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Correio Braziliense

Reitora da UnB comemora ranking mundial e pede reconhecimento do MEC

Na avaliação de Márcia Abrahão, as universidades federais têm mostrado que estão no caminho certo e precisam ser mais valorizadas. Em entrevista, ela comenta ainda assuntos como autonomia universitária e verba para pesquisa


postado em 16/09/2019 20:19 / atualizado em 16/09/2019 21:08

Em entrevista exclusiva ao Correio, a reitora da Universidade de Brasília (UnB), Márcia Abrahão, reflete sobre os avanços e os desafios da instituição à luz dos resultados na última edição do ranking Times Higher Education (THE), divulgada na última semana, em que a UnB foi considerada a oitava melhor universidade do país. De acordo com a organização do THE, o ensino superior está se tornando um campo cada vez mais competitivo globalmente.

"Se há uma universidade no Brasil que está no caminho certo é a universidade pública e a universidade federal", defende Márcia Abrahão (foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)
Portanto, até mesmo para se manter na mesma posição em que estava no ano anterior, uma universidade precisa estar constantemente evoluindo. Caso da UnB, que permaneceu em oitavo lugar na última e na mais atual edição do ranking, tendo apresentando avanço em quatro dos cinco critérios utilizados pelo estudo: ensino, pesquisa, citações e reconhecimento internacional. O único indicador em que o desempenho da Universidade de Brasília piorou foi o chamado de “renda com a indústria”. A reitora da UnB, Márcia Abrahão, pondera que, apesar do nome, esse quesito está relacionado à verba para pesquisa. Assim, a crise e a redução do orçamento podem ter impactado negativamente essa questão.

A nota final da UnB no ranking ficou na faixa entre 22,2 e 28,2 pontos, maior que a do ano passado (na faixa entre 19 e 25,9 pontos). A partir do bom desempenho, a dirigente espera mais reconhecimento e espaço para diálogo com o Ministério da Educação (MEC). Márcia comenta ainda o cenário das federais no país, preocupada com a ameaça à autonomia universitária, e faz comparativos com o setor particular.

O resultado da UnB no THE é motivo para comemorar?
Avançamos significativamente no score geral. É um motivo grande para comemorar e demonstra o que nós sabemos e vivenciamos: que é uma universidade de excelência. Um indicador muito bom em que crescemos foi o de citações. A UnB saiu de 25,8 pontos para 36,8 pontos. A cada vez que um artigo nosso é citado numa base de dados com credibilidade internacional, temos uma citação. E é muito difícil, primeiro, a gente publicar em língua estrangeira por causa da nossa barreira linguística. Somos brasileiros e temos que publicar em inglês principalmente, mas também em francês e espanhol, e publicar nas principais revistas. Esse indicador mostra que temos conseguido fazer isso e que, além do mais, nossas publicações estão sendo referenciadas, estão sendo consideradas por pesquisadores do mundo todo. Isso demonstra a credibilidade internacional de nossas pesquisas.
 

O que faltou para a UnB avançar no indicador renda com a indústria?
A UnB tem dificuldade de mensurar esse último indicador porque nossos principais parceiros são do governo. Temos muitos projetos com o governo. O governo é nosso principal parceiro de pesquisa e projetos. E esse ranking, apesar de ter, no nome o ano de 2020, coletou dados de 2017 e de parte de 2018, que foi quando o governo começou a reduzir o investimento. E isso impacta diretamente os recursos que o governo destina para projetos de pesquisa com a universidade também. Então, essa é a avaliação que fazemos. Apesar de esse indicador falar de renda com a indústria, inclui outras rendas obtidas para pesquisa; então, é a interação com o setor produtivo. Nós também tínhamos muitos projetos com a Petrobras, que reduziu muito o financiamento de projetos na área de petróleo. Agora que está retomando. Então, isso impactou também.

A UnB foi considerada a 8ª melhor universidade do país pelo ranking internacional Times Higher Education(foto: Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press)
A UnB foi considerada a 8ª melhor universidade do país pelo ranking internacional Times Higher Education (foto: Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press)
A senhora avalia que a UnB precisa aumentar as parcerias com setor particular?
Em 2018, nós fizemos projetos no valor de R$ 78,5 milhões. Só com a Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), foram 174 projetos. Mesmo em crise, a UnB continua, por causa da sua credibilidade, atraindo parceiros públicos e privados. Sempre temos espaço para aumentar, mas nós temos um número significativo de parcerias. Somos uma universidade que interage fortemente com o setor produtivo. Só que, pelo fato de estarmos aqui na capital e Brasília ter poucas indústrias de grande porte (diferentemente das universidades do Sudeste, que tem uma relação com a indústria privada muito forte), a nossa maior interação é com o governo. Nossa interação é muito essa. Então, quando o governo diminui o aporte, isso impacta nossa renda com pesquisa e nossa “renda com indústria” também.

Qual o escopo dessas parcerias com o governo?
Nós temos projetos com quase todos os ministérios, com o Legislativo, com o Judiciário, demandados por esses agentes até porque temos muitos ex-alunos que estão nesses locais. Inclusive, temos um projeto de machine learning com o Supremo (Tribunal Federal), em que estamos compilando todas as decisões feitas desde o início do STF para identificar as principais linhas de julgamento e, assim, orientar novas decisões. Foi uma demanda do Supremo. Também damos curso para vários órgãos nacionais, como Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Exército; e do GDF.


