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Correio Braziliense

Demissão do ministro Santos Cruz do governo era uma queda anunciada

Alvo de ala ideológica do governo, ele dará lugar ao general da ativa Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira


postado em 14/06/2019 06:00 / atualizado em 14/06/2019 09:00

(foto: Alan Santos/PR)
(foto: Alan Santos/PR)
O ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, Santos Cruz, não resistiu à fritura interna do governo, rachado entre as alas ideológica e militar, e se tornou, nesta quinta-feira (13/6), o terceiro ministro de Estado demitido pelo presidente Jair Bolsonaro. Sem dar quaisquer esclarecimentos, por nota ou na tradicional transmissão ao vivo de quinta-feira (13/6), nas redes sociais, o chefe do Executivo federal definiu o general Luiz Eduardo Ramos como o sucessor na pasta, que estará sob o terceiro comando em menos de seis meses de mandato.

A primeira baixa do governo foi Gustavo Bebianno, ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral. Ele se tornou o centro de uma das primeiras crises do governo, após denúncias de um esquema de candidaturas laranjas do partido. A segunda mudança foi no Ministério da Educação, com a saída de Ricardo Vélez Rodríguez. Na primeira situação, Bolsonaro justificou a saída à falta de confiança. Na segunda, atribuiu a reclamações feitas ao educador. Em relação a Santos Cruz, não deu explicações.

O general Santos Cruz não caiu por falta de confiança de Bolsonaro ou por acumular reclamações, sobretudo no Congresso. Pelo contrário. O agora ex-titular da pasta era um conselheiro e o ministro palaciano mais respeitado no parlamento. A queda dele é associada, por pessoas do governo e de dentro do próprio Planalto, à disputa entre militares e seguidores do guru Olavo de Carvalho, nos quais se incluem os filhos do presidente, em especial o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), além de, perifericamente, o secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten.

A saída de Santos Cruz foi discutida, nesta quinta-feira (13/6), pessoalmente com Bolsonaro. O general não pediu para sair. Foi uma decisão do próprio presidente. A partir dali, a informação começou a ser transmitida a assessores mais próximos. Interlocutores admitem que as desavenças com Olavo de Carvalho e com os filhos de Bolsonaro tiveram influência, mas as disputas internas com Wajngarten geraram peso maior.

O motivo da queda está ligado ao maior controle que Santos Cruz vinha exercendo sobre áreas vitais do governo criticadas em outras administrações, como a gestão da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), além de contratos da Secretaria de Comunicação, chefiada por Wajngarten. Pessoas próximas de Santos Cruz dizem que o secretário não quis se subordinar às diretrizes e normas estabelecidas pelo general, de ter maior controle sobre as atividades e ações.

Disputa

A sugestão de patrocinar blogs da direita, ligados aos filhos de Bolsonaro e aliados mais próximos, foi um dos principais motivos do clima de guerra em que viveram no Planalto nos poucos mais de dois meses de convivência direta, uma vez que a Secom está vinculada à Secretaria de Governo. Wajngarten sugeriu que os blogs fizessem a divulgação da reforma da Previdência em contratos estimados em cerca de R$ 80 milhões, disse um interlocutor ao Correio. O agora ex-ministro aceitaria pagar apenas a metade disso. Dali, começou o confronto entre os dois.

 

O general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, comandante militar do Sudeste, é amigo do presidente Bolsonaro desde 1973(foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo - 27/7/18 )
O general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, comandante militar do Sudeste, é amigo do presidente Bolsonaro desde 1973 (foto: Werther Santana/Estadão Conteúdo - 27/7/18 )


Na despedida, Santos Cruz divulgou uma carta agradecendo a todos os servidores da Secretaria de Governo “pela dedicação, capacidade e amizade com que trabalharam”. Sobraram elogios também aos parlamentares, com destaques para os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Também agradeceu aos governadores, prefeitos, à imprensa, às autoridades do Judiciário, do Ministério Público, do Tribunal de Contas da União (TCU), às diversas instituições e organizações civis, e, por fim, a Bolsonaro e “familiares”, aos quais desejou “saúde, felicidade e sucesso”.

Análise da notícia

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Para se ter uma rápida ideia da capacidade operacional de Carlos Alberto dos Santos Cruz, o principal relatório sobre missões de paz das Nações Unidas (ONU) leva o nome do general. O documento faz uma série de recomendações e é seguido à risca pelos boinas-azuis, como são conhecidos os integrantes da organização que atua em regiões conflagradas pela violência de grupos terroristas.

Um dos principais integrantes do governo de transição, Santos Cruz foi confirmado ministro da Secretaria de Governo ainda em novembro do ano passado. Em dezembro, em entrevista exclusiva ao Correio, o general disse que existiam gangues no serviço público, citando os escândalos do Rio e da Petrobras. Ali, parecia confortável e disposto a enfrentar os desafios no horizonte. “A porta de entrada é aqui (na secretaria). Os grupos têm de se sentir com liberdade: MST, ONGs, gays, Fiesp, OAB, índios, todos”.

Santos Cruz iniciou a carreira militar ainda em 1968, chegando a comandar as forças da ONU no Haiti e no Congo. Antes de se tornar ministro, foi secretário nacional de Segurança Pública no governo Michel Temer. Na gestão Bolsonaro, acabou envolvido em crises diretas com os filhos do capitão reformado e, algo inimaginável para ele e os próprios militares, com o guru Olavo de Carvalho. Mesmo tendo permanecido no cargo, nos últimos dias, mostrava desconforto com os inimigos que teve de enfrentar no Planalto.

Santos Cruz, possivelmente o melhor dos quadros militares do governo Bolsonaro, deixa o governo depois de uma batalha inglória, em que a capacidade operacional do combatente nunca esteve em jogo.

 

Compromisso de “cumprir missões”

O Comando Militar do Sudeste emitiu uma nota para informar que o comandante do órgão, general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, recebeu a indicação do presidente Jair Bolsonaro para a Secretaria de Governo por meio do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol, e que mantém o compromisso de “cumprir as missões” impostas. “O general Ramos mantém o seu compromisso de soldado em cumprir as missões que lhes são impostas pelo Comandante do Exército”, diz a nota. A manifestação detalha que Bolsonaro propôs a indicação ao ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, que, por sua vez, transmitiu a informação ao comandante do Exército.

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