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Correio Braziliense

Jovens bem-sucedidos projetam "novo normal" pós-pandemia de covid-19

Confira dicas para se capacitar para o mercado de trabalho enquanto jovem e conheça a trajetória de pessoas que se destacaram na carreira antes dos 30 anos. Saiba, também, como elas estão lidando com o isolamento social e como imaginam que será o mundo pós-pandemia


postado em 31/05/2020 15:40 / atualizado em 31/05/2020 21:27

Apandemia impactou a vida de todos de diferentes maneiras. Para os jovens, os efeitos da crise foram avassaladores. De acordo com o quarto relatório Monitor covid-19 e o mundo do trabalho, elaborado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), uma a cada seis pessoas de 15 a 24 anos deixou de trabalhar desde o início da pandemia. Os que não perderam o emprego, segundo o levantamento, tiveram as horas de trabalho reduzidas em 23%.
 
Conheça a trajetória de profissionais que se tornaram referências em suas respectivas áreas de atuação e saiba como eles estão encarando a pandemia, bem como o que esperam daqui para frente. São perfis para se inspirar e se motivar
Conheça a trajetória de profissionais que se tornaram referências em suas respectivas áreas de atuação e saiba como eles estão encarando a pandemia, bem como o que esperam daqui para frente. São perfis para se inspirar e se motivar
 
Em entrevista coletiva na última quarta-feira (27), na Suíça, o diretor-geral da OIT, Guy Ryder, afirmou que “a crise econômica da covid-19 está afetando a população jovem — especialmente as mulheres — com mais força e rapidez do que qualquer outro grupo”. Ainda de acordo com Ryeder, “se não tomarmos medidas imediatas e significativas para melhorar essa situação, o legado do vírus poderá nos acompanhar durante décadas”.

O continente americano aparece na pesquisa como o mais vulnerável à crise, visto que é o novo epicentro da doença. No Brasil, onde há 12,8 milhões de desempregados, a taxa de desocupação no trimestre encerrado em abril, foi de 12,6%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tratam-se de números em alta, que devem piorar com a crise causada pela doença.

(foto: Diana Raeder/Esp.CB/D.A Press )
(foto: Diana Raeder/Esp.CB/D.A Press )
Historicamente, os jovens, especialmente os que estão em busca do primeiro trabalho, engrossam as estatísticas de desemprego. No entanto, há pessoas em plena mocidade que alcançaram posições de destaque, apesar da pouca idade. Jovens brasileiros que se tornaram referências em suas áreas de atuação podem ser inspiração tanto de crescimento na carreira quanto em relação à forma de lidar com a crise.

Para alguns, a quarentena tem sido momento de introspecção e reflexão. Para outros, surgiu como oportunidade para se dedicar mais à família e a projetos pessoais. Há ainda aqueles que criaram iniciativas para ajudar as pessoas mais afetadas pelo coronavírus. A fim de ajudar os leitores possam se orientar e se motivar, o Trabalho & Formação Profissional entrevistou pessoas que construíram grande reputação ainda no início da vida. Confira e inspire-se! 

Na mira dos recrutadores

Apesar do cenário desafiador que se apresenta à parcela jovem da população, especialistas avaliam que, nos últimos anos, a visão das empresas sobre essa faixa etária mudou. As organizações estão de olho nas qualidades que a geração Z tem a oferecer, como domínio das novas tecnologias, criatividade e proatividade. De acordo com a gerente de serviço e qualidade da rede de talentos Adecco, Kerullen Pimenta de Sá, o olhar dos recrutadores sobre pessoas com menos de 30 anos mudou nos últimos anos.

Kerullen Pimenta de Sá, da Adecco(foto: Adecco/Divulgacao.Editoria)
Kerullen Pimenta de Sá, da Adecco (foto: Adecco/Divulgacao.Editoria)
“Depende muito da função, da área e do segmento da empresa. Empresas de tecnologia ou startups, por exemplo, até preferem esse público devido ao perfil”, explica. “A inovação, a busca pelo novo e a familiaridade com as tecnologias são características fortes dessa geração e que agregam muito para empresas desse tipo”, acrescenta a especialista em gestão estratégica de pessoas. Gilberto Sobrinho, diretor da consultoria de recursos humanos Latin America Talent Services (Lats), concorda.

As empresas estão cada vez mais abertas para a contratação desse perfil. “Não vejo que exista uma resistência aos mais jovens. A meu ver, idade e maturidade não caminham juntos. Conheço jovens extremamente maduros e responsáveis e também outros com mais idade com pouca maturidade e responsabilidade”, afirma Gilberto. “ O que eu vejo é que muitas empresas querem profissionais jovens que já tenham experiência, que entrem jogando, que tenham fluência em um idioma estrangeiro”, completa.

Para ascender na carreira

Quem desejam se tornar referência em determinada área de atuação e sair à frente na disputa por uma vaga de emprego deve ter foco, como recomenda o consultor de carreira Emerson Weslei Dias. “Ninguém será reconhecido apenas pelo potencial, mas a combinação de entrega e potencial. Por isso, é preciso focar alguma tarefa, algum projeto, algum desafio ou mesmo tornar-se muito bom naquela rotina que executa. Estudar o que se faz”, diz.

Emerson Weslei Dias, consultor de carreira (foto: Arquivo Pessoal)
Emerson Weslei Dias, consultor de carreira (foto: Arquivo Pessoal)
De acordo com o mestre em gestão de negócios pela Fundação Instituto de Administração (FIA), um dos maiores obstáculos que pessoas mais novas enfrentam para ascender profissionalmente é justamente a falta de foco, aliada à pouca experiência. “Muitas vezes, eles (os jovens) ainda não definiram um rumo em suas carreiras e oscilam muito até encontrarem algo para se fixar.” Além disso, mais do que competências técnicas, é preciso estar atento às habilidades socioemocionais, também conhecidas como soft skills.

É o que explica a diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos de São Paulo (ABRH-SP), regional Campinas, Fabiola Lencastre. “Criatividade, mobilidade para trabalhar em times heterogêneos, improviso, foco em resultados e jogo de cintura para lidar com pressão são algumas competências que não podem faltar na bagagem”, elenca.

Características da geração Z

Fabiola Lencastre, da ABRH(foto: ABRH-SP Campinas/Divulgação)
Fabiola Lencastre, da ABRH (foto: ABRH-SP Campinas/Divulgação)
A Geração Z, definição sociológica para pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 e o início do ano 2010, tem algumas qualidades valiosas para o mercado de trabalho, mas também é marcada por características que não são bem-vistas. Segundo Fabiola Lencastre, os integrantes desse grupo são irreverentes, autênticos, donos de improviso criativo e abertos a formatos de trabalho que impulsionem suas vocações.

