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Correio Braziliense

'Piedade', de Claudio Assis, examina dramas familiares e ativismo ecológico

Filme dirigido pelo pernambucano é a primeira produção da mostra competitiva do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro


postado em 23/11/2019 07:15 / atualizado em 22/11/2019 18:15

Fernanda Montenegro interpreta Carminha, uma matriarca de peso(foto: República Pureza Filmes/Divulgação)
Fernanda Montenegro interpreta Carminha, uma matriarca de peso (foto: República Pureza Filmes/Divulgação)

 

 

Ancorado pela assinatura de um cineasta de peso, o pernambucano Claudio Assis, o primeiro longa da mostra competitiva do 52º Festival de Brasília, Piedade, a ser exibido hoje (23/11), empregou mais de 200 pessoas para as filmagens realizadas em quatro semanas, há um ano e meio, na beira da praia. Nada na tela, entretanto, convida a descanso e regozijo. “Piedade mostra uma realidade que a gente está vivendo e se espalha pelo Brasil. Só faltou a gente ter colocado o petróleo no filme, o óleo chegando na praia. Piedade é um lugar, é um pedaço de chão em que ninguém tem piedade de ninguém”, observa Assis que, com três longas premiados na capital, nota uma identidade, como ativista em Brasília. “A resistência do nosso cinema é o que traz a afinidade — tenho uma empatia com o festival, num nível bem bacana”, comenta.

 

 

 

O enredo de Piedade — que mostra uma comunidade invadida pelos desmandos de rede petrolífera — não indica capacidade de premonição do cineasta. “Cada vez mais, busco um cinema que discuta o agora. Meu cinema tem um quê de verdade, de luta, sempre estamos lutando. Não abro mão disso. Estive nas primeiras passeatas contra a construção do Porto de Suape. Vejo a implantação daquilo como um acidente ecológico”, comenta Assis.

 

Filmado no Cabo de Santo Agostinho, Piedade conta da resistência e de quem foi expulso, como morador da praia, há mais de duas décadas. O longa teve direção de fotografia de Marcelo Durst (de filmes como Estorvo e Os matadores), opção que levou Claudio Assis ao resultado de um longa com cor viva: “ele traz a cor vibrante do mar”.

 

No roteiro do longa, a personagem da viúva Carminha (Fernanda Montenegro) tem algo da mãe de Claudio. Ela convida à resistência. Matheus Nachtergaele interpreta o antagonista Aurélio, um empresário e engenheiro da Petrogreen. Irandhir Santos vive Omar, o contestador filho de Carminha. Cauã Reymond, que interpreta um dono de cinema, tem passado inusitado que envolve o nascimento dele em uma maternidade bem desorganizada. Francisco Assis Moraes (visto em filmes como A febre do rato e Big Jato), 15 anos, faz o papel do neto de Dona Carminha, Ramsés, proibido de pisar na água, já que vê o mar como espaço proibido por causa de recorrentes pesadelos com tubarões.

 

Concebido em set de filmagens, Francisco Assis, filho de Claudio, não contou com privilégios na realização de Piedade. “Trabalhador é trabalhador — é pau na moleira, não tem regalia, não (risos). Protejo apenas no dia a dia de pai, mas não por ser filho do diretor. Aliás, foi como a relação com a Dona Fernanda (Montenegro) — quisemos mandar alguém para acompanhar ela, nas viagens, mas ela insistiu: 'Vou com meus pés, e volto com meus pés'”, conta Claudio.

 

Cauã Reymond, Irandhir Santos e Mariana Ruggiero: em cena, crise familiar move parte da trama do longa de Claudio Assis(foto: República Pureza Filmes/Divulgação)
Cauã Reymond, Irandhir Santos e Mariana Ruggiero: em cena, crise familiar move parte da trama do longa de Claudio Assis (foto: República Pureza Filmes/Divulgação)
 

 

A entrega e a felicidade de comprometimento dos atores deu o tom irrestrito em Piedade. “O Cauã, que interpreta um personagem gay, foi de uma generosidade maravilhosa, bacana mesmo. Lidar com sexo, em cinema, é fundamental, um tema que tem que estar presente, já que faz parte da vida. O personagem do Cauã é normal, é natural que transe. Mas há um conhecido dele, no filme, que cai na cilada de transar duas vezes com ele... Fizemos uma cena forte, numa intensidade que deixa as pessoas querendo ver, mesmo”, avalia o diretor.