O fato de a UnB ter tido boa classificação no Times Higher Education pode facilita liberação de verbas e até evitar cortes por parte do MEC?
Os resultados por si só mostram que, ao contrário do que tem sido falado por algumas pessoas do governo e algumas da sociedade, nós somo uma universidade de excelência. Nós somos, sim, uma universidade em que se debate, em que se faz discussão clara e transparente de todos os temas, com opiniões divergentes. Nós somos esse lugar. Mas, acima de tudo, nós continuamos formando bem na graduação e na pós-graduação, continuamos fazendo pesquisa de excelência, continuamos tendo interação com o setor produtivo. Então, sim, vamos continuar usando isso para discussões com o MEC.

Como a senhora avalia o desempenho brasileiro no ranking?
O interessante de destacar no THE é que as universidades públicas se destacam, sendo a maioria das brasileiras no ranking. São raríssimas as privadas. E, pegando as 1.300 melhores universidades do mundo tudo, há um número muito expressivo de universidades brasileiras bem avaliadas. Aí vem o questionamento e a reclamação, por exemplo, do ministro da Educação: por que não estamos no topo? Não estamos no topo primeiro porque, no Brasil, sempre tem uma oscilação no financiamento. Existem várias pesquisas que mostram que a posição nos rankings está diretamente relacionada com o financiamento. Ao falar que as universidades são caras, o governo acaba usando dados de orçamento que incluem aposentados e pensionistas. E não dá para pegar isso, dividir pelo número de alunos e dizer que a nossa universidade é cara… O custo da universidade é que tem que ser levado em conta. De acordo com o TCU (Tribunal de Contas da União), cada aluno da UnB custa R$ 16 mil por ano — e isso mesmo considerando aposentados e pensionistas na nossa folha. Nas universidades que estão no topo, o custo do aluno é de US$ 80 mil anuais.

As universidades que estão no topo são norte-americanas, onde dominam as universidades particulares...
Mesmo no sistema de ensino americano, com preponderância do sistema particular, as universidades mais bem avaliadas têm boa parte do financiamento público. Essa é uma outra coisa importante. O financiamento privado, na maior parte dos outros lugares do mundo, não vem para pagar água e luz: ele vem para complementar. A pesquisa é que é cara, com equipamentos que custam milhões de dólares. Então, para você estar no topo, tem que ter os principais equipamentos das áreas de laboratório e tem que ter financiamento permanente da pesquisa.

Em algumas universidades, o presidente da República, Jair Bolsonaro, não nomeou como reitor o candidato mais votado pela comunidade acadêmica. Como a senhora avalia isso?
Isso causa desarmonia na universidade. Isso não contribui para a melhoria da educação do Brasil. Nós estamos mostrando que somos eficientes e competentes. Nós precisamos, sim, aprimorar o modelo, temos coisas para avançar, como poder utilizar arrecadação própria, permitir trazer pesquisador do exterior com mais facilidade, comprar equipamentos de laboratório com mais facilidade, remunerar as nossas patentes com mais facilidade, de uma forma menos burocrática. Disso nós precisamos. Mas não precisamos mexer com o que está dando certo, como é o caso da eleição e da nomeação dos reitores que estavam dando certo. Tanto é que estamos subindo nos rankings internacionais.

Na aula inaugural do segundo semestre, 14 de agosto, a reitora pediu união à comunidade da UnB (foto: Ed Alves/CB/D.A. Press)
Na aula inaugural do segundo semestre, 14 de agosto, a reitora pediu união à comunidade da UnB (foto: Ed Alves/CB/D.A. Press)
O risco de ser reeleita e não assumir a assusta?
Eu não estou pensando em reeleição neste momento. Eu ainda tenho um ano e três meses de mandato. Eu tenho que matar um leão por dia. A nossa situação é muito grave. Então, não estou pensando em reeleição neste momento. O que eu tenho pedido para a comunidade neste momento é união interna. E estou vendo muita união e muita solidariedade aqui dentro da comunidade da UnB.

Como tem sido o seu contato com o MEC?
Eu tive contato com área técnica do MEC, de terceiro, quarto escalão, que nos recebe bem. Não tive contato mais com os outros níveis. Mas estamos à disposição e esperamos que o Ministério da Educação entenda a importância das universidades federais para o país e se abra para a discussão de propostas bem fundamentadas.

O MEC não entende a importância das universidades federais?
Não sei se o MEC não entende ou não concorda. Todas as observações feitas em relação às universidades federais são no sentido de que nós trabalhamos pouco — inclusive confundindo o que diz a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), de que o professor universitário precisa dar no mínimo oito horas de aula por semana. Mas é porque o professor universitário não dá só aula. Ele faz pesquisa, faz extensão, faz administração. Então, ele trabalha muito mais do que 40 horas semanais. Inclusive, ele precisa estar sempre publicando (artigos científicos), se não, não avança na carreira. O próprio THE olha a internacionalização, a citação, a relação com a indústria e o ensino. Não olha só o ensino. O ensino é um dos fatores. Acho que o olhar do MEC não corresponde ao que fazemos numa universidade do Brasil e de qualquer lugar do mundo. Em todo lugar do mundo é assim: o professor dá aula e também faz pesquisa.

Há faculdades particulares em que professores só lecionam, sem dedicação à pesquisa...
Então, até os próprios resultados mostram que, se há uma universidade no Brasil que está no caminho certo é a universidade pública e a universidade federal. E é uma pena que as particulares não estejam tão bem, porque o Brasil precisa que todas as universidades estejam bem. E não estão bem justamente por isso: como os professores são contratados fundamentalmente para dar aula, os resultados de pesquisa já são bem inferiores em relação ao das universidades públicas.

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