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Correio Braziliense

Em cartaz, exposição apresenta o conceito de 'living dolls'

Designer e ilustrador brasiliense se inspira em movimento do 'female masking' para criar ilustrações e provocar reflexões sobre as máscaras humanas


postado em 08/01/2020 08:16 / atualizado em 08/01/2020 10:58

Nos desenhos, Teles reforça no olhar o vínculo com o observador(foto: Guilherme Dantas/Divulgação)
Nos desenhos, Teles reforça no olhar o vínculo com o observador (foto: Guilherme Dantas/Divulgação)
Intrigado pelo que é, à primeira vista, considerado bizarro pelo senso comum, o designer e ilustrador brasiliense Henrique Teles desenvolveu o hábito de mergulhar por curiosos vídeos do YouTube. Comportamentos exóticos passaram pela lista. “Eu me interesso por assistir vídeos de pessoas que têm a vida diferente da minha, hábitos diferentes, coisas incomuns e pegar aquilo que é considerado caricato e fazer o exercício de empatia para ver o quê daquilo eu também tenho em mim. Navegando pelas quartas e quintas camadas do YouTube, encontrei os materiais sobre as living dolls”, explica o ilustrador.
  
Em meio ao universo da subcultura do female masking, como é conhecido na Europa e nos Estados Unidos, Henrique encontrou a inspiração para a última série de desenhos em exposição na Castália, Asa Norte. Criado na década de 1980, a partir de máscaras de personagens de filmes como Batman, o movimento reúne homens, mais velhos em sua maioria, que gostam de se transformar em bonecas vestindo uma segunda pele, máscara e peitos de silicone.
 

'Living dolls', bonecas vivas, na tradução livre, ou 'female masking', são termos usados para designar o movimento de homens que se vestem como bonecas femininas, com roupas de látex.

 
 
O resultado é um rosto bastante imóvel, dando a impressão de uma boneca ou manequim e uma aparência completamente plástica. Da identidade original, restam os olhos. A proposta da exposição foi tentar criar esse tipo de relação com o público.
 
Conhecido na Europa e nos Estados Unidos, o 'female masking' surgiu na década de 1980(foto: Youtube/Reprodução)
Conhecido na Europa e nos Estados Unidos, o 'female masking' surgiu na década de 1980 (foto: Youtube/Reprodução)
 

Identidade blindada

Com estética colorida e retrofuturista, Teles quebra a primeira barreira do estranhamento(foto: Guilherme Dantas/Divulgação)
Com estética colorida e retrofuturista, Teles quebra a primeira barreira do estranhamento (foto: Guilherme Dantas/Divulgação)
“Nas ilustrações, todas as personagens estão na posição de saberem que estão sendo observadas e criam quase uma cumplicidade. Da mesma forma que as living dolls, cobertas de látex, roupas que, de certa forma, as blindam de serem identificadas, o que sobra é o olhar. Então, especificamente, no olhar reforço esse vínculo com o observador”, detalha Teles.
 
Mais do que caricaturar, trazer uma alegoria ou expor uma situação, como os circos da década de 1950 faziam com a mulher barbada, o ilustrador desenha a empatia. “Um olhar mais humano mesmo. Todo mundo tem várias camadas em si. Embora essa seja a inspiração das gravuras, a exposição é uma provocação para o observador sobre as nossas próprias coisas, hábitos, gostos, desejos...etc...que mantemos escondidos”, analisa.

Com uma estética colorida e retrofuturista, Teles quebra a primeira barreira do estranhamento. “Em um primeiro momento, a gente sempre vai com vários julgamentos e tentamos achar uma justificativa para fazer algum sentido do nosso ponto de vista. Mas, ao observar sem ter essas escamas de julgamentos, menos inquisidor, começamos a ver que a pessoa tem uma vida quase igual a nossa, só que neste caso se veste de boneca. Eu não me visto de látex de boneca, por exemplo, mas consigo me relacionar com esse sentimento de esconder algo, de ter algum traço da minha personalidade que eu mantenho privado. Não é uma questão de aceitar, gostar, trazer para sua vida... nada disso, principalmente no caso de coisas ilegais... é só uma reflexão, um exercício mesmo”, acrescenta.

(foto: Guilherme Dantas/Divulgação)
(foto: Guilherme Dantas/Divulgação)
O apelo visual e das cores do female masking também despertou a atenção do designer e ilustrador. Teles sempre trabalhou com cores fortes e vibrantes e encontrou nelas algo aderente ao seu estilo de ilustração, um contraponto interessante à seriedade e ao estranhamento do tema. Os desenhos são únicos e originais, feitos com marcador em papel, e o processo de criação, por coincidência, também se dá por camadas, como a transformação dos homens em living dolls. “Peço para alguém posar, e a partir das fotos faço os rascunhos. Então, com a fotografia de alguém que não está caracterizado, eu adiciono a minha leitura dessa caracterização”, detalha o ilustrador.

Na exposição, Teles convidou a atriz e roteirista Nathalia Cruz para criar lambes com textos sobre essa reflexão proposta. “Nosso processo é muito cúmplice”. Depois de muitas trocas e conversas regadas às referências, passando até pelas fantasias carnavalescas, chegaram aos resultados. Da estranheza inicial, a roteirista passou a admirar as living dolls. “Acho que esse gosto pela esquisitice todo mundo tem um pouco, porque de certa forma todo mundo se interessa por algo que não tem a ver com o seu comportamento, que é distante. Mas é autêntico ao mesmo tempo. A exposição é o começo de uma investigação que a gente pretende fazer de como os seres humanos estão escolhendo se encontrar, o quanto a gente está à vontade dentro de nós”, comenta Nathalia. 
 

Bonecas de borracha

No female masking, as bonecas, ao contrário dos transgêneros, não sentem que nasceram no corpo errado. A ideia de vestir-se como membro do sexo oposto é uma maneira de se divertir. Com o advento da internet, começaram a surgir comunidades on-line que permitiram que as living dolls compartilhassem o interesse e as transformações. Mesmo existindo desde a década de 1970, o movimento é pouco conhecido. Muitos adeptos ainda sentem a necessidade de manter o hábito escondido.
 
Em 2012, o fotógrafo Steven Meisel chegou a fotografar a modelo Carolyn Murphy em um universo das female masking para a Vogue italiana e existem alguns documentários, como o Secrets of the Living Dolls, que apresenta detalhes da subcultura.
 
O movimento reúne homens que gostam de se transformar em bonecas(foto: Youtube/Reprodução)
O movimento reúne homens que gostam de se transformar em bonecas (foto: Youtube/Reprodução)
 

Serviço

Living dolls
 
De Henrique Teles. Na Castália Norte (CLN 102). Até 31 de janeiro.
 

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