Diversão e Arte

Pensadores e artistas negros refletem sobre o racismo e a onda de protestos

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e consciente

Lucas Batista*, Vinícius Veloso*, Geovana Melo*
postado em 05/06/2020 07:18
Djamila Ribeiro: ''De 1975 a 2004, dos livros publicados no Brasil, 90% foram publicados por pessoas brancas''Nos últimos dias, uma série de protestos pelo mundo, liderada pelo movimento negro, colocou a pauta racial em voga. A mobilização Black Lives Matter ; vidas negras importam, em tradução livre ; impulsionou atos nos Estados Unidos e em diversos outros países após um policial branco assassinar o negro George Floyd, no estado norte-americano de Minnesota. No Brasil, o crime serviu para insuflar protestos pelas mortes dos jovens, também negros, João Pedro Mattos, 14 anos, morto após ser baleado em casa pela polícia; Ágatha Félix, 8 anos, baleada dentro de uma van escolar durante uma operação policial, ambos no Rio de Janeiro; e David Nascimento dos Santos, 23, encontrado morto após entrar em uma viatura do Batalhão de Operações Especiais, na Zona Oeste de São Paulo.

[SAIBAMAIS]A representatividade do povo negro ainda é extremamente baixa, principalmente quando se trata do mainstream, incluindo música, literatura, teatro, filosofia e artes plásticas. No entanto, esse cenário está em constante renovação, com muitas pessoas pretas que fazem pontes entre os trabalhos artísticos, a valorização da ancestralidade e o combate ao racismo. Saiba o que têm pensado algumas dessas personalidades da arte que perpetuam essa identidade com um pensamento crítico.


Nailah Neves

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e conscienteNailah Neves é cientista política, editora e criadora de a_pauta, coletivo de notícias destinados à comunidade preta; Embaixadora da Juventude do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime; pesquisadora e host no podcast Depois da Roda. Formado ainda por Tatiane Nerfetari, Verônica Gomes (Nonny), João Luiz dos Santos, Luiz Phelipe dos Santos e o editor Hector Sousa, o programa surge a partir de uma carência dos integrantes, fãs de podcast, mas que não ouviam as realidades sendo compartilhadas por pessoas pretas nesse tipo de mídia.

;Acredito que, mais do que ampliar a voz de nós que somos integrantes do podcast, o Depois da Roda proporcionou o reconhecimento e o reencontro de muitos dos nossos com vários pretos e pretas que estão produzindo conteúdo, ciência e ativismo nas mais diversas áreas. Nós proporcionamos um aquilombamento de ideias, pequeno, mas ainda nos encontramos. E o que mais gosto é que fazemos esse encontro de forma leve e, muitas vezes, debochada, porque, infelizmente, muitos pretos só se encontram em tempos de luta pela nossa vida;, conta Nailah em entrevista ao Correio.

Quanto às manifestações, a cientista política não acredita que resultará em uma sociedade menos racista, visto que houve protestos do tipo em outros momentos. ;Mas acredito que o crescimento das ações e o uso dos meios digitais para as denúncias está possibilitando uma sofisticação e um reencontro dos movimentos negros do mundo todo, para nos rearticularmos contra o racismo antinegro;, pontua.


Djamila Ribeiro

A filósofa, feminista, escritora e acadêmica Djamila Ribeiro é um dos grandes nomes na literatura brasileira contemporânea. A autora acredita que é fundamental escrever de forma didática, para entender a linguagem como uma ferramenta de transformação. Com mais de 720 mil seguidores nas redes sociais, ela busca ecoar a voz e a luta por meio dos livros.

;De 1975 a 2004, dos livros publicados no Brasil, 90% foram publicados por pessoas brancas. Quando eu pensei a coleção Feminismos Plurais, foi justamente uma maneira de refutar esse regime que nega as nossas vozes e as nossas visões de mundo. Então, é fundamental escrever, não só escrever como publicar. Eu não podia estar sozinha dentro desse espaço, eu sou uma escritora que publica outros autores, é preciso trazer essas vozes negras sempre;, conta.

Para Djamila, os protestos são fundamentais, pois mostram as pessoas indo às ruas, resistindo. Além de colocar o tema em evidência no debate público. ;É uma das maiores manifestações dos últimos tempos, que mostra um cansaço também da população em relação aos corpos negros sendo tratados de maneiras descartáveis e com desprezo. Por isso, é importante afirmar sempre que vidas negras importam, por que, do modo que são tratadas, a gente percebe que elas não foram construídas para importar;, afirma a escritora.

Winnie Bueno

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e conscienteIdealizadora do projeto Winnieteca, a doutoranda em sociologia e bacharel em direito Winnie Bueno combate a desigualdade racial, conectando pessoas e ajudando no acesso à educação e cultura, por meio de livros.

No projeto, desenvolvido em parceria com o Geledés Instituto da Mulher Negra e com o Twitter Brasil, pessoas negras podem receber livros gratuitamente em casa, graças às doações no perfil @winnieteca, no Twitter.

;A Winnieteca se constitui como uma ferramenta antirracista para proporcionar a ampliação do conhecimento e da circulação de obras que permitam a comunidade negra articular dispositivos de saberes e de resistência de forma autônoma;, explica.

