Capital federal, mais quente hoje do que ontem

Em 54 anos, a temperatura mínima da capital federal cresceu significativamente por conta do desmatamento e do crescimento urbano desordeiro

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 21/04/2014 07:00 / atualizado em 22/04/2014 12:15

Ed Alves/CB/D.A Press

 

Brasília é mais quente agora, aos 54 anos, do que nos primeiros anos de vida. A afirmação não é apenas fruto de observação do clima ou do comportamento das pessoas, que reclamam mais de calor na capital federal. O aumento da temperatura é justificado por especialistas pelo fenômeno conhecido como “ilhas de calor” - centros urbanos mais quentes do que o entorno.



Ao analisar causas e efeitos dessas “ilhas de calor” na capital federal, não há como não mencionar o surgimento das Regiões Administrativas do Distrito Federal e de um crescimento urbano desordenado nessas localidades. Em julho do ano passado, o professor Gustavo M. Baptista, da Universidade de Brasília (UnB), verificou que as áreas mais quentes do DF estão localizadas em áreas de maior urbanização (Veja o mapa).

Divulgação


“O que temos no DF é um processo de urbanização que resultou em inúmeros núcleos urbanos sem infraestrutura e sem arborização suficiente. Isso gera o fenômeno das ilhas de calor e resulta em temperaturas mais altas nas áreas urbanas. Por isso que as ilhas de calor são nossa maior preocupação em termos de impactos ambientais decorrentes de ocupação desordenada do solo".

De acordo com o mapa, há regiões do Plano Piloto, Lagos Sul e Norte que registraram temperatura de superfície - é mais alta que a temperatura do ar - entre 30 °C e 33 °C. As demais áreas do DF registraram entre 34 °C e 37,5 °C. Segundo Baptista, os dados evidenciam o aquecimento na capital federal, não por um processo global, mas pela retirada de cobertura vegetal e concentração populacional. "As áreas agrícolas do PAD-DF (Bacia do Rio Preto, porção leste do DF) também apresentam elevação de temperatura e não temos cidades, mas supressão de vegetação nativa e muito solo exposto, que emite muito calor", justifica o especialista.

Sobre o aumento térmico na capital federal, a meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Morgana Almeida verificou uma alteração na temperatura mínima entre 1963 e 2011. A análise é resultado do estudo feito pela especialista na dissertação de mestrado “Índices de monitoramento e detecção de mudanças climáticas na região Centro-Oeste do Brasil”, publicada em 2012. De acordo com Morgana, dentro do período analisado, houve uma alteração no padrão térmico, resultante de um crescimento da temperatura mínima. Os índices pluviométricos, contudo, não apresentaram alterações significativas.

A análise teve como referência espacial a estação meteorológica do Inmet, no Sudoeste. Morgana explica que o resultado obtido na pesquisa pode ser justificado pelo processo de urbanização ocorrido na região nos últimos 20 anos: “construções e uso do solo provocaram uma mudança na paisagem e a vegetação local e influenciaram nos padrões térmicos.” Assim, a temperatura mínima média de cada estação do ano sofreu um aumento significativo.

Estação do ano          Aumento na temperatura

   Verão                               1, 95 °C

 Outono                             1,8 °C

   Inverno                              2,05 ºC

   Primavera                           1,85 °C


Apesar de todas as mudanças apresentadas, não é possível afirmar que Brasília ou o DF como um todo sofreram uma mudança climática. Isso porque a definição de clima é obtida a partir das Normais Climatológicas - média de dados obtidos a cada 30 anos, no mínimo. A normal climatológica que define os climas brasileiros atualmente foi feita entre 1961 e 1990.

Paisagem nativa e urbana

Não apenas o clima, mas a paisagem urbana de Brasília também é influenciada e refletida pela construção de outras RAs que compõem o Distrito Federal - além do Entorno. Analisar a composição urbana rural da capital federal exige, para muitos especialistas, o entendimento de como o crescimento desordenado ao longo do tempo refletiu em problemas como transporte e infraestrutura, por exemplo, enfrentados pelos brasilienses.

Para o professor emérito da UnB e geógrafo da Codeplan, Aldo Paviani, já na época da construção, Brasília recebeu um número de imigrantes não previsto, o que resultou no surgimento de cidades ao redor da nova metrópole. De acordo com o professor, esse processo foi decisivo para transformar a capital federal no que ela é hoje. “A partir da criação de núcleos periféricos ao Plano Piloto, Brasília passou a ser outra cidade – elitizada no centro e de costas para os que foram, aos poucos, sendo transferidos para lugares apenas projetados, como foi o caso das primeiras satélites como Gama, Sobradinho, e os anexos implantados em núcleos preexistentes – Planaltina e Brazlândia.”

O desafio para Brasília hoje, segundo Paviani, é ser capaz de atender às necessidades da população das RAs e do Entorno do DF e encontrar soluções para problemas como desigualdade social, desmatamento, saturamento de lixões, como o da Estrutural - que deve ser desativado ainda este ano.

Sobre o desmatamento, o engenheiro florestal e professor da UnB José Imana aponta que a retirada de árvores prejudicou a vegetação nativa de Brasília, que conta hoje apenas com "o Parque Nacional de Brasília, a Reserva de Águas Emendadas e a APA Gama Cabeça-de-Veado, e que provavelmente juntas representam menos do que 10% da superfície total do Distrito Federal".

De acordo com o Iamana, apesar da vegetação predominante ainda ser o Cerrado, o desmatamento alterou quase que por completo a paisagem natural do DF. Durante o acompanhamento de um estudo da Unesco, o engenheiro florestal observou que, em 45 anos, a vegetação nativa foi substituída por construções ou pelo aumento da produção agrícola. "Entre 1954 e 1998, as matas ciliares do DF foram reduzidas em 53%. A área do Cerrado teve uma perda de 74% de sua superfície original e a área do campo também sofreu uma perda de 48%. Em contra posição, a área agrícola pulou de 93 para 269 mil hectares, e a área urbana cresceu de 121 para 38.200 hectares."

Colaborou Marcela Luiza.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.
 
marcio
marcio - 22 de Abril às 22:04
Assustadoras, as mudanças! Percebe-se na pele, no dia a dia. Cabe aos órgãos competentes impedir a deterioração ainda maior.