“Se pudesse caracterizá-los, diria que são movidos por desafios vocacionados, engajados por propósito. Para eles, trabalho tem que estar ligado a princípios de vida, valores e felicidade”, explica. “O ponto de atenção é que quase sempre são imediatistas, o aqui e agora muitas vezes atropela o processo de construção…”, ressalta. A gerente regional do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) Campinas, Rosângela Pereira, concorda que o imediatismo é uma característica negativa dessa geração.

Rosângela Pereira, do Ciee (foto: Arquivo Pessoal)
Rosângela Pereira, do Ciee (foto: Arquivo Pessoal)
“Por pertencerem a um mundo muito dinâmico, desejam que tudo aconteça com muita rapidez, mas as corporações têm, cada uma, um tipo de gestão adequado ao próprio negócio, o que nem sempre segue o ritmo esperado pelos jovens”, afirma. Na avaliação do consultor de carreira Emerson Weslei Dias, há fatores que são muito mais determinantes do que a faixa etária. “Eu não gosto muito dessas marcações geracionais, até porque só idade não é muito seguro para avaliarmos as pessoas”, opina.

“Mas, de uma forma geral, o contato com a tecnologia e o saber trabalhar em rede são características muito positivas dessa geração”, acrescenta. Já como aspectos negativos ele cita baixa empatia, baixa tolerância à frustração e “um pouco de ansiedade exagerada”, fruto do fácil acesso à informação.

Para se capacitar

Confira dicas de Gilberto Sobrinho, diretor da consultoria de RH Lats, para se preparar para o mercado de trabalho, voltadas tanto para os jovens quanto para pessoas mais velhas

Gilberto Sobrinho, diretor da Lats(foto: ABRH-SP Campinas/Divulgação)
Gilberto Sobrinho, diretor da Lats (foto: ABRH-SP Campinas/Divulgação)

>> Ser um eterno aprendiz
O mundo muda cada vez mais rápido e é preciso se atualizar constantemente

>> Conhecer as tendências do mercado
Muitas das profissões tradicionais que conhecemos serão extintas ou transformadas radicalmente, ao passo que muitas novas já estão surgindo

>> Saber ler e falar inglês nunca foi tão importante
A maioria das informações e sites de primeira linha estão nesse idioma

>> Manter-se flexível às mudanças
Um bom exemplo é a crise da covid-19, que está nos obrigando a reavaliar muitos conceitos de uma maneira rápida

>> Atenção às soft skills
Conhecimento técnico é muito importante, mas não se esqueça das habilidades sociais, interação e comunicação

Como se tornar CEO antes dos 40?

“Acredito que não existem segredos ou fórmulas mágicas. Cada caminho tem particularidades, mas considero que sete elementos são muito importantes”, afirma Giovanna Dutra, 36 anos, COO (diretora de operações) da TG Core Asset Management, gestora de recursos com foco no mercado imobiliário. 

Aos 36, Giovanna Dutra é diretora de operações(foto: Carol Belini/Divulgação)
Aos 36, Giovanna Dutra é diretora de operações (foto: Carol Belini/Divulgação)
Confira as dicas dela para chegar à alta chefia executiva antes dos 40 anos:

1 - Ter as pessoas certas ao seu lado: no começo não há dinheiro, não há garantia de sucesso, não há nada. O jeito é trazer pessoas que acreditem e comprem o seu sonho como se fosse o delas.

2 - Escutar as opiniões de fora, mas não deixar que elas se sobressaiam às suas;

3 - Educação ampla: estudei relações públicas e economia, então ambas me ajudam a complementar e equilibrar minha visão de gestão e acredito que isso enriquece os processos da empresa;

4 - Rede de relacionamentos: cultivar relacionamentos, confiar neles, compartilhar e trocar ideias sem medo e ouvir com muito respeito e atenção àqueles com mais experiência também foi essencial na minha carreira. Eu acredito que as relações são construídas sobre confiança, e para construir confiança você tem que se abrir;

5 - Resiliência: não vai ser fácil e certamente chegará o dia em que você sentirá como se tudo o que tivesse feito até agora não valesse a pena — portanto, a capacidade de enfrentar a adversidade é um aspecto central da liderança empresarial;

6 - Capacidade de formar equipes com os mesmos valores: sem uma visão similar de trabalho, valores e talentos compartilhados fica mais difícil ter sucesso;

7 - Uma pitada de obsessão pela excelência: algo que funcionou para mim, às vezes para meu pesar, é o sentimento permanente de que tudo pode sempre ser feito um pouco melhor. Não estar satisfeita com um padrão me faz ter vocação para avançar constantemente e acredito que isso gere uma dinâmica virtuosa dentro da organização.

Eu cheguei lá na juventude!

Conheça pessoas que alcançaram grande destaque ainda jovens e saiba como elas estão vivenciando a pandemia

Liderança educacional 

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%u201CAcho que nós, mulheres, ainda mais jovens, somos muito questionadas quando tentamos nos posicionar e nos colocar em lugar de destaque%u201D, afirma a mestranda em educação por Stanford Ana Machado (foto: Arquivo Pessoal)
 

Em 2018, Ana Carolina Machado, 28 anos, foi eleita pela Universidade de Saint Gallen, na Suíça, como uma das jovens lideranças que estão definindo o futuro e, em 2019, entrou, como líder educacional, para a lista Forbes Under 30, publicação que destaca jovens de referência em diferentes segmentos. Foi durante um intercâmbio, enquanto cursava marketing na Universidade de São Paulo (USP), que Ana Carolina se apaixonou pela educação e decidiu que queria construir carreira na área. Ela foi dar aulas sobre responsabilidade social corporativa em uma escola pública de Milão, na Itália, onde passou dois meses.

Quando retornou para São Paulo, fundou, com dois amigos da universidade, uma escola de inglês para jovens de baixa renda, chamada 4U2. “A gente cobrava um preço baixo e trazia professores estrangeiros para darem as aulas. Começamos no Capão Redondo, em São Paulo. O negócio foi crescendo muito rápido. Depois de três anos, tínhamos mais de cinco unidades e mais de 1 mil alunos matriculados”, conta.

A vontade de viver outras experiências no setor educacional fez com que Ana vendesse a parte dela da empresa depois de alguns anos. Então, começou a trabalhar como consultora de startups na área de educação, apoiando empreendedores que estavam desenvolvendo soluções tecnológicas para o setor. Depois, atuou em uma rede de escolas particulares para classe média baixa, em São Paulo, e se tornou diretora de uma das unidades.
 

