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Correio Braziliense

"O cinema brasileiro agoniza, mas não morre", afirma cineasta Cacá Diegues

Em entrevista ao Correio, o cineasta Cacá Diegues, presidente de honra do júri do Festival de Brasília, afirma que a cinematografia nacional vive o melhor momento em meio ao desmonte das instituições culturais


postado em 01/12/2019 06:05 / atualizado em 30/11/2019 18:41

O cineasta é presidente de honra do júri do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
O cineasta é presidente de honra do júri do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

 

Foi por afinidade de ideias, junto a realizadores internacionalmente reconhecidos como Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, David Neves, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade, que o diretor alagoano Cacá Diegues se aproximou do cinema, e sedimentou as bases de todo um caráter renovador na telona, na gênese do Cinema Novo, um emblema para a cultura no país.


Descontados os sucessos na boca do público, como Bye bye Brasil, Tieta do Agreste e Xica da Silva, Cacá, que é imortal da Academia Brasileira de Letras, ainda se associou, como produtor, ao cinema de personalidades celebradas no meio artístico — como Kleber Mendonça Filho e Selton Mello. Natural que, com tanta bagagem, desconheça a recém-nomeada secretária do Audiovisual Katiane de Fátima Gouvêa, uma das incógnitas na onda conservadora da linha Bolsonaro.

“O governo brasileiro quer acabar com o cinema brasileiro, por inércia; mas, declaro, formalmente: ‘o cinema brasileiro não vai acabar nunca’”, diz, ao Correio, um dos homens que mais sabe representar o povo na tela. Convidado de honra, como presidente do júri do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro — o mais tradicional e respeitado do país —, Cacá Diegues que, ao lado de Glauber Rocha, empurrava cadeiras, entre outras funções, para estar num set de Nelson Pereira (Vidas secas e Memórias do cárcere), é precursor, no incentivo a que o cinema tenha a cara do brasileiro. Botafoguense, morador do Rio, Cacá traz brilho nos olhos, ao falar da identidade dos realizadores jovens que se identificam na telona brasileira.

“No início dos anos 1990, a Cufa (Central Única das Favelas) me chamou para um curso de cinema na Cidade de Deus: vi que, na turma, entre 120 rapazes e moças, uns 20% já tinham feito um filme. Dali, saíram talentos para o longa Cidade de Deus”. Natural que, com tanta devoção à sétima arte, Cacá louve, à exaustão, Paulo Emílio Sales Gomes — o criador do Festival de Brasília, historiador e ensaísta de cinema. “Ele foi um mestre para gente. Era culto, inteligente e cheio de ideias novas. Foi tão importante para o cinema quanto Glauber Rocha. Ele apoiava e ensinava coisas para os cineastas de maneira fantástica. Paulo Emílio formou todos nós: foi um grande pai do cinema brasileiro do qual até hoje falamos”, diz.

Qual é sua visão, quanto ao estrondo na cerimônia da abertura do Festival de Brasília?

A democracia traz o direito de você dizer o que quer. Estar com a razão não te dá o direito de censurar o próximo. A abertura do Festival teve dois momentos absolutamente repugnantes: primeiro, não deixaram o secretário de Cultura Adão Cândido falar, e depois, um segurança tirou uma carta da mão de um rapaz (manifestante). Ou seja: esquerda e direita praticando o mesmo tipo de censura?! Impedir o outro de falar é algo que não pode acontecer. Temos que lutar contra isso! Perco meu direito de falar, quando proíbo a fala do outro. Aquela abertura do festival trouxe um símbolo de tudo o que está errado.


Então a menção, por políticos, do Ato Institucional nº 5 desemboca onde?

Isso é um absurdo total. Vamos separar as coisas: não estamos vivendo numa ditadura — convivemos com um governo do qual não gostamos; é diferente. Na ditadura, você acorda, de manhã, e tem quatro militares, perto da cama, para levar você, preso. Eu mesmo tive que deixar o Brasil, em 1969. Hoje, vivemos com um presidente eleito — o povo o elegeu, o que se pode fazer?! Tem que aguentar. Acho bobo falar em resistência. Resistência se faz quando você está ocupado — quando seu espaço está ocupado pelo outro. Sou oposição a ele: não gosto do que ele faz. Não acredito em censura — acredito que haja, sim, um esvaziamento das políticas públicas para o cinema, no Brasil. Ameaças de retorno do AI-5 são declarações que deveriam levar uma pessoa à prisão. O AI-5 foi a maior crueldade feita ao país. O povo tem o direito de ir para a rua. Isso é o democrático.


