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Correio Braziliense

'O mês que não terminou' analisa junho de 2013 no Festival de Brasília

Com tratamento artístico, reflexões contemporâneas, O mês que não terminou é um ensaio sobre a história recente, de junho de 2013 até o início do governo Bolsonaro


postado em 26/11/2019 06:05 / atualizado em 26/11/2019 16:22

'O mês que não terminou' traz um olhar sobre os protestos que culminaram numa onda conservadora(foto: Mídia Ninja/Divulgação)
'O mês que não terminou' traz um olhar sobre os protestos que culminaram numa onda conservadora (foto: Mídia Ninja/Divulgação)
 
Representante carioca na mostra competitiva do festival, o filme O mês que não terminou, dirigido pelo filósofo e escritor Francisco Bosco e pelo artista visual Raul Mourão, lança um olhar retrospectivo, analítico e artístico, sobre os eventos políticos marcantes de junho de 2013 no Brasil — uma série de protestos generalizados em todo o país, que começou por causa de “20 centavos” e terminou com eleição de Jair Bolsonaro, em 2018.

Essa trajetória é explorada no filme que, mixando imagens de arquivo, entrevistas com intelectuais e ativistas, com narrativa em off de Fernanda Torres, tem a trilha sonora de Plínio Profeta, com música original de João Bosco (de passagem: pai do diretor), além de videoperformances de artistas brasileiros. De acordo com Francisco Bosco, o filme é uma espécie de cinema-ensaio, estilo exemplificado pelo documentarista como Chris Marker e o ficicionista Terence Malick.

A propósito, foi justamente de um ensaio publicado por Francisco na Folha de S. Paulo que surgiu o filme. Até então inexperiente na linguagem cinematográfica, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicou um texto chamado Junho de 13 foi de sonho democrático a pesadelo autoritário, por ocasião dos cinco anos das Jornadas de Junho. Por causa do artigo, Julio Worcman, diretor do canal Curta!, convidou o escritor para dirigir um documentário.

Ao aceitar o convite, Francisco via a oportunidade de expandir as ideias postas no papel pelo confronto com os entrevistados. "A principal diferença entre o ensaio e o filme é que este procura entender a emergência das novas direitas: que condições propiciaram a organização delas, quais suas principais premissas, quais suas diferenças internas (liberais, conservadores moderados, reacionários) e o que caracteriza o pendor antidemocrático da vertente que prevaleceu", compara.

Política

 
Ao longo do filme, depoimentos de Laura Barbosa de Carvalho, Pablo Ortellado, Maria Rita Kehl, Marcos Nobre, Tales Ab’saber, Camila Rocha, Pablo Capillé, Pedro Guilherme Freire, Carla Rodrigues, Áurea Carolina, Reinaldo Azevedo, Joel Pinheiro da Fonseca, Samuel Pessoa e Marcos Lisboa, intelectuais de diversas áreas de atuação, exprimem suas visões sobre o caldeirão que deu origem aos protestos e seus desdobramentos, culminando no cenário político atual.

A dosagem entre personalidades, predominantemente alinhadas à esquerda, com outras de tendência mais liberal, não impedem o filme de apresentar uma postura clara. "Creio que a medida final do filme corresponde à sua perspectiva política, que não se pretende neutra, pois isso não existe, e sim, defende uma centro-esquerda, tal como entendo seus traços principais: afirma os valores fundamentais da democracia e da promoção de igualdades, em todos os níveis; reconhece, a princípio, a legitimidade das perspectivas dos campos divergentes; estuda esses campos e submete os próprios argumentos ao embate com os deles; recusa qualquer dogmatismo ou sectarismo; considera alguns dos argumentos e premissas desses campos pertinentes, outros não", define.

Entre a publicação do artigo, em 3 de junho de 2018, e a finalização do longa, pós-eleições presidenciais, ano passado, muita coisa correu, mas a conclusão do diretor, após o processo, continua fazendo coro com a opinião difundida de que existe uma genealogia direta entre os protestos de 2013 e a eleição de Jair Bolsonaro. "Já na publicação do ensaio estava claro que junho havia tido um devir conservador. Obviamente, esse destino não era o esperado pela esquerda que tomou as ruas no primeiro momento, antes de os atos se tornarem híbridos e, depois, serem completamente apropriados pela direita”, analisa. 

Arte


Ao sentar na cadeira de diretor, o estreante Francisco Bosco convidou o amigo de longa data Raul Mourão, cujo trabalho artístico admira, para contribuir com a empreitada, acrescentando uma camada artística ao trabalho. Além de contribuir com vídeos de própria autoria, Raul pesquisou o trabalho de outros artistas contemporâneos, que produzissem videoperformances ou videoarte, e elegeu trabalhos de Nuno Ramos, Cao Guimarães e Lenora de Barros para compor o filme.

"Eu queria trabalhar com imagens densas e abstratas, não apenas imagens documentais. Ele propôs trabalharmos com vídeos de artistas contemporâneos, fez a curadoria desses vídeos e os ressignificou, interpretando seus sentidos à luz do roteiro do filme. Parte significativa do resultado final é uma espécie de interpretação política que o Raul faz das obras desses artistas, que foram muito generosos conosco, permitindo que usássemos suas obras para esses fins", diz Francisco.