Entre 2017 e 2018, fez uma especialização em psicossociologia da juventude pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ano passado, começou o mestrado em educação na Universidade Stanford, na Califórnia, Estados Unidos, com bolsa da Fundação Lemann. “Agora, eu quero contribuir com políticas públicas, que é o que vai mudar mesmo a educação no Brasil”, conta. “Eu vim para Stanford para me preparar melhor, conhecer mais teorias sobre educação e também para fazer novas conexões que me permitam contribuir com o debate sobre iniciativas para o setor”, ressalta.

De acordo com ela, o papel das lideranças jovens é contribuir para a redução da desigualdade social no Brasil. “A gente precisa sair da nossa posição de conforto e privilégio e se engajar com iniciativas que, de fato, vão gerar mais oportunidades para as pessoas que não tiveram as mesmas chances que a gente”, explica. “É isto que eu espero: que, de alguma forma, eu e as outras lideranças consigamos contribuir para virar esse jogo, em vez de só perpetuar a dinâmica que já existe e exclui a maioria das pessoas. No caso da educação, é contribuir para que a maioria dos alunos tenha um futuro mais promissor.”

“Somos questionadas”

A mestranda conta que percebeu barreiras durante a trajetória por causa do gênero e da idade. “Acho que nós, mulheres, ainda mais jovens, somos muito questionadas quando tentamos nos posicionar e nos colocar em lugar de destaque”, lamenta. “Quando trabalhava como diretora de escola, percebia isso. Esse era um desafio, porque havia pessoas na minha equipe que eram mais velhas do que eu e, muitas vezes, acabava conversando com pais que também eram mais velhos”, relembra.

“Então, acho que tinha essa questão de pensarem ‘nossa, como essa mulher tão jovem, que não tem filhos, pode ser uma das lideranças da escola do meu filho?’. Eu sentia isso.” No meio acadêmico, não foi diferente. “A gente percebe que algumas opiniões são mais autorizadas do que outras. Depende muito de quem está falando e de qual experiência e quais títulos essa pessoa tem na área”, afirma. “Então, muitas vezes, eu, como estudante, jovem, mulher, sei que o peso do que eu falo é menor do que o peso de outras pessoas que têm mais tempo de carreira e, geralmente, são homens brancos privilegiados.”

Rotina puxada na crise

Com as medidas de isolamento social, as aulas de Ana em Stanford estão sendo ministradas pela internet. “Eu tenho uma carga horária bem pesada de aulas remotas todos os dias. Fora isso, passo muito tempo estudando para as disciplinas ou fazendo trabalhos e atividades”, conta. “Então, acaba que eu fico entre seis a oito horas por dia no computador. Às vezes, fico até 10.” Ela só sai de casa para ir ao supermercado ou à farmácia e para fazer atividades físicas. Pelo menos uma vez por dia, faz caminhada “para respirar um pouco de ar puro”.

Na opinião da mestranda, o formato de aulas remotas tem sido cansativo, especialmente porque os alunos perdem a experiência universitária. “Só ficou a parte de conteúdo, leituras, trabalhos e provas”, justifica. “Como eu já estou terminando o curso, consigo lidar com essa situação de uma maneira melhor. Mas eu sinto muito pelos alunos que estão no primeiro ano de estudos, os que ainda têm mais um ano aqui ou até aqueles que vão entrar e estão nessa expectativa para saber como as aulas serão conduzidas.”

O “novo normal” para Ana Machado

“Acho que vai demorar um pouco até voltarmos aos padrões de normalidade de antes da pandemia. Acredito que teremos um período de transição. No começo, imagino que haverá várias restrições em termos do número de pessoas que podem acessar determinado lugar, para evitar aglomerações. Talvez lugares que geralmente concentram mais pessoas, como restaurantes, salas de aula, alguns tipos de comércio e cinema terão que fazer um revezamento, além de manter espaço maior entre as pessoas. Aqui na Califórnia, por exemplo, a gente está saindo da quarentena, mas é obrigatório usar máscara na rua. A gente também não pode acessar todos os lugares da maneira como acessava antes. Alguns comércios serão reabertos, mas outros vão continuar fechados por tempo indeterminado. Então, imagino que vai demorar um tempo até voltarmos aos padrões de convivência mais parecidos com o que tínhamos antes. Nesse período, também vamos usar mais tecnologias para trabalho e estudo, para evitar a exposição em espaços de convivência com muitas pessoas, como escolas, universidades e escritórios.”

Leia!

Nova colunista do Correio

Ana Machado entrou para o time de colunistas do jornal.A Coluna Saber estreou no site Eu, Estudante em 20 de maio (confira aqui) e será publicada no site a cada 15 dicas, abordando educação em geral. O Trabalho & Formação Profissional abrigará outro enfoque da coluna: mensalmente, Ana Machado escreverá textos sobre educação profissional e de jovens e adultos para o caderno. Confira no próximo domingo (7/6) a estreia dela neste espaço. A Coluna Saber sairá nesta editoria a cada primeiro domingo do mês.

A ideia é compartilhar os conhecimentos adquiridos no mestrado em Stanford com os leitores do jornal. “Nós, que estamos na academia, na universidade, precisamos construir essa ponte para falar com diferentes pessoas. Se a gente não trouxer outras perspectivas para elevar o nível do debate, vamos só produzir conhecimento e ficar fechados em um grupo muito restrito de gente que é especialista e já entende do assunto”, reflete a estudiosa.

Um juiz empossado aos 26

"Eu sempre tive vontade de transformar a realidade social. E eu via o juiz como sendo alguém que podia fazer isso", diz o juiz Fabrício (foto: Arquivo Pessoal)
 

“Eu sempre tive vontade de transformar a realidade social. E eu via o juiz como sendo alguém que podia fazer isso”, conta Fabrício Castagna Lunardi, 37 anos. Em 2009, quando tinha 26, o sonho tornou-se realidade — ele passou no concurso para juiz de direito da Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Lunardi cursou direito na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Quando se formou, por ter sido o melhor da turma em notas, ganhou bolsa para fazer cursinho no antigo Instituto de Ensino Luiz Flávio Gomes (IELF), hoje chamado LFG.

Fez o preparatório durante um ano e passou em vários concursos — foi aprovado na seleção para os cargos de defensor público (RS), procurador do estado do Rio Grande do Sul, advogado da União, procurador federal, procurador da Fazenda Nacional, promotor de Justiça do Ministério Público do Paraná (em primeiro lugar) e juiz de direito Substituto do TJDFT. Desses, tomou posse como defensor público do Rio Grande do Sul e advogado da União, aos 23 anos, e como juiz, aos 26.