Que legado o Cinema Novo deixou, na atualidade, em termos de produção?

O Cinema Novo trouxe o modernismo para o cinema brasileiro. Além do trato autoral, era o registro da realidade brasileira. Antes, vínhamos do cinema de estúdio. Foi o primeiro movimento com alcance internacional vindo do que era chamado de Terceiro Mundo. No Cinema Novo, não há nada de parecido entre os filmes do Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma), do Leon Hirszman (A falecida), do Glauber Rocha e dos meus filmes, não há nada parecido. Havia, entretanto, o compromisso de registrar a realidade brasileira. Uma imagem que só nós poderíamos registrar, e dar à imagem uma linguagem que criamos. A partir daí, o cinema se libertou da tradição do estúdio e da câmera pesada. Apesar dos percalços, ele se desenvolve até hoje. O que sobrou do Cinema Novo? O cinema brasileiro. Tiramos o cinema do estúdio, da câmera parada.


Brasília simboliza o quê, para quem construiu o Cinema Novo?

Sou de uma geração que achou que o Brasil ia ser muito importante para a civilização humana. Achávamos que íamos contribuir de uma maneira muito mais poderosa. Acreditávamos, piamente, na cultura brasileira. Traríamos um elemento de humanização da civilização humana. Isso não aconteceu. O que simbolizava tudo isso, para a gente, era Brasília. Em 1959, vim aqui com meu pai, que era antropólogo e funcionário público. Brasília estava em construção. Estávamos no Eixo Monumental, e Juscelino Kubitschek desceu de helicóptero, e começou a listar para ele: aqui é o Palácio da Alvorada, aqui é o Congresso; e não tinha nada! (risos). Brasília foi um símbolo, uma síntese da cultura que a gente preconizava. E ainda vinha com a arquitetura de Oscar Niemeyer. Temos que cultivar Brasília, nesse sentido. Não podemos amaldiçoar ‘porque o presidente não presta’. Não é isso! Isso não tem sentido. O Festival de Brasília está aqui, pioneiro e o mais importante, criado por Paulo Emílio Sales Gomes e Nelson Pereira dos Santos. A repercussão nacional do Cinema Novo veio praticamente daqui.


Como percebe o desmantelamento da esfera do audiovisual? Há esperança? 

Comecei em cinema, muito cedo, aos 22 anos. Nunca vi um momento como este de agora: o paradoxo é que o cinema nunca foi tão bom e, quantitativamente, grande. Hoje, anualmente, produzimos o recorde latino-americano de 180 filmes, contra sete de outra era. E dentro da diversidade, em larga escala: com filmes históricos, filmes populares, e representantes da regionalidade. O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é uma prova disso. Nenhum filme é parecido com o outro; não há mais como transformar o cinema brasileiro em gênero, ao lado de comédia, musical... É paradoxal: estamos no melhor momento para o cinema nacional, e, ao mesmo tempo, com vários problemas nas políticas públicas de cinema.


Que mecanismos no governo podem ser aprimorados para a produção?

Em todo o lugar do mundo, sem exceção, até mesmo nos Estados Unidos, pátria maior do capitalismo liberal, existe uma proteção do Estado, de alguma forma. O Estado participa como incentivador, sustentador e até mesmo como produtor de cinema. Lá, nos EUA, não existe como lançar um filme como Os Vingadores em mais de 90% das salas de cinema. Nosso cinema é extraordinário, e temos uma política pública completamente abandonada. O governo brasileiro quer acabar com o cinema brasileiro, por inércia. Não proíbe você de filmar, não está destruindo ou censurando os filmes, mas... Não conseguimos fazer o que fazíamos, até o ano passado. Não tem mais a cota de tela, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) está praticamente paralisada, a renovação da Lei do Audiovisual não é discutida. Declaro formalmente: o cinema brasileiro não vai acabar nunca (risos). Temos que continuar, de alguma forma, vigorosos. Pode entrar em cr ise, produzir menos, mas acabar?! Não acaba.


E a música brasileira, em que local anda?

