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Correio Braziliense

Pensadores e artistas negros refletem sobre o racismo e a onda de protestos

O Correio ouviu personalidades que perpetuam a identidade negra com um pensamento crítico e consciente


postado em 05/06/2020 07:18 / atualizado em 05/06/2020 10:44

Djamila Ribeiro: ''De 1975 a 2004, dos livros publicados no Brasil, 90% foram publicados por pessoas brancas''(foto: AFP / Mauro PIMENTEL)
Djamila Ribeiro: ''De 1975 a 2004, dos livros publicados no Brasil, 90% foram publicados por pessoas brancas'' (foto: AFP / Mauro PIMENTEL)
Nos últimos dias, uma série de protestos pelo mundo, liderada pelo movimento negro, colocou a pauta racial em voga. A mobilização Black Lives Matter — vidas negras importam, em tradução livre — impulsionou atos nos Estados Unidos e em diversos outros países após um policial branco assassinar o negro George Floyd, no estado norte-americano de Minnesota. No Brasil, o crime serviu para insuflar protestos pelas mortes dos jovens, também negros, João Pedro Mattos, 14 anos, morto após ser baleado em casa pela polícia; Ágatha Félix, 8 anos, baleada dentro de uma van escolar durante uma operação policial, ambos no Rio de Janeiro; e David Nascimento dos Santos, 23, encontrado morto após entrar em uma viatura do Batalhão de Operações Especiais, na Zona Oeste de São Paulo.

A representatividade do povo negro ainda é extremamente baixa, principalmente quando se trata do mainstream, incluindo música, literatura, teatro, filosofia e artes plásticas. No entanto, esse cenário está em constante renovação, com muitas pessoas pretas que fazem pontes entre os trabalhos artísticos, a valorização da ancestralidade e o combate ao racismo. Saiba o que têm pensado algumas dessas personalidades da arte que perpetuam essa identidade com um pensamento crítico.


Nailah Neves 

(foto: Luiz Phelipe Santos/Divulgação)
(foto: Luiz Phelipe Santos/Divulgação)
Nailah Neves é cientista política, editora e criadora de a_pauta, coletivo de notícias destinados à comunidade preta; Embaixadora da Juventude do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime; pesquisadora e host no podcast Depois da Roda. Formado ainda por Tatiane Nerfetari, Verônica Gomes (Nonny), João Luiz dos Santos, Luiz Phelipe dos Santos e o editor Hector Sousa, o programa surge a partir de uma carência dos integrantes, fãs de podcast, mas que não ouviam as realidades sendo compartilhadas por pessoas pretas nesse tipo de mídia.

“Acredito que, mais do que ampliar a voz de nós que somos integrantes do podcast, o Depois da Roda proporcionou o reconhecimento e o reencontro de muitos dos nossos com vários pretos e pretas que estão produzindo conteúdo, ciência e ativismo nas mais diversas áreas. Nós proporcionamos um aquilombamento de ideias, pequeno, mas ainda nos encontramos. E o que mais gosto é que fazemos esse encontro de forma leve e, muitas vezes, debochada, porque, infelizmente, muitos pretos só se encontram em tempos de luta pela nossa vida”, conta Nailah em entrevista ao Correio.

Quanto às manifestações, a cientista política não acredita que resultará em uma sociedade menos racista, visto que houve protestos do tipo em outros momentos. “Mas acredito que o crescimento das ações e o uso dos meios digitais para as denúncias está possibilitando uma sofisticação e um reencontro dos movimentos negros do mundo todo, para nos rearticularmos contra o racismo antinegro”, pontua.


Djamila Ribeiro 

A filósofa, feminista, escritora e acadêmica Djamila Ribeiro é um dos grandes nomes na literatura brasileira contemporânea. A autora acredita que é fundamental escrever de forma didática, para entender a linguagem como uma ferramenta de transformação. Com mais de 720 mil seguidores nas redes sociais, ela busca ecoar a voz e a luta por meio dos livros.

“De 1975 a 2004, dos livros publicados no Brasil, 90% foram publicados por pessoas brancas. Quando eu pensei a coleção Feminismos Plurais, foi justamente uma maneira de refutar esse regime que nega as nossas vozes e as nossas visões de mundo. Então, é fundamental escrever, não só escrever como publicar. Eu não podia estar sozinha dentro desse espaço, eu sou uma escritora que publica outros autores, é preciso trazer essas vozes negras sempre”, conta.

Para Djamila, os protestos são fundamentais, pois mostram as pessoas indo às ruas, resistindo. Além de colocar o tema em evidência no debate público. “É uma das maiores manifestações dos últimos tempos, que mostra um cansaço também da população em relação aos corpos negros sendo tratados de maneiras descartáveis e com desprezo. Por isso, é importante afirmar sempre que vidas negras importam, por que, do modo que são tratadas, a gente percebe que elas não foram construídas para importar”, afirma a escritora.

Winnie Bueno  

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Idealizadora do projeto Winnieteca, a doutoranda em sociologia e bacharel em direito Winnie Bueno combate a desigualdade racial, conectando pessoas e ajudando no acesso à educação e cultura, por meio de livros. 

No projeto, desenvolvido em parceria com o Geledés Instituto da Mulher Negra e com o Twitter Brasil, pessoas negras podem receber livros gratuitamente em casa, graças às doações no perfil @winnieteca, no Twitter.

