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Sonho interrompido na Nicarágua: conheça a história de Raynéia Gabrielle

Raynéia Gabrielle havia conquistado há poucos meses o sonho de infância de se tornar médica e foi morta a tiros quando voltava de um plantão no hospital

Alice de Souza/Diário de Pernambuco
postado em 25/07/2018 09:37
Raynéia Gabrielle Lima, estudante de medicina brasileira morta na Nicarágua por paramilitares
;Ontem foi o pior dia da minha vida. Não consegui dormir. Era tiro, bomba, grito. Uma sequência. Tiro, bomba, grito. Eu tentava dormir, não sabia o que fazer. Tomei calmante natural para ver se eu conseguia me acalmar e nada.; Era 14 de julho quando a residente de medicina pernambucana Raynéia Gabrielle Lima, 30 anos, enviou a um amigo um áudio detalhando mais uma noite de conflitos em Manágua, na Nicarágua. Da casa onde vivia, a guerra travada entre policiais e estudantes parecia muito perto. Por algumas vezes, Raynéia relatou o medo aos familiares. Segunda-feira à noite, ela se transformou em uma vítima do confronto.

Raynéia voltava para casa depois de mais um dia de plantão como residente de medicina no Hospital Carlos Roberto Huembes da Polícia Nacional do país. Estava em seu carro, o namorado vinha atrás em outro, quando foi alvejada. ;Ela foi ferida no peito e afetou o coração, o diafragma e parte do fígado;, explicou ao jornal El Nuevo Diario o reitor da Universidade Americana (UAM), Ernesto Medina. Segundo ele, os disparos foram realizados por um grupo de paramilitares pró-governamentais.

O informe oficial da Polícia Nacional, entretanto, diz que ;um guarda da vigilância privada, em circunstâncias ainda não determinadas, realizou disparos de arma de fogo, um dos quais a atingiu, provocando feridas;. Raynéia ainda chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital. Moradores do bairro onde ocorreu o crime disseram ter ouvido duas rajadas de tiros.

Há cinco anos na Nicarágua, Raynéia foi a terceira estrangeira morta nos confrontos que ocorrem no país desde abril. Ela havia se mudado do Brasil para realizar o sonho de infância de ser médica.

Mãe pede justiça

Quando o telefone tocou ontem, às 7h30, o coração da enfermeira aposentada Maria José da Costa, 55 anos, parecia avisar. Alguma coisa tinha acontecido com sua filha única. ;Me deu aquele aperto. Por que fizeram isso com a minha filha? Ela vivia de casa para o hospital. Não se envolvia em nenhum protesto. Não importa o país, pode ser até no fim do mundo, mas eu quero justiça;, disse ela ao Diario, entre lágrimas.

Raynéia havia terminado a faculdade em dezembro. Estava na residência e pretendia voltar ao Brasil em março de 2019. Ela tentou vestibular no Recife duas vezes, mas ficou no remanejamento. Como os ex-sogros moravam na Nicarágua, decidiu cursar medicina por lá. ;Desde os cinco anos, ela dizia que queria ser doutora. Sempre acompanhava meus plantões. Era o sonho dela tirar a dor do próximo. E ele foi interrompido.;

A última vez em que esteve em Pernambuco foi no fim de 2014. ;Ela contava que a Nicarágua estava um caos, que era melhor estar no hospital do que em casa. Eu dizia para ela ter cuidado;, comentou Maria José. ;É uma dor muito grande, pois é uma morte que não se justifica. Estamos sem chão, perplexos;, disse o tatuador Iapona Pedroza, 46, amigo e padrinho de casamento de Raynéia.

Governo brasileiro quer explicações

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que o governo brasileiro recebeu com profunda indignação a morte. O órgão condenou o caso e disse que está buscando esclarecimentos junto ao governo nicaraguense. ;O governo brasileiro torna a condenar o aprofundamento da repressão, o uso desproporcional e letal da força e o emprego de grupos paramilitares em operações coordenadas pelas equipes de segurança;.

O Itamaraty chamou, para consultas, o embaixador brasileiro na Nicarágua, Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos. A embaixadora da Nicarágua no Brasil, Lorena Del Carmen, também foi convocada para prestar esclarecimentos.

A Nicarágua enfrenta uma onda de protestos desde 18 de abril, em função da reforma da previdência anunciada pelo presidente Daniel Ortega. Cerca de 360 pessoas já foram mortas, a maioria civis. (Colaborou Uriel Velásquez, El Nuevo Diario - Nicarágua)

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