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Correio Braziliense

Mulheres do audiovisual brilharam no Festival de Brasília

Ao Correio, as realizadoras adiantam planos e refletem sobre a importância do reconhecimento


postado em 07/12/2019 06:35 / atualizado em 06/12/2019 20:01

Julia Zakia (com a filha Luiza), e as colegas de luta: Bruna Linzmeyer, Sabrina Fidalgo e Ana Flávia Cavalcanti (foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação)
Julia Zakia (com a filha Luiza), e as colegas de luta: Bruna Linzmeyer, Sabrina Fidalgo e Ana Flávia Cavalcanti (foto: Mayangdi Inzaulgarat/Divulgação)

 
“Nossa união foi muito forte. No Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a revolução, que pode vir por meio das mulheres surpreendeu. Brasília foi uma arena de discussão. Em alguns momentos, nos vimos desrespeitadas na fala e no espaço. O retorno, porém, veio sem agressão, num discurso a favor de sentimentos. Prêmio recebido é interessante, mas o microfone é mais. Tivemos um espaço de fala que normalmente não se tem”, comenta Julia Zakia, codiretora de , considerado o melhor curta do evento encerrado domingo passado.
 
Reivindicações de respeito e exemplos para a nova geração de luta feminina — longe que qualquer resquício de medo — foi uma das ênfases de Zakia, ao falar do evento. Ao lado da codiretora de , Ana Flávia Cavalcanti, a cineasta espera que encontros e ações práticas dos coletivos femininos não sejam encerrados nos festivais. “A força do coletivo deixa a gente protegida de tudo”, avalia a diretora. Num momento emblemático do Festival de Cinema, houve a leitura do Manifesta, mobilização que projetou preceitos como o de que “Nada será feito sobre nós (mulheres) sem nós”.
 
Ouvidas pelo Correio, as marcantes presenças femininas no evento revelaram desafios próprios da sétima arte e futuras realizações. Zakia, no próximo filme, vai falar de “uma mãe solteira, diante da beleza e dos perrengues da maternidade real” e, noutro (ao lado de Ana Flavia Cavalcanti), vai propôr algum tema “urgente” para ser desenvolvido.

Sabrina Fidalgo


“Meu propósito maior é poder ter a minha criatividade, visão de mundo e olhar crítico”, observa a diretora carioca Sabrina Fidalgo, vencedora do prêmio de melhor direção de curta-metragem por Alfazema. A satisfação com o prêmio na capital reforça a identidade junto a tópicos de brasilidade tão potencializados na recente festa: “Ser brasileira, para mim, significa levar comigo o legado dos meus ancestrais e, ao mesmo tempo, ter um olhar futurista-tropical diferenciado do hemisfério Norte que tanto amamos”.
 
Entre os futuros planos, Sabrina aponta o encerramento da Trilogia do Carnaval (que já rendeu os curtas Rainha e Alfazema), com curta a ser filmado em fevereiro de 2020. Junto com a idealização de longa de ficção chamado Bolero, a diretora apostará na feitura de documentário sobre a história do funk no país. “Sou movida pela possibilidade de escrever e reescrever histórias nunca antes contadas, com outros protagonistas, e pensar novas estéticas, linguagens e narrativas”, avalia.
 
 
Thaís Borges(foto: Mauricio Torres/Divulgação)
Thaís Borges (foto: Mauricio Torres/Divulgação)
 

Thaís Borges


Diante de um desafio de expressão, a vontade de compartilhar tramas e o interesse pelo aprendizado. Movida por essa conjuntura, a diretora de cinema formada em Brasília e Cuba Thaís Borges colheu resultados na projeção do longa O tempo que resta (selecionado junto a seis concorrentes centrais), considerado pelo público o melhor filme durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Thaís foi uma das cineastas que engrossou a visibilidade das mulheres durante o evento: entre 42 prêmios (atribuídos para longas, curtas e para as fitas concorrentes na Mostra BRB Brasília), 27 saíram por produções conduzidas por mulheres.
 
“Ter voz é uma responsabilidade, principalmente num contexto político sombrio como o atual. Penso em como me reconhecer na humanidade do outro e abrir caminhos para o diálogo”, explica a premiada diretora do documentário, ao definir suas motivações. “Sempre que algo me emociona para além de um encanto cotidiano, sinto vontade de fazer um filme”, completa. Junto com ela, duas outras realizadoras projetaram o talento da capital nos resultados da Mostra BRB Brasília: Adriana Vasconcelos (Mãe) e Glória Teixeira (Dulcina).
 
Thaís Borges, entusiasmada com a conjuntura (atualmente, retomou estudos de aperfeiçoamento, na Irlanda) e com as recentes realizações, adianta ao Correio o próximo projeto. “Comecei a trabalhar num filme que venho gestando há sete anos, uma animação que mistura documentário e ficção. A ideia surgiu de uma experiência pessoal bastante dolorosa, mas que resultou numa descoberta tão bonita quanto surpreendente. É um projeto que, de certa forma, traz uma metáfora de como a arte nos salva, promove catarses e sempre indica resistência”, diz.
 
 
(foto: Beija Flor Filmes/Divulgação)
(foto: Beija Flor Filmes/Divulgação)
 

Anne Celestino 


Aceitação e plena inserção no meio do audiovisual foram sinalizados para a atriz pernambucana Anne Celestino, eleita, aos 21 anos, melhor atriz pelo trabalho no longa-metragem Alice Júnior. “O festival terminou sendo o festival das mulheres. Acabei fazendo história como mulher trans. Tudo foi muito simbólico, teve muito discurso político contra o machismo da produção cinematográfica, e ainda teve nossa carta Manifesta”, celebra a intérprete e protagonista.
 
“Há a questão social de pessoas trans não serem incluídas nas artes — não existe isso de meia representatividade: nós devemos nos representar e protagonizar nossas histórias. Como trans, estou ocupando espaço a partir de talento que tenho: por lutar, vou existir e resistir”, comenta.
 
 
(foto: Doctela/ Divulgação)
(foto: Doctela/ Divulgação)
 

Camila Kater

 
Realocar a representação das mulheres num cinema nacional que é “excludente e desigual” é uma das metas da diretora de Carne, Camila Kater, que já acumula 11 prêmios para a animação festejada em circuito que vai de Brasília até cidades de países como Suíça, Canadá, Alemanha e Espanha.
 
“Infelizmente o cenário político brasileiro não é muito motivador para financiamento de filmes, mas a censura que estamos vendo só me faz ter mais vontade de me expressar com filmes. Quero explorar as infinitas possibilidades da animação. Ser ouvida deveria ser o mínimo para qualquer artista, não deveria ser uma luta”, comenta Kater. Assegurar a cinco animadoras o direito de expressão e a criação de um espaço coletivo foi uma motivação para a diretora de Carne. Mesmo que “branca, cis, de classe média e com o privilégio de poder estudar arte”, como ela mesma diz, Kater não tinha se visto com reconhecimento na função de animadora. 
 
A realização de um musical animado com temas tabus está nos projetos da realizadora de Carne. “Ele está no meio de nós é um projeto de curta sobre meu maior pavor quando criança: Jesus Cristo. A ideia é discutir a iconografia do catolicismo, a imagem eurocêntrica de Jesus e a iniciação religiosa”, adianta.

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