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Correio Braziliense

Opinião: em breve, os próximos capítulos da Lava-Jato

Muitos que viam a operação como "adormecida", focada apenas nos desmandos da turma de Sérgio Cabral no Rio, agora enxergam a ação da força-tarefa do Ministério Público de outra forma, com outros nomes de peso do governo e do Congresso passado sob risco de parar na cadeia


postado em 22/03/2019 06:00 / atualizado em 22/03/2019 14:44

(foto: Mariana Mendez/AFP/BANDTV)
(foto: Mariana Mendez/AFP/BANDTV)
 Com o ex-presidente Michel Temer na cadeia, vale voltar um pouco no tempo. Até a Sexta-Feira da Paixão de 2018. Em uma mesa de um renomado restaurante de cozinha italiana no Lago Sul, um então ministro e três assessores conversam sobre a prisão do coronel João Batista Lima, amigo de Temer, preso na véspera daquele dia durante a Operação Skala, que investigou pagamentos milionários no setor portuário. "O problema não é agora. A situação ficará complicada daqui a um ano, quando ninguém tiver mais o foro privilegiado. Vamos enfrentar o mesmo furacão que o PT passou", cravou o ministro do MDB.

Regada a um bom vinho de corpo médio para acompanhar o filé de peixe com risoto de limão, a principal sugestão do cardápio daquela tarde de 30 de março, a conversa antecipava o que ocorreria 358 dias depois. As prisões de Temer e de mais nove pessoas, entre as quais o ex-ministro Moreira Franco, casado com a sogra do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, caíram como uma bomba em Brasília. Sacudiram não só o Congresso, mas também vieram em um bom momento para o governo de Jair Bolsonaro, que enfrenta uma crise de relacionamento com o Parlamento.

Depois das críticas do presidente da Câmara ao projeto anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, é esperada uma nova reação da classe política contra a Lava-Jato — ontem até mesmo parte da esquerda, adepta da tese do golpe para tirar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da disputa presidencial do ano passado, apontou "arbitrariedades e interesses" na prisão de Temer. A CPI da Lava Toga, em gestação no Congresso para investigar o "ativismo judicial", é outro ponto que deve ter atenção especial nos próximos dias.

De resto, fica a certeza de que a reforma da Previdência ficará em segundo plano: o anúncio do relator da proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) acabou adiado e a incerteza política tomou conta da capital federal. A prisão de Temer acionou o sinal de alerta das excelências. Muitos que viam a Lava-Jato como "adormecida", focada apenas nos desmandos da turma de Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, agora enxergam a ação da força-tarefa do Ministério Público de outra forma, com outros nomes de peso do governo e do Congresso passado sob risco de parar na cadeia. Em breve, os próximos capítulos.

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