O cinema é feito o samba que “agoniza, mas não morre” (risos). É como diz o Nelson Sargento. Aliás, sempre gostei muito de música. Sou aquele músico frustrado. Tenho bom ouvido musical, mas minhas mãos são inábeis. Ouço música, o tempo inteiro. Ouço, no dia a dia, de ópera até o samba mais popular, funk. Ela é importantíssima. Em qualidade, não tem a grandeza que teve nos anos de 1950, 1960 e 1970. Não é nostalgia, não: cadê? Cadê o Gilberto Gil, o Caetano Veloso e o Milton Nascimento, de hoje? Onde estariam os novos Novos Baianos (risos)...? Vou dizer: meus primeiros contatos de visão profissional com cinema traziam música. Eu fazia fichas técnicas de filmes, ia a cineclubes, nas conversas estavam os filmes de arte. O que pesava, era o que falávamos, nos encontros, depois dos filmes. Em 1956, assisti a Rio 40 graus (Nelson Pereira dos Santos), proibido pela censura. Estudava, e, pela Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), fui trabalhar pela liberação do filme. No Teatro Municipal do Rio, em 1956, houve estreia de Orfeu da Conceição, peça do Vinicius de Moraes. Pensei: ‘O samba está no Teatro Municipal e a realidade brasileira, carioca, está no cinema do Nelson Pereira’. Dali é que comecei a ver que poderia ser um cineasta.


Com tanta circulação, em festivais mundo afora, que personalidades te impressionaram?

O Festival de Cannes, em 1964, trouxe um encontro inesquecível. Tive o primeiro longa da vida, selecionado para a Semana da Crítica. No mesmo ano do Deus e o diabo na terra do sol (Glauber) e Vidas secas, que competiam. Estava maravilhoso para o cinema brasileiro. Conheci, na vida, muita gente... Conheci Federico Fellini, no Festival de Veneza, que trazia Satyricon — uma volta dele ao cinema — e passou no mesmo dia do meu, Os herdeiros. A fila enorme era para ver o filme dele. Passou por mim, e disse: ‘Mi dispiace (Sinto muito)’ (risos). Acabou meu filme (risos). Isso me fez amigo dele: uma pessoa muito engraçada, que ainda vi em Nova York... Francis Ford Coppola (O poderoso chefão) me impressionou muito: o conheci, e vi seus filmes na casa dele. Mostrei Bye bye Brasil, no escritório dele, em San Francisco. Jean-Luc Godard também: vi O vento do leste (1970), com Glauber em cena, na moviola francesa do Godard. Elia Kazan foi muito amigo meu. Até hoje, quando leio uma carta que ele fez sobre Os herdeiros, eu choro (risos).


O diretor de Deus é brasileiro é religioso? Como vê a intolerância da religião?

Não sou religioso, nem ateu. A questão de Deus, nem discuto. Alguma coisa existe: mas não acho que seja à nossa imagem e semelhança (risos). Toda a religião é uma forma alegórica de compreender o mundo. Isso não só deve ser permitido como incentivado. Isso te coloca no mundo, frente a certos preceitos, conceitos, no campo da convivência. A questão central da democracia é permitir tudo que não prejudique o outro. Perseguir religião é das coisas mais sórdidas que existem no mundo. Maltratar candomblé, como feito no Rio de Janeiro, é absurdo: traficante está sendo levado a destruir terreiros nos morros. Um absurdo total!


Para o diretor de Ganga Zumba (1963), qual o lugar do negro, passado o mês da consciência negra?

Sou dos primeiros cineastas a trabalhar com cultura negra, isso não apenas pelo fato de meu pai ser antropólogo, e me dar livros. Tive uma babá chamada Bazinha — ela me contava histórias do Zumbi (dos Palmares), nascido na Serra da Barriga, entre o interior de Alagoas e Pernambuco. Isso é muito presente na vida das pessoas. Os relatos dela davam a impressão de que Zumbi estava vivo. Ela dizia que ninguém o pegou, na serra, porque ele sabia voar. Tinha até receio (risos). A ideia de um negro herói era muito normal, natural. Estava impregnada, desde minha infância.


E as reflexões contemporâneas?

Nutri meu interesse pela cultura negra. Sou leitor de Alberto da Costa e Silva, o maior africanólogo do Brasil. Interesso-me, culturalmente, e fico atento ao rumo que podemos tomar. Joaquim Nabuco dizia uma coisa sobre a abolição da escravatura: que a escravidão vai perseguir a cultura brasileira por muito tempo. Os erros criados permanecerão por muito tempo: os negros não têm acesso! Acho maravilhoso que, com as cotas, haja mais negros nas universidades do que brancos. Mas eles não saem da faculdade com emprego garantido, não têm posição importante no Congresso, na política. A escravidão continua como chaga e mancha na vida brasileira até hoje. Zumbi só se tornou herói nacional, agora, recentemente. Quando do Ganga Zumba ninguém conhecia o Zumbi.

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