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Ex-presidente Lula deixa sede do Sindicato no ABC e se entrega à PF

Após 26 horas da determinação do juiz Sérgio Moro, o ex-presidente Lula deixou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP) e deve seguir para Curitiba



O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP), na noite deste sábado (7/4), para se entregar à Polícia Federal. Momentos antes, militantes haviam impedido o petista de sair do prédio. No início da tarde, alguns carros começaram a sair do sindicato. Um deles levava Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo.

Antes da saída do ex-presidente, vários militantes se aglomeravam na saída lateral do prédio. Eles chegaram a formar um cordão humano em frente ao portão com o objetivo de impedir a saída de qualquer carro. Eles gritavam palavras de ordem como "cercar, cercar e não deixar prender" e "Lula fica aí, vamos resistir".

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O ex-presidente anunciou que se entregaria à PF durante um discurso ao fim da missa em homenagem à ex-primeira-dama Marisa Letícia, em São Bernardo do Campo. Foi a primeira vez que ele falou publicamente após a decisão do juiz Sérgio Moro. Com quase uma hora de fala, Lula se disse inocente e acusou Sérgio Moro, o Ministério Público, a Operação Lava-Jato e a mídia brasileira de quererem impedir a sua possível candidatura à Presidência da República em 2018.
Logo depois que o ex-presidente deixou o prédio do sindicato, houve confusão e empurra-empurra entre os manifestantes contrários à prisão e os seguranças de Lula.

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Luiz Inácio Lula da Silva chamou as acusações de mentirosas. "Se dependesse da minha vontade eu não iria, mas eu vou, porque eles vão dizer que eu estou foragido. Eu vou lá na barba deles para eles saberem que eu não tenho medo, saberem que eu vou provar minha inocência", afirmou.

Embora a missa tenha sido em homenagem à dona Marisa Letícia, a solenidade foi marcada mais por apoio dos aliados ao ex-presidente. Sem citar sua pré-candidatura à Presidência, o petista convocou os militantes a se tornarem "novos Lulas". "Não adianta eles acharem que vão fazer que eu pare. Eu não pararei, porque eu não sou um ser humano. Eu sou uma ideia", disse, aplaudido pela multidão. E terminou o discurso chamando ao seu lado os pré-candidatos do PSOL e do PC do B, Guilherme Boulos e Manuela D;Ávila, "jovens representantes da nova geração."

Na quinta-feira (5/4), o juiz Sérgio Moro, da 13; Vara Federal de Curitiba, determinou que o ex-presidente se apresentasse "voluntariamente" à Polícia Federal em Curitiba, base da Operação Lava-Jato, até às 17h. O juiz federal também deixou expresso que, em atenção à dignidade do cargo que ocupou está vedada a utilização de algemas ;em qualquer hipótese;.

Cela especial na sede da PF

A Polícia Federal (PF) de Curitiba preparou uma cela exclusiva para receber o ex-presidente. O plano é colocar Lula em uma sala adaptada na sede da PF, na capital paranaense, longe dos demais alvos da Lava-Jato, principalmente de nomes importantes como o ex-ministro Antonio Palocci e o empreiteiro e sócio da OAS, Aldemário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, que revelaram crimes envolvendo o ex-presidente em audiência ao juiz Sérgio Moro.

O petista também deve ter cerca de duas horas diárias de banho de sol e não receberá visita de familiares em conjunto com outros detentos, que, por costume, veem seus familiares todas às quartas em um espaço coletivo e ao mesmo tempo.

Pedidos de habeas corpus

A defesa dele entrou com mais um pedido de habeas corpus para evitar a prisão. O mais recente foi feito ao Supremo Tribunal Federal (STF) e negado pelo ministro Edson Fachin. O magistrado alegou o que o "cumprimento da pena constitui regra geral" para manter a ordem de prisão decretada na última quinta-feira (7/4) pelo juiz Sérgio Moro.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) também negou habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A solicitação foi indeferida pelo ministro Felix Fischer, da 5; Turma da Corte. Com isso, o mandado emitido pelo juiz Sérgio Moro, que dá prazo para que ele se entregue até às 17h desta sexta, continua em vigor.

