamos a capacidade de pensar outras vidas que não as nossas. Exatamente por isso, que em um governo autoritário, teocrático, com traços tirânicos, há a necessidade de ele esvaziar uma plataforma de tanto poder.

Outras estreias


Bixa travesty 

• Documentário de Kiko Goifman e Claudia Priscilla. Com Linn da Quebrada e Jup do Bairro. O longa acompanha a poderosa expressão reclamada pela cantora e ativista social paulista.

A grande mentira 

• De Bill Condon. Com Helen Mirren e Ian McKellen. Golpista busca regeneração, ao se aproximar de uma recém-viúva.

Mais que vencedores

• De Alex Kendrick. Com Ben Davies e Shari Rigby. Treinador de um time de basquete sofre efeitos do fechamento de uma fábrica que tinha operários atletas.

Medo profundo: o segundo ataque 

• De Johannes Roberts. Com Sophie Nélisse e Corinne Foxx. Em viagem, jovens de deparam com animais ameaçadores.

Midway — Batalha em alto-mar 

• De Roland Emmerich. Com Ed Skrein e Patrick Wilson. A Batalha de Midway, em filme de ação que contempla versões americana e japonesa para o fato.

O reino gelado: A terra dos espelhos

• Animação russa, assinada por Aleksey Tsitsilin. Uma maldição, aparentemente, liquida o poder de todos os magos do mundo.

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