De acordo com a pesquisadora, os protestos recentes pelas vidas negras não são novidade. ;Existiram outras ondas de protestos e a gente continua protestando porque as dinâmicas do racismo são complexas e múltiplas. O racismo é um sistema de dominação que exige uma articulação de resistência antirracista. Os protestos são parte fundamental rumo a um novo processo civilizatório que não seja baseado em hierarquias raciais. Mas ela a revolta não se tornou necessária. Ela sempre foi;, completa.

Nelson Inocencio

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e conscienteNelson Inocencio, professor do Departamento de Artes da Universidade de Brasília (UnB), é um dos principais pensadores negros de Brasília e sempre trilhou a carreira conduzindo a luta contra o preconceito. Envolvido com a questão artística, acredita que a arte é um espaço para debates raciais. ;É necessário que artistas sensíveis à causa negra, sejam pessoas negras ou não, se comprometam com o debate racial trazendo-o para o espaço de suas produções artísticas. A arte contemporânea também pode e deve ser um espaço de permanente discussão sobre relações raciais, assim como tem sido para outros debates relevantes.;

O professor entende que os protestos e a revolta por conta do extermínio da população negra servem como um basta para os abusos de poder praticados pelos aparatos de segurança. Sobre o Brasil, Nelson Inocencio aprofunda mais a discussão.;A violência policial tornou-se hábito em nossa sociedade, muitas vezes resultando na execução sumária de milhares de pessoas, que, por serem negras, tornam-se alvos preferenciais. Os mapas da violência no Brasil evidenciam o extermínio da população negra. Mesmo assim, grandes parcelas da sociedade brasileira permanecem mudas, omissas, insensíveis às hostilidades que atingem, sobretudo, os jovens negros. A defesa da democracia passa pelo combate ao racismo e isso diz respeito à toda sociedade;, finaliza.

Rodrigo França

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e conscienteO ator, diretor, filósofo, cientista social e articulador cultural Rodrigo França acredita que os protestos fazem parte de um processo na busca por igualdade. ;Nós estamos gritando, desde sempre, porque esse genocídio da juventude negra está em curso no Brasil também desde sempre. Cada vez mais, a população negra está organizada e gritando por garantia de direitos.

O que está valendo é que estamos comunicando pautas que há séculos são gritos de nossos ancestrais e de gerações presentes;, ressalta.

Para Rodrigo, as mobilizações nas redes sociais são importantes nas lutas dos movimentos, mas é preciso tomar cuidado com o que se viraliza. A Blackout Tuesday, campanha em que pessoas postaram fotos pretas nas redes sociais, foi criticada pelo artista. ;Não gosto do post preto porque não diz nada, é só silenciamento. Eu gosto de posts que falam, expressam tudo. Temos que tomar cuidado que existem formas de postagem que apenas silenciam nossa luta;, completa.


Ellen Oléria

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e conscienteCantora, compositora e instrumentista autodidata, a brasiliense Ellen Oléria é destaque quando o assunto é a arte musical. A luta racial, entretanto, não fica de lado. ;Um país racista onde ninguém se declara racista. Isso é o Brasil. O que acontece ao redor do mundo ecoa aqui de um jeito diferente. Para nós, a nossa preservação nos importa. E estou falando no momento exato em que percebemos que tem sido impossível calcular os males de um projeto de nação brasileira que é fundamentalmente racista. Hoje, nos revoltamos como se revoltaram os malês naquele pedaço da nossa história que nunca nos é contado simplesmente porque vencemos. Se o direito é tão violento e desigual, precisamos gritar.;

Destacando a diversidade brasileira, com influências da presença negra, que inclui o chorinho, o pagode, o axé music e a cultura de terreiro, Ellen Oléria acredita que a sociedade deve consumir mais artistas negros e negras.

;É mais do que fortalecer um ciclo de reparação. Ler uma autora negra brasileira é ter a oportunidade de expandir o seu imaginário. Afinal, nos formamos na escola lendo quase que exclusivamente homens brancos. Assistir ao cinema negro é se mover num novo espectro de possibilidades de real, é ter a oportunidade de ver histórias que vão além. Precisamos de mais que consumo e apropriação. É preciso um exercício diário de conexão com nossos mecanismos primeiros;, afirma.

Jorge Amâncio

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e conscienteO poeta Jorge Amâncio é um carioca radicado em Brasília. Ativista de movimentos sociais de luta contra o preconceito racial, o autor apoia os protestos e coloca o racismo estrutural como uma forma de violência. ;Vidas negras importam, principalmente em um país em que a maioria das vítimas de homicídios são negras. Os protestos existem desde sempre, pois há muito tempo a população negra é dizimada pelas forças de segurança. Protestar é um grito de basta, um clamor de igualdade e se torna necessário para que a sociedade racista sinta a nossa indignação e saiba da força que a unidade pode chegar.;

;Uma sociedade democrática elege os governantes como soberanos condutores da ordem social e os governantes mantêm o apartheid social, alimentam políticas racistas e a consciência atual da sociedade por medo, por dependência... A consciência social mudará apenas pelo voto, pela consciência de voto. Pois o racismo é uma ideologia;, exclama.

*Estagiários sob a supervisão de Igor Silveira

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