O doutor em direito pela Universidade de Brasília (UnB) também foi professor de direito processual civil e de direito constitucional da UFSM no período de 2006 a 2007. Atualmente, é pesquisador, palestrante, escritor e coordenador de diversos projetos de pesquisa na área de gestão e inovação no Poder Judiciário. Ao todo, escreveu 16 livros, sendo os mais recentes: O STF na política e a política no STF, Curso de direito processual civil (Saraiva, 2019), Curso de sentença cível (Juspodivm, 2019) e Curso de sentença penal (Juspodivm, 2020) — os dois últimos, escritos em coautoria.

É, também, coordenador-geral da Escola de Formação Judiciária do TJDFT. Ano passado, a vara onde é titular (Tribunal do Júri de Samambaia) ficou em primeiro lugar no ranking nacional de melhor desempenho entre Tribunais do Júri do país. O segredo para a trajetória de sucesso, de acordo com Lunardi, reúne foco, dedicação e persistência. Ele conta que sempre foi estudioso. Na época da escola, tirava boas notas e gostava tanto das disciplinas de exatas quanto das de humanas.

“Para você ter uma ideia, eu estava na dúvida entre engenharia civil e direito. Eu ia muito bem nas matérias de exatas e gostava muito de redação”, relembra. “Acabou que eu optei pelo direito, porque queria transformar a sociedade e fazer justiça”, afirma. O conselho do juiz para quem quer seguir carreira na área é estudar muito, ter objetivos claros e motivação. “Também é muito importante ter fé, porque você acaba passando por diversas intercorrências na sua vida. E sempre percorrer seu objetivo. Acho que isso é fundamental.”

Vida pessoal, profissional e acadêmica

Durante o período de isolamento social, Fabrício divide a rotina em três esferas: pessoal, profissional e acadêmica. O juiz está ajudando os filhos com as atividades escolares a distância. “Antes, a gente os deixava na escola, que se encarregava de desenvolver as competências das crianças”, relembra. “Durante a pandemia, em razão do isolamento social, parte disso é delegado aos pais.”

Do ponto de vista profissional, o doutor em direito pela UnB conta que o Poder Judiciário está empenhado em desenvolver novos fluxos processuais e formas de trabalhar em meio à pandemia, a exemplo das sessões de julgamento remotas. “Há uma corrida no Judiciário pelo uso de novas tecnologias para trazer mais agilidade aos processos, aumentando também a qualidade deles e reduzindo as atividades presenciais”, diz. Além disso, o especialista em direito civil pela UFSM tem se dedicado a escrever artigos sobre sua tese de doutorado.

O “novo normal” para Fabrício Castagna Lunardi
“A gente vai ter um novo mundo depois da pandemia. As mudanças que foram implementadas nesse período vieram para ficar. Teremos muito mais compras pela internet, menos deslocamento das pessoas, mais home office... Haverá uma corrida cada vez maior pela automação e pelo uso de tecnologias para a comunicação. A gente observa que várias palestras e aulas que eram obrigatoriamente presenciais também passaram a ser ministradas pelo ambiente virtual por sistemas de videoconferência. u acho que o mundo nunca mais vai voltar a ser como era antes. A crise provocada pela pandemia e pelo isolamento social vai gerar uma nova forma de nos relacionarmos, que será muito mais digital do que antes.”

Criadora de conteúdo e empresária

Aos 29 anos, Monique Corrêa é criadora de conteúdo e diretora da produtora audiovisual Chance(foto: Gabriel Pinheiro/Divulgação )
Aos 29 anos, Monique Corrêa é criadora de conteúdo e diretora da produtora audiovisual Chance (foto: Gabriel Pinheiro/Divulgação )
Monique Corrêa, 29 anos, é criadora de conteúdo no Instagram, onde tem 27 mil seguidores, e uma das fundadoras da produtora audiovisual Chance. Carioca, ela se mudou para Brasília aos 17 anos, por causa do trabalho do pai, militar aposentado. É “brasiliense com alma carioca”, como ela mesma define. “Eu consegui transferir aquele amor que eu tinha pelo mar para o céu de Brasília”, diz. 

Na capital, fez um ano de pré-vestibular para tentar ingressar no curso de psicologia da UnB. Mas o sonho dela era outro. “Sempre gostei do universo da moda, desde quando fazia as roupas das minhas Barbies”, relembra. No ano seguinte, decidiu seguir a vocação. Cursou design de moda no Centro Universitário Iesb. Quando se formou, a carioca percebeu que o mercado em Brasília era escasso e decidiu explorar uma ferramenta nova até então — o Instagram. Monique criou um brechó e começou a vender roupas pela internet, montando editoriais com as peças.  

“Passei a vender muito bem e a fazer trabalhos como social media para algumas empresas. A partir disso, meu Instagram cresceu e eu continuei trabalhando com criação de conteúdo para mim e para marcas”, relata. Desde 2016, ela trabalha com empresas como Adidas, Coca-Cola, M.A.C e Amaro. Em 2018, foi embaixadora da Pantene Brasil e participou do comercial da linha #UnidasPelosCachos. Hoje, faz parte do time da Swarovski, o que, de acordo com ela, foi uma das maiores conquistas da carreira. 

Outro destaque foi a fundação da Chance, empresa da qual Monique é diretora executiva. “Meu conselho (para outros jovens) é que eles devem ir atrás dos seus sonhos e abraçar seus erros. Porque erros não são ruins, eles nos fazem entender que precisamos melhorar em algum ponto.” A adaptação ao home office forçado não foi um problema para Monique, que trabalha remotamente há dois anos. A empresa dela foi afetada pela pandemia, já que a produção de vídeos e fotos é presencial.

O “novo normal” para Monique Corrêa
“Eu vejo que, no novo normal, as pessoas terão mais consciência do que estão consumindo e onde estão investindo. A gente vai deixar para trás o consumo desenfreado. Acredito que as marcas terão de mostrar, cada vez mais, qual é o propósito delas: por que vendem aquela peça e por que o cliente deveria comprá-la. Além disso, as redes sociais, com certeza, estão bem em alta agora, e percebemos a importância de as marcas terem um posicionamento forte nas mídias, porque isso gera vendas. As empresas que não investiam nas redes sociais antes da pandemia agora estão sentindo dificuldade. Essa, certamente, é uma tendência.”

Pela inclusão de mulheres negras

"Quando conheço novas pessoas, elas nunca esperam que eu seja formada em sociologia por uma universidade federal, seja fluente em inglês e espanhol, tenha viajado e vivido em outros países e administre negócio próprio", desabafa Gabriella Safe (foto: Luiz Ferreira / Divulgação)
 

Gabriella Safe, 27 anos, é uma das fundadoras do Afroricas, projeto educacional de Brasília que ajuda mulheres negras a se inserirem no mercado de trabalho e no empreendedorismo. Ela conta que a ideia surgiu em 2017, quando trabalhava no México com desenvolvimento de pessoas e consultoria comercial. “A iniciativa foi elaborada para ser um curso presencial de aceleração para jovens universitárias negras. No entanto, tive alguns percalços em minha vida pessoal e o projeto ficou engavetado por uns seis meses”, relembra.

