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Estudantes de faculdades particulares cobram redução da mensalidade

De acordo com os alunos, as aulas virtuais perdem em qualidade para as presenciais e, portanto, manter o valor é "injusto"

Isadora Martins*
postado em 27/03/2020 19:16
A substituição das aulas presenciais por atividades on-line nas instituições de ensino superior gerou polêmica. De um lado, há alunos que se adaptaram bem ao novo modelo e garantem que é a melhor opção diante do cenário atual. De outro, estudantes enfrentam problemas para migrar para o ensino remoto e não estão satisfeitos com as aulas virtuais. Nesse contexto, grupos de alunos de diferentes universidades e faculdades particulares do Distrito Federal cobram a redução das mensalidades enquanto as atividades presenciais estiverem suspensas.
De acordo com os alunos, as aulas virtuais perdem em qualidade para as presenciais e, portanto, manter o valor é
Além do argumento de que as aulas virtuais perdem em qualidade para as presenciais, os estudantes levantam outra problemática: muitos estão enfrentando dificuldades financeiras diante da crise econômica provocada pelo avanço do coronavírus, o que dificulta o pagamento das mensalidades.

Na opinião da estudante de psicologia do Centro Universitário UDF Denise Garcia, 35, a instituição deveria flexibilizar a forma de pagamento durante o período de quarentena. ;A maioria dos alunos da UDF é de classe média ou média baixa e não tem tanta facilidade para arrecadar dinheiro, principalmente no período de recessão;, justifica.

Uma possibilidade, segundo a estudante, que também é advogada trabalhista, seria não incidir juros nem correção monetária no caso do atraso de parcelas. Outra opção é reduzir um terço do valor da mensalidade, já que, no momento, as aulas estão ocorrendo virtualmente.

Ela sugere também que, caso um estudante bolsista precise trancar a faculdade neste período, não perca o desconto no semestre seguinte. ;Não que a gente queira que o curso seja comparado a um EAD (ensino a distância), mas que seja tratado de forma mais econômica, um pouco mais em conta, já que nada está sendo feito presencialmente;, afirma.

"Estamos desprotegidos"

;Tendo em vista que a UDF não está gastando com transporte de professores e pôde reduzir o salário em uma terça parte (foi viabilizado via decreto que reduzissem os salários dos funcionários), ela também deve levar em conta as pessoas que contribuem para o crescimento da faculdade, que são seus clientes e estudantes;, completa.

Ainda segundo a advogada, da forma como a situação está sendo levada pela instituição, os alunos ficam desprotegidos. ;Está muito difícil bancar o estudo. Se a pessoa tiver que escolher entre educação e alimentação, ela vai escolher a segunda opção. Infelizmente, essa é a realidade, ainda mais se tratando de um curso superior.;
[SAIBAMAIS]

Em nota, a UDF afirmou que, em atendimento aos decretos do GDF e às portarias portarias n; 343 e 345 do Ministério da Educação (MEC), substituiu as atividades presenciais por aulas em meios digitais e, para isso, conta com ;uma das melhores plataformas digitais no mundo;, conhecida como Ambiente Virtual de Aprendizagem.

De acordo com a instituição, ;as aulas estão sendo realizadas de forma síncrona, com o mesmo corpo docente das respectivas disciplinas, que possibilitam interação em tempo real entre professor e aluno, e também de forma assíncrona, no qual o conteúdo fica disponível na plataforma;. Por isso, ;com a continuidade da disponibilização da infraestrutura do UDF (seus professores e canais) e de seus serviços (aulas, conteúdos, horários), as mensalidades estão mantidas;.

"A instituição está fazendo o máximo, mas é um momento complicado"

No Centro Universitário Iesb, os alunos também se mobilizaram para cobrar a redução da mensalidade. O estudante de publicidade Kevin Cavalli, 20, conta que, quando o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, prorrogou a suspensão das aulas por mais 15 dias além do previsto, os estudantes perceberam que a situação era mais grave do que parecia.

;Foi aí que a faculdade decidiu se posicionar e colocar as matérias com aulas remotas;, lembra. ;Nós percebemos que ficaríamos em casa por muito tempo sem as aulas presenciais e entendemos que o valor da mensalidade seria muito injusto para matérias a distância e videoaulas;, acrescenta.

Ainda segundo o estudante, as aulas remotas trouxeram alguns problemas, porque nem todos os alunos e professores estão conseguindo se adequar ao modelo.

Na quinta-feira (26), a reitoria do centro universitário emitiu um comunicado anunciando as medidas que serão tomadas para terminar o semestre letivo ;com o menor impacto possível para o aprendizado dos estudantes e com tranquilidade para as pessoas que trabalham pelo Iesb;.

Entre as providências está a ;concessão de descontos de 10% a 90% nas mensalidades de abril, maio e junho de 2020 para quem teve a renda reduzida ou completamente impactada pelas medidas de distanciamento social (mediante solicitação e comprovação); e empréstimos de computadores.

Na opinião de Kevin, as medidas mostram que o centro universitário está se empenhando para auxiliar os estudantes. ;Estão colocando computadores à disposição (...), a equipe de TI (tecnologia de informação) também está ajudando bastante na questão técnica, os professores estão conversando com a gente o tempo inteiro;;

No entanto, de acordo com ele, a forma de conceder descontos não foi a mais justa. ;É muito seletivo o processo de requerimento de desconto. Você tem que enviar várias informações sobre seus últimos meses de extratos e carteira de trabalho, sendo que o surto começou agora e a gente precisa do desconto neste momento;, diz.

;O mais justo seria adotar uma redução geral na mensalidade, justamente pelo fato de a gente não estar tendo a estrutura que a faculdade fornece;, acrescenta. ;Não era bem o que a gente esperava, mas também não dá para esperar muito, principalmente no momento complicado que estamos vivendo;, pondera.

Estudantes fazem petições na internet

Em um abaixo-assinado on-line, que teve quase duas mil assinaturas, alunos da Universidade Paulista (Unip) pedem que ;sejam disponibilizados materiais EAD para todos os cursos, nas plataformas dos alunos que cursam presencialmente, e que a mensalidade referente ao período turbulento seja reduzida ao valor da mensalidade de cursos a distância;. A justificativa é que eles não poderão usufruir de aulas presenciais ;devido à situação de quarentena em que o país se encontra;.

;Se existem dois tipos de pagamento, um para EAD e outro presencial (mais caro), deve ser cobrada a mensalidade em relação ao que estamos vivendo. E, querendo ou não, estamos tendo um ensino a distância nesse tempo;, opina o estudante de ciências contábeis da Unip, Daniel Valadão, 21.

Procurada pelo Correio, a instituição afirmou que ;não há nada decidido sobre este assunto (redução das mensalidades) no momento;, mas que ;continua trabalhando intensamente para garantir o aprendizado e preservar o tempo de finalização de cada curso;.

Semesp considera movimento ;irresponsável;

Para o Semesp, entidade mantenedora de estabelecimentos de ensino superior, o movimento que pede redução das mensalidades é ;irresponsável;. De acordo com a entidade, o argumento de que há redução de gastos das faculdades e universidades é equivocado. Além disso, a proposta de diminuição do valor ;ameaça a manutenção de empregos de milhares de professores e colaboradores;.
*Estagiária sob supervisão de Ana Sá

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