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Correio Braziliense

Brasiliense Felipe Cavalcanti se destaca na ilustração de livros infantis

Ilustrador ganhou um Jabuti com projeto gráfico de 'Clarice'


postado em 08/12/2019 06:30

Ilustração de Felipe Cavalcante para o livro Clarice: audácia no diálogo entre imagens e texto(foto: Felipe Cavalcante/Divulgação)
Ilustração de Felipe Cavalcante para o livro Clarice: audácia no diálogo entre imagens e texto (foto: Felipe Cavalcante/Divulgação)
Felipe Cavalcante foi ousado ao pensar como queria o diálogo entre as imagens e o texto em Clarice. No livro infantojuvenil de Roger Mello, a menina do título vive uma infância tipicamente brasiliense em um período agudo da ditadura. A separação dos pais e a opressão causada pelo regime encontram reflexo na maneira como a personagem vê e entende o mundo. Cavalcante, responsável pelas ilustrações e pelo projeto gráfico do livro, escolheu as cores laranja, cinza e azul para construir o universo imagético da garota. Aparentemente, deu certo: Clarice ganhou o Jabuti na categoria Projeto Gráfico, além de outros prêmios como o da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (Fnlij), o White Raven de Munique (Alemanha), o de melhor projeto gráfico da Biblioteca Nacional e uma seleção para a Bienal de Design Gráfico de Curitiba. 

Nascido e criado em Brasília, Felipe Cavalcante, 34 anos, faz parte de uma geração de artistas brasilienses que têm se destacado na cidade. Formado em design gráfico pela Universidade de Brasília (UnB), ele fundou, antes mesmo de formar e com um grupo de amigos, o Estúdio Mopa, especializado em identidade visual e com uma carteira de clientes que incluía Johnson e Johnson e Coca Cola. “Era o começo da internet e demos sorte de os blogs divulgarem bastante o trabalho, conseguimos fazer eventos internacionais. Mas a gente era muito jovem”, conta. 
Felipe Cavalcante nasceu e cresceu na cidade e estudou design na Universidade de Brasília(foto: Nahira Salgado/Divulgacao)
Felipe Cavalcante nasceu e cresceu na cidade e estudou design na Universidade de Brasília (foto: Nahira Salgado/Divulgacao)

Nos anos seguintes, Cavalcante e os amigos encerrariam os trabalhos do escritório para viver experiências fora de Brasília. O ilustrador foi então morar em Londres por um tempo. Na volta ao Brasil, ajudou a montar o espaço Laje, estúdio colaborativo que integrou artistas de várias áreas, de quadrinhos a design gráfico. “Era um ateliê muito voltado para eventos, exposições, uma mistura entre os universos que sempre tive, que é o design gráfico com as artes plásticas e a ilustração. Sempre foi difícil para mim ter que escolher entre os três universos e acabo sempre estando nos três”, conta o artista. “Depois, os meninos foram para São Paulo e abriram o espaço Breu e eu abri o Ateliê Nova, aqui em Brasília. De lá, surgiu meu atual estúdio de design, que é o Molde, em parceria com Gabriel Menezes.”

No Molde, o foco está na identidade visual e em projetos editoriais. “Trabalhamos bastante com o impresso, pensando o livro de maneira muito ampla, e identidade visual de eventos”, explica Cavalcante, acostumado a criar, sobretudo, para artistas do Distrito Federal como Ralph Gehre e Christus Nóbrega. Na área editorial, ele tem uma bagagem de livros infantis que inclui Era uma vez uma Maria Farinha, de João Bosco Bezerra Bonfim, Um voo sobre as capitais brasileiras, de Gisele de Castro, e Clarice, de Roger Mello. Com este último, o envolvimento foi especial. 
lustração de Felipe Cavacante para o livro Clarice(foto: Felipe Cavalcante/Divulgação)
lustração de Felipe Cavacante para o livro Clarice (foto: Felipe Cavalcante/Divulgação)

O artista é sobrinho de Roger e Clarice, de certa forma, narra uma história familiar. “É um livro que tem influência muito forte na história da minha família, que é da primeira geração de Brasília. O livro se passa na época da ditadura e fala sobre o poder dos livros”, conta, lembrando que há várias referências autobiográficas do próprio Roger Mello no livro. “Ele sempre fala que as histórias mais absurdas são todas verdadeiras.” Especialmente aquela em que a pequena Clarice observa os adultos que enrolam livros com pedra para jogar da ponte porque eram subversivos. 

As mesmas pedras, Cavalcante utiliza como metáfora para falar dos censores responsáveis por demonizar os livros. “A gente não queria que o livro fosse panfletário e assumisse um lado só, então acabei fazendo uma interpretação na qual as pedras viraram personagens também. O que são essas pedras? Que embates a gente sofre com essas questões de subversão? Quem joga as pedras e amarra os livros? A situação é um pouco mais complexa, não é exatamente apenas o bem e o mal”, explica. “Sou de uma geração que estudou a ditadura como fato consumado e horrível da história, mas a verdade é que, enquanto você estiver vivendo, a coisa não é tão clara assim. Todos nós vivemos de fragmentos.”
Uma das maiores preocupações de Felipe ao idealizar o projeto gráfico de Clarice foi preservar o potencial imagético do texto de Roger Mello. “Propus um projeto gráfico que tivesse muitas ilustrações para, justamente, mergulhar mais na história nessa parte visual. O esforço foi não encerrar as imagens que o texto cria porque o texto do Roger é muito imagético e meu maior esforço foi não matar essas imagens”, garante. 

Clarice
De Roger Mello. Projeto gráfico: Felipe Cavalcante. Global, 124 páginas. R$ 59,90

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