Protestos pelo país

Lideranças do PT se reuniram em na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) para apoiar o petista desde o anúncio da decisão de Moro. O MST bloqueou rodovias no Mato Grosso, Bahia, Pernambuco, Pará, Paraná, Sergipe e Espírito Santo. De acordo com o coordenador do movimento Alexandre Conceição, a ideia era bloquear 50 BRs em 24 Estados, em protesto contra a decretação da prisão.

Em Brasília, uma repórter, uma fotógrafa e um motorista do Correio Braziliense foram agredidos em frente à sede da Central Única dos Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF), no Setor de Diversões Sul, no Plano Piloto. Pelo menos 30 manifestantes partiram para cima do carro do jornal, no qual estavam os profissionais, e quebraram um dos vidros do veículo.

Voto vencido no Supremo

O Supremo negou na quarta-feira (4/4) o pedido de habeas corpus preventivo de Lula, por 6 votos a 5. A ministra Rosa Weber, que ainda não tinha voto definido e era a última esperança entre os petistas, votou contra o ex-presidente. Foi preciso, então, que a presidente do STF, a ministra Cármen Lucia, votasse para desempatar o placar. Ela então fez a sua explanação e votou contra o HC de Lula. Lula foi condenado pelo juiz federal Sérgio Moro a nove anos e seis meses de prisão e pelo Tribunal Regional Federal da 4; Região (TRF4), que aumentou a pena para 12 anos e um mês na ação penal do tríplex do Guarujá (SP), na Operação Lava-Jato.

Trajetória de Lula em dez datas

A vida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi marcada de reviravoltas imprevisíveis. Da miséria do nordeste à presidência do Brasil, passando pela liderança das greves de operários contra a ditadura militar, Lula pode acabar sua trajetória atrás das grades, por acusações de corrupção e lavagem de dinheiro.

Confira as principais datas que marcaram a vida de Lula:


27 outubro de 1945: nasce em uma família de agricultores pobres em Caetés, interior de Pernambuco. Assim como outros retirantes, sua família saiu dali quando ele tem sete anos, rumo a São Paulo, para fugir da fome.

1975: torna-se presidente do sindicato dos metalúrgicos, representando colegas da profissão que exerce desde os 14 anos.

1978-80: lidera as grandes greves na região industrial paulista, em plena ditadura (1964-1985). É preso durante 31 dias.

1980: cofundador do Partido dos Trabalhadores (PT). Participa, em 1983, da criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

1; janeiro de 2003: torna-se o primeiro presidente brasileiro de origem operária. É reeleito em 2006. Graças a seus programas sociais, 29 milhões de brasileiros saem da miséria, apesar de o país permanecer muito desigual.

2005: decapita a direção do PT depois dos escândalos de corrupção do ;Mensalão;.

Março de 2016: no dia 4, o juiz federal de primeira instância Sérgio Moro, de Curitiba, determina levar Lula a prestar depoimento em condução coercitiva, no âmbito das investigações da Operação ;Lava Jato; sobre um esquema de corrupção montado na Petrobras. Residências de pessoas vinculadas a Lula são revistadas. No dia 17, o juiz federal do Distrito Federal Itagiba Catta Preta Neto suspende a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff, ainda na Presidência, sob o pretexto de que sua entrada no governo só visava a assegurar-lhe o foro privilegiado, protegendo-o da Justiça comum. O juiz diz ter agido para preservar a harmonia entre os poderes, evitando interferências no Judiciário.

12 de julho de 2017: o juiz Moro condena Lula a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por ter se beneficiado de um apartamento tríplex no Guarujá, litoral de São Paulo, oferecido pela empreiteira OAS, investigada na ;Lava Jato;, em troca de mediação para obter contratos na Petrobras.

24 de janeiro de 2018: o Tribunal Regional Federal da 4; Região (TRF4), um tribunal de segunda instância, confirma a sentença e eleva a pena a doze anos e um mês de reclusão. Em 26 de março, rejeita as últimas objeções apresentadas pela defesa de Lula.

5 de abril de 2018: O Supremo Tribunal Federal (STF) nega o habeas corpus preventivo que permitiria a Lula recorrer em liberdade nas máximas instâncias judiciais do país (terceira instância e o próprio STF) de sua pena de doze anos e um mês de prisão.

7 de abril de 2018: Lula faz discurso durante missa em homenagem a mulher dele, Marisa Letícia, e afirma que vai se entregar à PF, fazendo duras críticas ao Judiciário.

Com informações da France Presse