Documento


A garimpagem de arquivos históricos para retratar o episódio em tela ofereceu mais complicações. Realizado com um orçamento de R$ 400 mil, financiados com aportes da Ancine, que cobriu 90% dos gastos, e com recursos do canal Curta! e da produtora Kromaki, que também assinam o projeto, e dos próprios diretores, que juntos cobriram os 10% restantes. Para viabilizar o projeto, contaram com parcerias, paciência e astúcia.

"O maior desafio foi equacionar a quantidade e qualidade das imagens de arquivo, de que precisávamos, com o custo alto dessas imagens. Para isso, contamos com a parceria fundamental do coletivo Mídia Ninja, que nos cedeu gratuitamente muito material, e com as renegociações sucessivas por parte do pesquisador de imagens do filme, Antonio Venancio, e da Kromaki, que se empenharam muito para que pudéssemos adequar os custos ao orçamento", relata o diretor.


Duas perguntas // Francisco Bosco

 

 

Como é trazer ao público um documentário, em tempos de deslegitimação do conceito de verdade, ou seja, a bendita pós-verdade? O diálogo com uma linguagem mais artística, como as videoperformances, poderia contribuir ou obscurecer essa mensagem?


Há hoje um processo danoso de disseminação de informações falsas, isto é, que não correspondem a fatos, a coisas que objetivamente aconteceram, mas, também, de simplificação da linguagem, de mimetização dos discursos, estabelecimento de lógicas de grupo. A proposta do filme é ir contra tudo isso. Para nós, a política deve ser o lugar do rigor jornalístico (respeito a fatos), da complexidade interpretativa (a realidade nunca é simples), da resistência à tentação dogmática e sectária, do benefício de certa desidentificação. É claro, não existe política sem antagonismo, sem conflito — mas os termos das disputas devem ser outros.

 
Há alguns discursos que atribuem à ascensão de um governo conservador, com certo apoio popular, uma genealogia direta com os eventos de 2013. Qual sua opinião sobre isso?

Junho de 2013 atirou a primeira pedra no lulopetismo, fragilizou as instituições, mobilizou a sociedade civil e empoderou as redes sociais. Criou, com isso, as condições fundamentais para a reorganização das direitas e, depois, a ascensão do populismo bolsonarista. Isto posto, considero simplória e falsa a leitura de ex-governistas, segundo a qual junho de 2013 foi desde sempre um movimento irresponsável ou antidemocrático. Apesar de todas as virtudes dos governos do PT, que não foram poucas, não faltavam motivos para protestos em 2013: havia um sentimento de soberania deficitária, de cidadania afastada (intensificada pela proximidade dos grandes eventos esportivos), os serviços públicos continuavam precários, as suspeitas de corrupção eram fortes, etc. O objetivo inicial de junho era aprofundar a democracia; por uma série de circunstâncias, algumas imprevistas — a Lava-Jato, por exemplo — sua consequência foi a de abrir caminho para a ascensão de um governo profundamente antidemocrático (embora superficialmente democrático, como todo populismo).
 

Por volta de 2014, a ensaísta Ivana Bentes publicou um artigo chamado Estéticas insurgentes e mídia-multidão, na qual ela analisa a influência de aspectos técnicos e estéticos sobre as narrativas e comportamentos dos protestos de 2013. O seu filme é, de certa forma, um produto desta estética, e de que forma ela contamina o documentário, por exemplo, por meio das imagens de arquivo?

 

Não conheço o texto da Ivana, portanto não posso analisar como ele se relaciona com o filme. Mas não penso que nosso filme se inscreva numa espécie de “estética de 2013”. Ao contrário: no lugar do calor da hora, ele é refletido, ou, como diria Wordsworth: “emotion recollected in tranquility” (Emoção recordada em tranquilidade). No lugar da revolta, ele exerce uma crítica paciente. No lugar dos slogans de passeatas, ele apresenta uma linguagem da complexidade. Em suma, ele aborda junho de 2013 por fora, e não por dentro.

  
 
Confira a programação desta terça-feira (26/11) do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 
 

O mês que não terminou (RJ)

 
Pela Mostra Competitiva, exibição do documentário de Francisco Bosco e Raul Mourão. Terça-feira (26/11), às 21h, no Cine Brasília (EQS 106/107), com ingressos a R$ 20 e R$ 10 (meia); e às 20h30, nos complexos culturais de Samambaia e Planaltina e no IFB do Recanto das Emas, com entrada franca. Na quarta-feira (27/11), às 10h, o diretor Francisco Bosco e o produtor Rodrigo Letier participam de um bate papo no Gran Mercure Hotel, e o filme será reprisado às 18h30 no Museu Nacional, com entrada franca.


Curtas da noite


Em Parabéns a você, de Andréia Kaláboa, uma menina tem um sonho: ganhar uma festa de aniversário. No entanto, a família não costuma celebrar aniversários por conta de dificuldades financeiras. Na semana de aniversário da garota, o primo de sua mãe morre. A menina terá aprendizado, em meio ao luto, e encara o medo da morte para alcançar um objetivo: ter uma festa de aniversário. Já em Pelano!, de Christina Mariani e Calebe Lopes, Raquel é apresentada ao público — ela está há seis meses pingando, e ainda parece que tudo vai derreter.

*Estagiário sob a supervisão de José Carlos Vieira

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