Desde o início, o objetivo do Afroricas era transmitir conteúdos que não estão presentes em currículos tradicionais de faculdades e escolas, como educação financeira, habilidades interpessoais, busca por oportunidades, planejamento de carreira, propósito e satisfação no trabalho, redes socais e vida profissional, entre outros. “Eu desejava compartilhar aprendizados que tive ao longo de minha trajetória profissional e que eu enxergava como informações valiosas que contribuíram muitíssimo para o meu desenvolvimento”, explica Gabriella.

Em fevereiro de 2018, enquanto ainda estava no México, ela ficou sabendo do edital Negras Potências, que tinha o objetivo de financiar e viabilizar iniciativas para a redução das desigualdades em relação às meninas e mulheres negras no Brasil. Decidiu, então, inscrever o Afroricas com outras duas mulheres negras de Brasília conectadas com as pautas raciais — Monique Lorena, mais conhecida como Neggata, e Tricia Oliveira. O formato do projeto foi repensado e passou a ser totalmente digital. Entre 178 iniciativas inscritas, o Afroricas foi uma das 14 selecionadas.

Assim, Gabriella voltou ao Brasil, em agosto de 2018, para viabilizar os próximos passos do edital. Durante o processo de arrecadação de fundos, Gabriella, Neggata e Tricia receberam uma notícia “inesperada, mas extremamente gratificante” — o projeto havia sido selecionado para participar da Xyntheo Exchange 2018, feira anual internacional de empreendedorismo em Oslo, na Noruega.

“Para nós, foi uma surpresa alegre saber que, internacionalmente, existem preocupação e espaço para projetos como o nosso, que visam contribuir para reduzir desigualdades sociais com recorte racial específico”, comemora. Em janeiro de 2019, depois de ter atingido a meta de arrecadação, a iniciativa saiu do papel. Formada em sociologia e bacharel em ciências sociais pela UnB, Gabriella conta que esteve envolvida em atividades extracurriculares desde o segundo semestre da universidade.

Ela foi monitora, bolsista de iniciação científica, bolsista de iniciação à docência, integrante de movimentos sociais, integrante de empresa júnior e voluntária em uma ONG internacional. “Tentei aproveitar todas as oportunidades disponíveis durante minha graduação porque as considerava as melhores formas de iniciar meu desenvolvimento profissional. Tive bons resultados com essa trajetória”, relata. Assim que se formou, ela conseguiu o emprego que queria e passou a trabalhar na área comercial e com desenvolvimento de pessoas.

Esse trabalho abriu portas para que Gabriella se mudasse para o México. “Lá, vivi uma verdadeira odisseia, onde o que eu havia planejado não se concretizou. Precisei me virar e acabei trabalhando em áreas muito inusitadas e imprevistas. Fui garçonete, assistente administrativa, professora de jiu-jitsu, aprendiz de carpinteiro, atendente, instrutora de academia, professora de português...”, relembra.

“Foram empregos que eu não havia imaginado para mim e que tinham muitos desafios intrínsecos. No entanto, devo muitos dos meus aprendizados a essa fase. Foram também experiências únicas pelas quais sou extremamente grata.” Para os próximos anos, ela sonha em lançar produtos na empresa, iniciar um mestrado, ter outra experiência no exterior e continuar apoiando o desenvolvimento de outras pessoas. “E confesso que meu maior sonho de longo prazo é que a minha empresa não precise mais existir. Quando isso acontecer, viveremos em um mundo mais igualitário, onde as oportunidades estarão acessíveis para todos e todas”, aspira.

O “novo normal” para Gabriella Safe
“Honestamente, estou receosa quanto ao “novo normal”. Nossa democracia está em risco e, se não buscarmos mudanças estruturais, teremos mais do mesmo. Se não criarmos formas de reduzir as desigualdades existentes, a tendência é de que elas apenas se intensifiquem após esta crise. Ao mesmo tempo, sou otimista, porque enxergo uma base ideológica capilarizada na sociedade e que se fortalece dia após dia. Essa base questiona muitas coisas que sempre foram dadas como certas e naturais: nosso sistema econômico, a meritocracia, nossas formas de relacionamento, papéis de gênero, democracia racial, nossa alimentação, o individualismo, formas de consumo, criação de filhos, espiritualidade e nossa relação com a natureza. As pessoas estão vislumbrando e desejando outro formato de sociedade que respeite diferenças individuais e ofereça melhores condições de vida para todos.” 

"Já me senti desacreditada"

A idealizadora do Afroricas não considera que a idade tenha sido um obstáculo na carreira porque nunca foi dispensada de nenhuma oportunidade com a desculpa de ser muito nova ou pouco experiente. Porém, ela conta que já se sentiu desacreditada muitas vezes por ser uma mulher jovem e negra. “Quando conheço novas pessoas, elas nunca esperam que eu seja formada em sociologia por uma universidade federal, seja fluente em inglês e espanhol, já tenha viajado e vivido em outros países, e administre meu próprio negócio”, diz.

“Em muito ambientes, as pessoas têm expectativas muito baixas com relação ao meu potencial, à minha intelectualidade e às minhas conquistas e nunca esperam que eu esteja ali para trocar de igual para igual com elas”, relata. “Não foram poucas as vezes em eventos em que eu pude ver o espanto e admiração no rosto das pessoas quando peguei algum microfone para contribuir com a atividade/discussão do momento.”

Fase de introspecção

Para Gabriella, a quarentena tem sido um momento de introspecção. Ela se afastou das redes sociais para refletir sobre questões e hábitos que considera importantes. “Além de priorizar minha saúde física, psicoemocional e espiritual, apoio instituições que distribuem alimentos e materiais de limpeza em regiões de maior vulnerabilidade social”, relata. “O momento é delicado para todos, mas é ainda mais sensível para alguns grupos. Então, é importante pensar na coletividade e contribuir da forma que pudermos com o próximo.” Em relação à vida profissional, ela conta que trabalha em home office desde 2018; então, estava acostumada com o formato.

“No entanto, fico sempre atenta para seguir minha rotina e respeitar meus horários de trabalho. Se não, a balança desequilibra e começo a trabalhar muito mais do que devo. Isso é insustentável para a saúde”, ressalta. As criadoras da Afroricas suspenderam viagens e gravações que tinham planejado. Além disso, as negociações que estavam em andamento com outras empresas foram paralisadas. Apesar das dificuldades impostas pela pandemia, Gabriella, Neggata e Tricia estão de olho nas tendências do mercado. “Como as pessoas têm consumido mais conteúdo virtualmente, abre-se uma janela de oportunidade para testarmos novos formatos de interação com nosso público.”

