Diversão e Arte

Francisco Gil se lança em projeto solo com o disco 'Raiz'

O material totalmente autoral bebe da fonte de um clã musical

Adriana Izel
postado em 27/01/2020 06:03
Francisco Gil
A família Gil é sinônimo de música. Tudo começou com Gilberto, mas se alastrou para as demais gerações. Dos oito filhos, três seguiram os passos do pai: Preta, Bem e José. Entre os netos, o talento apareceu e se desenvolveu em Francisco e João, e tem se mostrado em Flor, filha de Bela Gil. A bisneta Sol de Maria também já se arrisca na cantoria. ;A música sempre esteve nas nossas vidas. Lembro de desde muito pequeno sentar e tocar;, conta Francisco Gil em entrevista ao Correio.

Apesar de nascer em uma família extremamente musical, Francisco demorou a se entregar de vez à música. Hoje com 25 anos, ele conta que, até os 18, nunca havia pensado em seguir pelo caminho da música. ;Entrei na faculdade de cinema, trabalhei com cinema, estava caminhando. Mas a música me puxou para ela. Surgiu uma banda na época, depois a coisa foi ficando séria e abandonei o cinema. Eu já tocava guitarra e depois teve o processo de me descobrir como cantor, um processo mais profundo ainda;, lembra.

[SAIBAMAIS]No fim de 2018, se lançou com o tio José e o com o primo João no cenário com a banda Os Gilsons, experiência que o ajudou a explorar mais o canto e também a desenvolver uma carreira paralela em formato solo, lançada neste ano com o lançamento do disco Raiz. ;Foram coisas que nasceram meio juntas (Os Gilsons e o projeto solo). Comecei a pensar no disco em 2018, que foi justamente quando começamos Os Gilsons de forma despretensiosa;, revela.

De forma paralela levou os dois projetos. Com Os Gilsons lançou no ano passado o EP Várias queixas, com cinco faixas. Neste ano, assumiu a alcunha de apenas Fran e divulgou Raiz. O disco é composto por nove canções, todas escritas pelo cantor em parceria. Apenas duas têm apenas Fran como autor: Eu reparo e Bateu forte. As demais, como um bom Gil, nasceram de encontros musicais.


Participações


A primeira deles foi com Russo Passapusso, do BaianaSystem, com quem criou a primeira canção do disco, que, inclusive, é a faixa-título. ;O disco começou com o Russo. Ele me incentivou muito a gravar o disco, fazer meu som, correr atrás de verdade. Fizemos essa música no primeiro dia do ano;, lembra.

Pablo Bispo, Ruxell e Sérgio Santos, que formam o DOGZ, foram os principais parceiros de Fran. Além de produzirem o álbum, participaram da composição de quase todas as músicas: Coração tambor, Divino amor (gravada com Caetano Veloso), Eu mais tu, Denguinho, Leve axé e Afro futurista (faixa que teve auxílio de Gilberto Gil). ;Foi um processo muito bom de composição, de trazer outras pessoas. Surgiram por volta de 20 músicas, selecionadas e gravei em fevereiro;, recorda.

A escolha dos convidados surgiu de forma muito natural. Russo era a escolha óbvia em Raiz. A ideia de incluir Caetano veio de uma percepção de que ele se parecia com a música. ;Pensei: ;Vou dar um jeito de mostrar para ele;. Quando ele estava na turnê na Europa com os meninos, mandei para a Paula que ficou de mostrar. Terminou que Caetano gravou;, explica.

Já a presença do avô aconteceu meio sem querer. Fran apenas levou a canção para que Gilberto escutasse e desse o aval. ;Ele é a raiz de tudo que eu faço na música, além de tudo, o disco tem muita referência dele. Ele ficou muito feliz de ver aquilo, de ter a primeira pessoa da terceira geração dele fazendo um disco. O convite surgiu automaticamente. Ele foi ouvindo e fechou ali. A participação dele conta mais do que uma participação, porque, de certa forma, é um veredito dele, como se fosse uma legitimação daquilo;, completa.

A relação musical com o avô é profunda. Fran diz que a referência primária dele é exatamente Gil: ;No meu canto, no meu violão. Toda a minha referência é meu avô, claro, misturada com todas as referências que vieram depois;. Então, dividir os vocais com Gilberto e com Caetano, outro ícone, foram os momentos mais emocionantes do trabalho solo. ;Eles são duas entidades para mim. Falo de ancestralidade no disco, então, automaticamente estou falando deles;, revela.

Da mesma forma que olha para trás no disco, Fran também olha para frente, daí vem a presença das irmãs e da filha no coral de Leve axé. Estão lá como backing vocal Sol de Maria, Maria Junqueira, Clara Rosa, Maria Moletta e Anna Luiza. ;Foi uma superparticipação de uma outra geração que está vindo aí. É também uma canção que passa uma mensagem de amor para o mundo, que joga axé para o mundo. Elas amaram fazer parte disso. A Sol já tinha ido antes no estúdio e estava paquerando ali, com as tias, foi mais fácil, elas acabaram incentivando ela;, conta.


Tema


A raiz, que dá nome ao título, não está apenas na presença dos familiares, mas também na temática do disco. As letras e as melodias abordam as religiões de matrizes africanas, os ritmos brasileiros e a diversidade do Brasil. ;As minhas referências ligadas à música são afro-baianas e afro-brasileiras no geral. Acabei criando esse contato com aquilo que vem da África e da Bahia naturalmente. E todo esse processo de composição foi um momento de olhar para dentro, de tirar aquilo do fundo. O surgimento dessas canções foi um momento de autoconhecimento, de afirmação para mim;, explica.

Em Afro futurista, por exemplo, Fran canta ao lado de Gil essa mistura de influências e conceitos: ;África é o berço, é o passado, é o que foi dado de melhor para o Brasil. Rastafári do sul da Angola, preto velho de Guiné-Bissau, carioca baiano de Gana, da Jamaica pular carnaval, sou budista de Oxalá, kardecista de umbanda, candomblé com pouco de Jah, ô meu Deus agradeço a Alá;.



A relação com a África foi além das raízes. Francisco Gil visitou o continente ao lado de Pedro Alvarenga e Rafael Di Celio, com quem criou o filme que se tornou no clipe de Coração tambor. O trio passou 20 dias em Angola e uma semana na Namíbia. ;Nesse disco, fiz a experiência reversa do meu avô com Refavela, compus o disco e fui lá para a África, onde muita coisa foi ressignificada para mim, tudo aquilo que já tinha sido composto e cantando. Foi uma experiência transformadora e bem especial;, afirma.
Raiz
De Fran. Blacktape, 9 faixas. Disponível nas plataformas digitais.


; Duas perguntas / Fran


Você pretende começar a rodar o Brasil com o show de Raiz?

Estou começando a preparar o show. Já estamos ensaiando. Agora é pegar tudo, todas as ideias e tocar isso. A ideia sempre foi focar no lançamento como um todo. Estamos montando outro clipe. Esse ano vai ser de muita música para mim.


O que podemos esperar do trio Os Gilsons?

Estamos voltando para o estúdio. O importante na música é não parar. Para gente é uma delícia, uma coisa muito leve, é genuinamente a gente, é um som de família. E quando a coisa é compartilhada dessa forma é tudo mais leve, as ideias vão surgindo, uma vai complementando a outra. A gente consegue chegar nessa profundidade bacana de uma sonoridade que é nossa. Sempre foi uma coisa muito positiva e enriquecedora.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação