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Correio Braziliense

Ao menos 56 pessoas morrem em tumulto durante funeral de Soleimani no Irã

O funeral do general Qasem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária do Irã, reuniu milhares de pessoas inflamadas nas ruas de Kerman


postado em 07/01/2020 07:42 / atualizado em 07/01/2020 16:02

Maré humana rende homenagens ao general assassinado pelos Estados Unidos: o luto manchado pelo ódio (foto: Atta Kenare/AFP)
Maré humana rende homenagens ao general assassinado pelos Estados Unidos: o luto manchado pelo ódio (foto: Atta Kenare/AFP)
Ao menos 56 pessoas morreram em um tumulto registrado nesta terça-feira (7), em Kerman, ao sudeste do Irã, onde é celebrado o funeral do general Qassem Soleimani, acompanhado de milhares de iranianos - informaram fontes oficiais. 

 

De acordo com o chefe do Instituto Médico Legal de Kerman, Abbas Amian, "mais de 50 pessoas morreram". 

 

Já a agência Isna, citando o chefe do serviço de emergência da cidade Mohammad Sabéri, 212 pessoas ficaram feridas, "incluindo um pequeno número em estado grave".

 

O diretor do hospital Bahonar, no centro da cidade, informou que recebeu 13 corpos. Uma família em luto esperava no hall, onde uma lista de nomes de vítimas foi afixada. 


O funeral do general Qasem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, reuniu milhares de pessoas. “Abaixo os Estados Unidos, morte à América” e “Vingança”, gritava a multidão, em meio a cartazes com fotos do militar assassinado pelos EUA logo após desembarcar em Bagdá, na madrugada de sexta-feira.

Uma imagem carregada de simbolismo viralizou nos sites e agências de notícias: ao fazer uma prece diante dos caixões de Soleimani e de Abu Mehdi Al-Muhandis (vice-chefe da milícia iraquiana Hashd Al-Shaabi), o aiatolá Ali Khamenei, guia supremo do Irã, foi flagrado derramando lágrimas.

O presidente iraniano, Hassan Rouhani, emitiu um alerta ao homólogo norte-americano, Donald Trump: “Nunca ameace a nação iraniana!”. Em Washington, crescem as críticas em relação à legalidade do ataque a drones que matou o general, e a Câmara dos Representantes articula uma resolução para limitar as ações militares autorizadas por Trump. Os deputados pretendem exigir a interrupção das hostilidades militares do governo em relação ao Irã em um prazo de 30 dias.

Morador de Teerã, o estudante iraniano Alireza Khaghani, 19 anos, se uniu ontem aos protestos. “Não foi apenas uma rua ou um bairro; a capital estava cheia de pessoas iradas com o terror imposto pelos EUA”, contou ao Correio. “Quero esclarecer uma coisa: no Irã, ninguém é belicista. Somos honrados e não permitiremos que ninguém nos insulte ou ameace nosso patrimônio. Toda a população exige vingança do governo. Trump disse que atacará 52 alvos no Irã, inclusive sítios culturais. Se ele cometer este erro, nós alvejaremos os EUA em número de versos do Corão (6.536)”, acrescentou.

O também estudante Mohammad Mahdi Ghahraman, 22, aposta que o governo começará a eliminar ativos militares dos EUA e dos aliados no Oriente Médio. “A melhor resposta de cada pessoa que via o general Soleimani como uma grande pessoa é trabalhar para ser como ele. O nosso objetivo será expulsar todos os aspectos das políticas imperialistas e capitalistas da nossa região”, disse à reportagem.

Iranianos protestam após a morte do general iraniano. Qassem Soleimani era considerado um herói nacional (foto: Atta Kenare/AFP)
Iranianos protestam após a morte do general iraniano. Qassem Soleimani era considerado um herói nacional (foto: Atta Kenare/AFP)
Por sua vez, o programador de computação Omid Bakhtiyari, 26, cobra “vingança por um homem que forneceu segurança ao Irã durante 40 anos”. “Eles (os EUA) destruíram um herói nacional. O Oriente Médio não mais estará a salvo, pois foi ele quem eliminou o Estado Islâmico. Queremos sangue, não apenas de cidadãos comuns, mas também do Exército americano. Além da completa retirada militar do Oriente Médio.”

A presença em Teerã de Ismail Haniyeh, líder político do movimento fundamentalista palestino Hamas, causou furor na população. Zeinab, filha de Qasem Soleimani, emocionou a multidão e fez um discurso ácido contra Washington. “Trump, estúpido, símbolo da estupidez e joguete nas mãos do sionismo (Israel), não pense que, com o martírio do meu pai, tudo terminou”, advertiu. O corpo do general será sepultado, hoje, em Kerman (sudeste), depois de uma cerimônia no santuário xiita de Qom.

Ontem, em resposta à decisão do Irã de descartar limites para o enriquecimento de urânio, Trump mandou um aviso às autoridades de Teerã. “O Irã jamais terá uma arma nuclear!”, escreveu, no Twitter, em letras maiúsculas.

Gafe

Horas depois de o Parlamento iraquiano aprovar resolução expulsando as forças americanas do país, os EUA cometeram uma gafe. O governo de Donald Trump divulgou um texto segundo o qual as tropas começariam a se retirar do Iraque “em deferência à soberania” da nação. O chefe do Estado-Maior, general Mark Milley, admitiu que o documento era um “rascunho genuíno” que não deveria ter sido publicado. “Não há qualquer decisão de abandonar o Iraque (...). Não adotamos a decisão de sair do Iraque. Ponto”, assegurou, por sua vez, Mark Esper, secretário de Defesa dos EUA.

Em entrevista ao Correio, o parlamentar iraquiano Sarkawt Shamsulddin, líder do Movimento Nova Geração, denunciou uma tentativa deliberada do Pentágono de causar confusão. “O anúncio e o desmentido da retirada militar também visaram mostrar que os EUA buscam reduzir as tropas em Bagdá para evitar confrontos com milícias xiitas em áreas mais sensíveis, como a Zona Verde”, afirmou.

Trump ameaçou impor “severas sanções” a Bagdá, em caso de expulsão de seus militares. “Nós temos uma base aérea extraordinariamente cara lá. Custou bilhões de dólares. Não vamos sair a menos que eles nos paguem”, avisou o republicano. O deputado iraquiano entende que sanções contra o Iraque representariam o fim do Iraque. “O meu país sofre uma condição econômica terrível. A nossa economia depende dos EUA e da comunidade internacional. Eu apoio um acordo pacífico e respeitoso com a Casa Branca. Não quero que meu país enfrente os Estados Unidos, mas sou contra os norte-americanos usaram o meu país contra o Irã”, disse  Shamsulddin.

Com informações da Agência France-Presse

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