Fundador de startup do bem

Formado em ciência da computação pela UnB, Juju é um dos sócio fundadores da Ribon, startup que permite fazer doações para causas sociais sem gastar dinheiro(foto: Arquivo pessoal)
Formado em ciência da computação pela UnB, Juju é um dos sócio fundadores da Ribon, startup que permite fazer doações para causas sociais sem gastar dinheiro (foto: Arquivo pessoal)
 

Carlos Menezes, mais conhecido como Juju, 25 anos, é um dos sócios fundadores da Ribon, startup de Brasília que permite fazer doações para causas sociais sem gastar dinheiro. Os usuários do aplicativo de mesmo nome recebem uma boa notícia por dia e, a cada notícia lida, ganham 100 moedas virtuais que podem ser doadas para caridade. O modelo funciona por meio do patrocínio de empresas, que fazem as doações. Recentemente, o app ganhou também uma opção de assinatura, em que os usuários podem doar dinheiro para a causa.

A startup nasceu em 2016, quando Juju se juntou a Rafael Rodeiro, 25, e João Moraes, 24. Os três haviam se conhecido por meio do Movimento Empresa Júnior (MEJ). Eles estudavam na Universidade de Brasília (UnB): Juju cursava ciência da computação; Rafael, engenharia de produção; e João, design. Assim, uniram as habilidades multidisciplinares e deram início ao projeto. Na época, Juju trabalhava na Flama, uma empresa de design que cria produtos para startups. Lá, aprendeu muito sobre empreendedorismo e tecnologia.

O tempo que passou na CJR, empresa junior de ciência da computação da UnB, também foi fundamental. “Foi bem importante, tanto para me aproximar do mercado de trabalho quanto dessa visão mais empreendedora”, relembra. Durante o tempo em que esteve no MEJ, foi coordenador de tecnologia da informação (TI) em eventos e fez parte da federação de empresas juniores. Também participou do Startup Weekend, maratona em que estudantes e empreendedores criam uma ideia de startup em um fim de semana. Apesar de o grupo dele não ter vencido, foi nesse evento que Juju recebeu a proposta para trabalhar na Flama.

Em 2017, a Ribon recebeu o primeiro investimento de aceleração, e Juju deixou o emprego na empresa de design para se dedicar 100% à startup. Hoje, a equipe é formada por 20 pessoas, sendo que só uma tem mais de 30 anos. Desde a criação do aplicativo, foram doados mais de 1,2 bilhão de ribons, o correspondente a um ano de água potável para 14.056 pessoas, um ano de medicamentos para 22.597 pessoas, um ano de fortificação alimentar para 46.139 pessoas e um ano de saúde básica para 10.930 pessoas.

A primeira dica que ele dá para jovens que sonham em empreender e começar uma startup é procurar um time. “Não adianta você começar sozinho, porque, geralmente, é muito trabalho”, alerta. Outro ponto importante, de acordo com Juju, é aceitar ajuda de pessoas com experiência na área, como mentores. “Quando nós entramos no processo de aceleração, já havíamos estudado muito sobre startups, então pensamos que só pegaríamos o dinheiro para conseguir trabalhar na startup integralmente e largar nossos empregos”, conta. “Mas a gente aprendeu muito lá”, acrescenta.

Uma nova Ribon
Juju conta que os colaboradores da Ribon se adaptaram bem ao home office na pandemia e, provavelmente, parte do trabalho continuará sendo feita remotamente após a quarentena. “Talvez, a gente não precise mais de tantas estações de trabalho no escritório como tinha antes. A gente deu alguns passos importantes que não terão volta.” Segundo o CTO (diretor de tecnologia) da Ribon, a empresa está “pegando firme no trabalho” durante a fase de isolamento social, apoiando, principalmente, a parcela da população mais vulnerável às consequências da pandemia.

É claro que, com a crise econômica, vieram obstáculos. Antes da quarentena, a Ribon estava em fase de captação de investimentos, que praticamente cessaram. “Mas, graças a Deus, conseguimos fazer nossa empresa continuar crescendo e ajudar mais pessoas”, ressalta Juju. “Fizemos uma mudança no nosso modelo de negócios. Antes, a gente não trabalhava com causas brasileiras. Agora, a Ribon praticamente só trabalha com organizações nacionais e causas relacionadas à pandemia.” Na avaliação dele, a startup “será totalmente diferente” depois da crise provocada pelo coronavírus.

O “novo normal” para Carlos Menezes
“Do ponto de vista da tecnologia, a gente teve alguns avanços que não terão volta. Por exemplo, nós não usamos mais papel para fazer contratos, porque não dá mais para se encontrar. Estamos usando contratos digitais. Até os bancos estão começando a aceitar os documentos digitalizados, o que era mais difícil antes.”

Da Tribo Pankará para a UnB

Da Tribo Pankará, João Emanoel passou em primeiro lugar para medicina na UnB pelo vestibular indígena (foto: Arquivo Pessoal)
Da Tribo Pankará, João Emanoel passou em primeiro lugar para medicina na UnB pelo vestibular indígena (foto: Arquivo Pessoal)
João Emanoel Bastos, 17 anos, passou em primeiro lugar para medicina pelo vestibular indígena da UnB, para ingresso no primeiro semestre de 2020. Filho do cacique Ary Pankará, ele pertence ao povo Pankará da Serra do Arapuá, no interior de Pernambuco. O jovem cursou o ensino médio e fez pré-vestibular em Recife, onde morava com o irmão mais velho, que faz faculdade de farmácia na capital pernambucana.

“De manhã, eu ia para o cursinho; à tarde, para o colégio. À noite, quando chegava em casa, fazia exercícios sobre o conteúdo do dia”, conta o calouro de medicina. A rotina puxada valeu a pena. “Eu fiquei muito feliz. A gente estuda muito e é recompensador... Meus pais também ficaram muito felizes com essa conquista”, comemora.

O sonho de ser médico era antigo. João Emanoel conta que admira a profissão e, desde criança, observava a dificuldade de acesso a médicos e exames na tribo. Por isso, pretende voltar para o interior de Pernambuco quando se formar. A escolha da UnB foi inspirada pelo outro irmão, Ary Filho, que também cursa medicina na universidade.

A mensagem que ele deixa para os jovens do povo Pankará é para que se dediquem, façam o que gostam e nunca desistam de seus sonhos. “Uma hora ou outra, esses sonhos vão se tornar realidade”, diz. Com a suspensão das aulas na UnB, João retornou para a aldeia, para passar a quarentena com a família.