“A Winnieteca se constitui como uma ferramenta antirracista para proporcionar a ampliação do conhecimento e da circulação de obras que permitam a comunidade negra articular dispositivos de saberes e de resistência de forma autônoma”, explica.

De acordo com a pesquisadora, os protestos recentes pelas vidas negras não são novidade. “Existiram outras ondas de protestos e a gente continua protestando porque as dinâmicas do racismo são complexas e múltiplas. O racismo é um sistema de dominação que exige uma articulação de resistência antirracista. Os protestos são parte fundamental rumo a um novo processo civilizatório que não seja baseado em hierarquias raciais. Mas ela a revolta não se tornou necessária. Ela sempre foi”, completa.

Nelson Inocencio

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Nelson Inocencio, professor do Departamento de Artes da Universidade de Brasília (UnB), é um dos principais pensadores negros de Brasília e sempre trilhou a carreira conduzindo a luta contra o preconceito. Envolvido com a questão artística, acredita que a arte é um espaço para debates raciais. “É necessário que artistas sensíveis à causa negra, sejam pessoas negras ou não, se comprometam com o debate racial trazendo-o para o espaço de suas produções artísticas. A arte contemporânea também pode e deve ser um espaço de permanente discussão sobre relações raciais, assim como tem sido para outros debates relevantes.”

O professor entende que os protestos e a revolta por conta do extermínio da população negra servem como um basta para os abusos de poder praticados pelos aparatos de segurança. Sobre o Brasil, Nelson Inocencio aprofunda mais a discussão.“A violência policial tornou-se hábito em nossa sociedade, muitas vezes resultando na execução sumária de milhares de pessoas, que, por serem negras, tornam-se alvos preferenciais. Os mapas da violência no Brasil evidenciam o extermínio da população negra. Mesmo assim, grandes parcelas da sociedade brasileira permanecem mudas, omissas, insensíveis às hostilidades que atingem, sobretudo, os jovens negros. A defesa da democracia passa pelo combate ao racismo e isso diz respeito à toda sociedade”, finaliza.

Rodrigo França 

(foto: Adalberto Neto/Divulgação)
(foto: Adalberto Neto/Divulgação)
O ator, diretor, filósofo, cientista social e articulador cultural Rodrigo França acredita que os protestos fazem parte de um processo na busca por igualdade. “Nós estamos gritando, desde sempre, porque esse genocídio da juventude negra está em curso no Brasil também desde sempre. Cada vez mais, a população negra está organizada e gritando por garantia de direitos. 

O que está valendo é que estamos comunicando pautas que há séculos são gritos de nossos ancestrais e de gerações presentes”, ressalta.

Para Rodrigo, as mobilizações nas redes sociais são importantes nas lutas dos movimentos, mas é preciso tomar cuidado com o que se viraliza. A Blackout Tuesday, campanha em que pessoas postaram fotos pretas nas redes sociais, foi criticada pelo artista. “Não gosto do post preto porque não diz nada, é só silenciamento. Eu gosto de posts que falam, expressam tudo. Temos que tomar cuidado que existem formas de postagem que apenas silenciam nossa luta”, completa.


Ellen Oléria

(foto: Melanina/Divulgação)
(foto: Melanina/Divulgação)
Cantora, compositora e instrumentista autodidata, a brasiliense Ellen Oléria é destaque quando o assunto é a arte musical. A luta racial, entretanto, não fica de lado. “Um país racista onde ninguém se declara racista. Isso é o Brasil. O que acontece ao redor do mundo ecoa aqui de um jeito diferente. Para nós, a nossa preservação nos importa. E estou falando no momento exato em que percebemos que tem sido impossível calcular os males de um projeto de nação brasileira que é fundamentalmente racista. Hoje, nos revoltamos como se revoltaram os malês naquele pedaço da nossa história que nunca nos é contado simplesmente porque vencemos. Se o direito é tão violento e desigual, precisamos gritar.”

Destacando a diversidade brasileira, com influências da presença negra, que inclui o chorinho, o pagode, o axé music e a cultura de terreiro, Ellen Oléria acredita que a sociedade deve consumir mais artistas negros e negras.

“É mais do que fortalecer um ciclo de reparação. Ler uma autora negra brasileira é ter a oportunidade de expandir o seu imaginário. Afinal, nos formamos na escola lendo quase que exclusivamente homens brancos. Assistir ao cinema negro é se mover num novo espectro de possibilidades de real, é ter a oportunidade de ver histórias que vão além. Precisamos de mais que consumo e apropriação. É preciso um exercício diário de conexão com nossos mecanismos primeiros”, afirma.

Jorge Amâncio

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
O poeta Jorge Amâncio é um carioca radicado em Brasília. Ativista de movimentos sociais de luta contra o preconceito racial, o autor apoia os protestos e coloca o racismo estrutural como uma forma de violência. “Vidas negras importam, principalmente em um país em que a maioria das vítimas de homicídios são negras. Os protestos existem desde sempre, pois há muito tempo a população negra é dizimada pelas forças de segurança. Protestar é um grito de basta, um clamor de igualdade e se torna necessário para que a sociedade racista sinta a nossa indignação e saiba da força que a unidade pode chegar.”

“Uma sociedade democrática elege os governantes como soberanos condutores da ordem social e os governantes mantêm o apartheid social, alimentam políticas racistas e a consciência atual da sociedade por medo, por dependência... A consciência social mudará apenas pelo voto, pela consciência de voto. Pois o racismo é uma ideologia”, exclama.

*Estagiários sob a supervisão de Igor Silveira

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