 

Claudio Assis, diretor da produção: %u201CNão sou nada polêmico: sou resultado da vida, da vida vivida%u201D(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
Claudio Assis, diretor da produção: %u201CNão sou nada polêmico: sou resultado da vida, da vida vivida%u201D (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
 

 

Quem já viu, garante que Piedade coloca o registro do polêmico diretor pernambucano em nível distinto. Estaria o novo Claudio Assis arriando para o sistema? “Me render ao sistema?! Cê tá louco? Não mudei tanto assim, não. A gente tem que contar histórias diferentes, né? A vida é feita de coisas diferentes, a gente vai mudando”, comenta o artista. Sem nenhum prêmio em Brasília de melhor direção em Brasília até hoje, ele acha graça da situação, especialmente por ser detentor de três Candangos de melhor filme. “Quem foi que dirigiu? É uma lacuna da qual acho graça”, diz.

 


Seriedade

 

 

Bem-humorado, Claudio Assis se leva a sério quando o papo são os filmes. “Cinema não é pura diversão. É um engajamento que você tem com seu caráter, com a sociedade. Piedade surge falando de coisas que incomodam todo mundo. Não faço filmes só para levar aplausos — tem toda uma imaginação para ser feita pelo espectador para completar um filme”, observa. Para o filme, orçado em R$ 2,5 milhões, o cineasta contou com a seriedade de pessoas engajadas na confecção do roteiro a cargo de Hilton Lacerda, Dillner Gomes e Anna Francisco. Em Piedade, há figuras potentes, como o jovem ativista ambientalista Marlon (Gabriel Leone), e Fátima (Mariana Ruggiero), uma filha de Dona Carminha.

 

Acusado no passado de perpetuar machismo, Claudio Assis rebate o rótulo com veemência. “Imperam absurdos, loucuras na sociedade, e, no meio delas, o Brasil se mostra machista. Cinema, por sinal, ainda é feito na maioria por homens. Lutamos para mudar isso. O papel da mulher, nos meus filmes, sempre é muito forte, no campo da denúncia”, pontua. E enumera exemplos: em Amarelo manga, cita a personagem protestante que se revolta e exige mudanças; no mesmo filme há uma personagem que estapeia o personagem de Jonas Bloch; em Big Jato, mostra uma mãe dedicada e batalhadora, que enfrenta o marido e, em Baixio das bestas, apresenta uma menina explorada sexualmente pelo avô.

 

Ainda que o lançamento de Piedade no Festival de Brasília leve à celebração, o diretor não deixa de relatar a apreensão da classe pelo momento de falta de suporte no audiovisual, algo que vê como desmonte. “Há um governo que tem rancor, um governo magoado. E que está acabando com tudo; está acabando com o cinema, inclusive. Não há compromisso sério, honesto com ninguém. É um governo que é um desgoverno”, conclui.

 

 

 

Piedade

 

Exibição, hoje, às 21h (no Cine Brasília, 106/107 Sul), do longa de Claudio Assis, antecedida pelos curtas Alfazema e Carne. Ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia). Não recomendado para menores de 16 anos. Hoje, às 20h30, com entrada franca, exibição nos complexos culturais de Samambaia e Planaltina, além da apresentação no IFB Recanto das Emas. Também hoje, no Cine Brasília, com entrada franca, às 15h, Cine Marrocos, de Ricardo Calil. Hoje, às 16h, longa Servidão (de Renato Barbieri e Neto Borges), com exibição gratuita, no Museu Nacional da República (Esplanada).

 

Cena da produção 'Alfazema', de Sabrina Fidalgo(foto: Fidalgo Produções e Cavideo/Divulgação)
Cena da produção 'Alfazema', de Sabrina Fidalgo (foto: Fidalgo Produções e Cavideo/Divulgação)
 

 

Uma crônica e um leve drama movido a humor pontuam Alfazema (RJ), da diretora Sabrina Fidalgo. Em pleno carnaval, um rapaz se recusa a deixar o chuveiro de uma foliã. Com direção de Camila Kater, Carne (SP) é uma animação que faz referência à exploração do corpo feminino enquanto menciona pontos para o cozimento de refeições.

 

Filme 'Carne', sob direção de Camila Kater(foto: Doctela e Abano Produccións/Divulgação)
Filme 'Carne', sob direção de Camila Kater (foto: Doctela e Abano Produccións/Divulgação)
 

 

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