O novo normal para João Emanoel Bastos
“Eu espero que, quando terminar a quarentena, as pessoas tenham mais empatia. Espero também que os governos, de um modo geral, revejam os sistemas de saúde para que, se passarmos novamente por uma situação como essa, não haja outro colapso.”

Destaque internacional na ciência

Anna Luísa foi a primeira brasileira a receber o prêmio Jovens Campeões da Terra, da Organização das Nações Unidas (ONU)(foto: SDW/Divulgacao )
Anna Luísa foi a primeira brasileira a receber o prêmio Jovens Campeões da Terra, da Organização das Nações Unidas (ONU) (foto: SDW/Divulgacao )
 

Desde criança, Anna Luísa Beserra, 22 anos, moradora de Salvador (BA), sonhava em ser cientista e mudar o mundo. Quando ainda estava no ensino médio, ela, que é formada em biotecnologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), teve uma ideia que a aproximou da concretização do sonho: ela começou a desenvolver um dispositivo que filtra água da chuva utilizando apenas a luz solar, chamado Aqualuz. A jovem queria ajudar a resolver o problema da seca, que afeta milhões de pessoas no Nordeste.

Na época, Anna Luísa inscreveu-se no Prêmio Jovem Cientista do CNPq (Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e, apesar de não ter ganho, persistiu com a ideia. Quando estava na universidade, fundou, junto a três colegas, a Safe Drinking Water for All (SDW), startup que desenvolve tecnologias hídricas. A equipe recebeu aceleração do programa Academic Work Capital (AWC), do Instituto TIM, que oferece apoio financeiro e técnico para estudantes que querem fundar uma startup de base tecnológica.

A partir daí, os jovens conseguiram aprimorar a tecnologia do Aqualuz. Em 2019, a iniciativa rendeu a Anna Luísa o prêmio Jovens Campeões da Terra, da Organização das Nações Unidas (ONU). Ela foi a primeira brasileira a receber a condecoração. “O prêmio mudou praticamente tudo. Abriu muitas portas e fez com que a gente ganhasse reconhecimento internacional, fora a credibilidade de ter um selo da ONU”, comemora.

“Eu quis fazer algo que pudesse ser simples e viável. Nas minhas pesquisas, identifiquei que existiam inúmeras tecnologias para tratar a água, mas o principal entrave era justamente o fato de a tecnologia ser complexa e cara, com custo de manutenção mais alto ainda”, explica. O processo de filtragem no Aqualuz leva de duas a quatro horas, e o equipamento tem durabilidade de, em média, 20 anos. A manutenção pode ser feita de maneira simples pelo próprio usuário. A SDW já distribuiu água potável para mais de 250 famílias no semiárido brasileiro.

Para Anna Luísa, o apoio do programa AWC foi fundamental. “Um diferencial para a gente ter sobrevivido enquanto tantas startups não sobrevivem foi a dedicação aliada à busca de mentorias”, diz. “Com o apoio do AWC, a gente conseguiu fazer o protótipo do Aqualuz pela primeira vez, porque, até então, só tínhamos uma versão caseira.” Ela conta que continua em contato com os mentores. “Volta e meia a gente faz reunião de acompanhamento, pede conselhos e dicas. As mentorias servem para a vida toda.”

O “novo normal” para Anna Luísa Beserra
“As pessoas estão começando a se tornar mais conscientes sobre suas ações e o impacto ambiental delas. Espero que, no contexto pós-pandemia, elas comecem a exigir que as empresas tenham iniciativas de sustentabilidade, tanto ambiental quanto social e econômica, visando um futuro melhor para o planeta. Eu espero muito que as próximas gerações consigam mudar a percepção sobre nossa forma de estudar e trabalhar. Estamos vendo agora que, muitas vezes, não precisamos de nos deslocar para uma reunião, por exemplo. Podemos fazer isso via videoconferência, sem gastar combustível e tempo. Espero também que a gente consiga ter resultados satisfatórios nas vidas pessoal e profissional, dando mais importância ao tempo com a família.”

Tecnologia contra o coronavírus

Quando começaram as medidas de isolamento social, a equipe da SDW estava implementando o AquaLuz em comunidades do interior da Bahia. Para proteger os membros da equipe e, principalmente, os moradores locais, a atividade teve de ser suspensa durante a crise da covid-19. Nesse contexto, diante da gravidade da situação e buscando ajudar a prevenir a contaminação pelo coronavírus, a empresa desenvolveu outra tecnologia: o Aquapluvi, que funciona como uma pia pública.

Trata-se de um dispositivo para coleta e tratamento da água da chuva que pode ser implementado em telhados, como em pontos de ônibus, onde há grande fluxo de pessoas. A água, depois de filtrada, fica armazenada no dispositivo e pode ser utilizada pela população de rua ou qualquer outra pessoa que esteja passando pelo ponto. Acoplado à estrutura, há um dispenser de sabão, possibilitando a lavagem das mãos e a prevenção de doenças, como a covid-19.

Jovem ambientalista

A jovem Valentina: ainda na escola e preocupada com o meio ambiente(foto: Arquivo Pessoal)
A jovem Valentina: ainda na escola e preocupada com o meio ambiente (foto: Arquivo Pessoal)

 

A sueca Greta Thunberg, 17 anos, ganhou fama mundial defendendo o meio ambiente. No Brasil, também há jovens engajados com essa defesa. É o caso de Valentina Ruas, 16, que faz parte do movimento ligado a causas ambientais Fridays For Future (FFF). Inicialmente, ela era integrante do Jovens pelo Clima BSB, que se juntou ao movimento internacional FFF este ano. Amante da natureza desde criança, foi a partir de uma simulação da Conferência do Clima das Nações Unidas, em 2017, que a estudante começou a pesquisar mais sobre o assunto.

“Eu tive a real noção da complexidade da emergência climática e comecei a me envolver na pauta, até que entrei para o Jovens pelo Clima”, relembra. Valentina, que cursa o 3º ano no ensino médio no Centro Educacional Sigma, conta que os integrantes do FFF têm trabalhado bastante para que o movimento não perca engajamento durante o período de isolamento social. “A gente estava planejando várias atividades legais, mas, infelizmente, tivemos de suspendê-las”, lamenta. “Mas estamos nos adaptando ao ativismo digital, fazendo greves e campanhas on-line”, acrescenta.

Há cerca de um mês, os jovens do Fridays For Future estão empenhados em uma campanha para arrecadar fundos para as comunidades tradicionais da Amazônia e para a população de Manaus diante da crise do coronavírus. Quando terminar o ensino médio, Valentina pretende cursar relações internacionais, sem deixar de lado o envolvimento com o meio ambiente. “Penso em pesquisar sobre refugiados climáticos, mostrando como a degradação ambiental afeta as relações humanas.”

Quarentena e estudo e trabalho

Desde que começou a quarentena, a rotina de Valentina tem sido puxada. “Parece que estou mais ocupada do que quando estava indo à escola”, afirma. Ela divide o tempo entre as aulas on-line e as reuniões do Fridays For Future. “Tem sido difícil, mas está dando certo”, diz. “É um desafio muito grande fazer nosso ativismo virtualmente. Estamos gastando muito tempo nisso. Fazemos reuniões todos os dias, às vezes, de cinco horas de duração”, relata. “Quando trabalhamos remotamente, não temos muita distinção entre horário de descanso e horário de trabalho”, acrescenta. Ela conta que, pelas manhãs, assiste às aulas e estuda e, pelas tardes, dedica-se ao FFF.

O “novo normal” para Valentina Ruas
“Eu sou realista. Sei que algumas pessoas podem ter uma visão diferente sobre a exploração da natureza depois dessa crise, mas outras vão continuar exatamente com a mesma visão. E a gente vai ter que conciliar isso sempre. Mas acredito que essa situação abrirá caminhos para novas discussões sobre a preservação do meio ambiente.”

Referência no mundo artístico

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%u201CAs minhas conquistas são baseadas nisto: desafiar estatísticas previstas para nosso corpo feminino e preto%u201D, pondera a modelo Aisha (foto: Reprodução/Instagram)

Em 2018, a brasiliense Aisha Mbkilia, 22 anos, teve o nome listado na edição brasileira da Forbes Under 30. Nascida em berço artístico, Aisha é modelo, DJ, atriz, diretora, produtora e dançarina. Ela recorda-se da infância no Plano Piloto, onde cresceu com a mãe e a avó, e teve o primeiro contato com o mundo do esporte e da arte. “Não me lembro de a arte não estar presente na minha vida. Por estar em mim, mas também porque minha família me proporcionou isso”, relembra.

A avó, professora aposentada da rede pública, tem um ateliê de moda étnica há 30 anos, onde Aisha teve o primeiro contato com o segmento. Na escola, não era diferente. “Lembro-me de, muito pequena, estudar no Canarinho e ter aulas de criatividade. Era um segmento teatral, isso já me trouxe outra visão desde muito novinha”, conta. Durante a infância, Aisha praticou ginástica rítmica, ginástica acrobática, nado sincronizado e capoeira. Na adolescência, fundou a companhia de dança Ashantis Negras com um grupo de amigas.

Aos 17 anos, a modelo decidiu se mudar sozinha para São Paulo, em busca de apoio para seu trabalho. “Esse processo foi muito doloroso. Sair da minha cidade, onde minha essência foi criada, para ir para a Babilônia que é São Paulo”, diz. “Em Brasília, até existe esse suporte, mas é uma cidade mais nova. As coisas que acontecem em São Paulo acontecem em Brasília em outra escala. Eu preferi esse caminho, porque tive pressa”, confessa. Aisha conta que a vivência que teve com a mãe e a avó a fez amadurecer cedo.

Por isso, a idade não foi uma barreira tão significativa. “Elas me levavam a grandes conferências, fóruns mundiais, marchas das mulheres negras. Eu estava em lugares onde crianças normalmente não estão”, relembra. “Isso me trouxe tal maturidade que, quando cheguei a São Paulo, as pessoas nem sabiam a minha idade. Isso não era um assunto”, frisa. Na capital paulista, Aisha cursou teatro e, paralelamente, começou a receber diversas propostas de trabalho.

Ela destaca a vez em que compôs um jingle para a primeira deputada estadual transexual do Brasil (Erica Malunguinho, por SP) e a participação em uma campanha global da Nike como única brasileira. “Estou fazendo uma criança preta que nunca se vê representada pensar ‘caramba, eu posso ser modelo’. Porque a realidade é essa, a gente não se vê. E o Brasil é um país com mais de 50% não branco”, afirma. “As minhas conquistas são baseadas nisto: desafiar estatísticas previstas para nosso corpo feminino e preto”, acrescenta.

De acordo com a modelo, é senso comum pensar que pessoas negras sempre têm “uma história horrível” para contar, mas a dela não é de sofrimento. “Eu vim de outro background. Eu vim de Brasília, do Plano Piloto. Isso também é política, é a conquista de esmagar estatísticas.” O conselho dela para jovens alcançarem sonhos profissionais é, antes de tudo, ter persistência. “Eu fui e voltei para São Paulo várias vezes no primeiro ano, às vezes duas vezes por semana”, conta. “Não que eu seja um exemplo de persistência, mas ela é a primeira coisa. O não a gente já tem”, brinca.

Seja autêntico

O segundo conselho da modelo é manter a individualidade em qualquer circunstância. “A gente pensa duas vezes antes de contrariar algo do trabalho por medo. Mas nossos valores são o mais importante”, diz. Ela se lembra de quando escutou um comentário transfóbico no trabalho, durante uma seleção de elenco, e decidiu comunicar ao diretor. “Existe uma hierarquia no cinema e ninguém fala com o diretor. Mas eu fui lá e falei ‘você vai ter que parar o ser agora’. Eu nunca posso deixar uma transfobia passar em branco.”

Isso vale também para os jovens que estão em época de decidir que carreira seguir. “Eu vejo os alunos que estão prestes a se formar ou que vêm de uma cidade como a nossa seguindo o formato que o pai mandou”, comenta. “Eu poderia ver as mães das minhas amigas da escola rindo da minha escolha e ir fazer um cursinho para entrar na UnB. Se é isso que você quer, tudo bem, vá para a UnB, mas não se prenda”, acrescenta. “Eu vim para São Paulo, mas eu quero o mundo. Este é só o começo.”

Tempo de reflexão

Para Aisha, a quarentena tem sido momento de se reorganizar e se reinventar. “Com o tempo, a gente vai tentando manter uma rotina. Estou fazendo aulas de dança e atividades físicas em casa. Tenho cozinhado mais e melhor, revisitado o consumo e refletido muito”, conta.

O “novo normal” para Aisha Mbkilia
“O novo normal é um termo que me deixa bem misturada, porque muitas vezes o novo normal não é, de fato, novo. Eu vi a Vogue fazendo uma capa com a Gisele Bündchen falando sobre o novo normal. Ela representa 500 anos de um padrão branco e eurocêntrico determinando o que é o novo normal. A gente tem vários momentos enquanto jovem negro no Brasil. Por exemplo, ao mesmo tempo em que há várias vitórias acontecendo na minha vida pessoal, existe sempre o racismo para mostrar outra realidade. Ao mesmo tempo que a gente tem uma quarentena ‘ok’, o genocídio da população negra ainda acontece, e isso me deixa inquieta.”

 
*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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