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Correio Braziliense

''Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira'', diz Bolsonaro

O presidente esteve reunido com a imprensa estrangeira em um café da manhã nesta sexta-feira (19/7).


postado em 19/07/2019 11:22 / atualizado em 19/07/2019 19:26

(foto: Marcos Correa/AFP)
(foto: Marcos Correa/AFP)

Em um café da manhã com jornalistas da imprensa estrangeira nesta sexta-feira (19/7), o presidente Jair Bolsonaro disse que "falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira". A frase foi dita após uma repórter perguntar quais eram as medidas do governo para combater o aumento da fome no Brasil. 

 

"Passa-se mal, não se come bem, aí eu concordo. Agora, passar fome, não. Você não vê gente, mesmo pobre, pelas ruas, com físico esquelético, como a gente vê em alguns outros países pelo mundo", afirmou o presidente. 

 

Logo em seguida, Bolsonaro criticou as políticas dos governos anteriores e a criação de bolsas. "É o país das bolsas", afirmou. "O que faz tirar o homem da miséria ou a mulher é o conhecimento", completou. 

 

O chefe do Executivo ainda disse que as medidas tomadas anteriormente eram medidas populistas, para ganhar simpatia popular. "O que nós temos que fazer, Poder Executivo e Legislativo, que em grande parte um depende do outro, é facilitar a vida do empreendedor, de quem quer produzir", sugeriu. "E não fazer esse discurso voltado para a massa da população", afirmou. 

 

O encontro foi transmitido pelo presidente pelo Facebook, em uma live. 

Fome no Brasil  

Em série de reportagens sobre o Plano Real, o Correio mostrou que os ganhos sociais retrocederam depois da crise econômica e mais pessoas passaram a viver em situação de miséria. Em 2018, estudo feito pelo pesquisador Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostrou que a pobreza atingiu 23,3 milhões de pessoas.  

 

Por conta da crise econômica, agravada em 2014, o índice voltou a subir fortemente. Só em 2015, a vulnerabilidade subiu 19,3% no Brasil, agregando mais 3,6 milhões de pessoas. É o caso de Tatiana de Oliveira Silva.  Mãe de cinco filhos, aos 29 anos já trabalhou em lavouras, reciclagem e também como doméstica. Mineira de São Francisco, conta que chegou há três meses no Distrito Federal em busca de uma vida melhor. Ela não tem com quem deixar as crianças e há pelo menos cinco anos está desempregada. Parou de estudar na 5ª série. 

 

Enquanto os filhos mais velhos de 12 e 10 anos vão à escola, ela se divide nos cuidados da casa e dos filhos menores, Miguel, 5 anos, Kaleb, 6 anos e Deivid, de apenas 8 meses. Os sete e o cachorrinho de estimação da família compartilham três cômodos ainda mal acabados, na casa sem pia e reboco e de chão irregular. Os poucos móveis, encontrados no lixo ou doados, somam apenas um sofá, três camas, uma rack, uma tv de tubo antiga, um berço desmontável que serve de guarda roupas, um fogão velho, um banco de palha e umas poucas panelas e talheres. 

 

Em um deles, quatro crianças se dividem entre dois colchões de solteiro para dormir. O bebê, dorme com a mãe e o pai, na cama maior.

 

O marido, recebe cerca de R$ 1 200 com o trabalho de servente que conseguiu recentemente. Também trabalhava com reciclagem. Dentre as contas mensais, está o aluguel, no valor de R$ 150,00, além de água, luz e as compras do mês, que somam R$ 400,00 para as sete bocas.

 

As crianças quase não têm brinquedos e a TV antiga não funciona por falta de um conversor digital. Tatiana também não sabe se o fogão velho e sem tampa que encontraram no lixo funciona, pois não teve dinheiro para comprar gás. A comida, quando tem, é feita na área externa da casa, em um fogão de lenha improvisado.

 

Os irmãos não veem uma fruta, iogurte ou um biscoito doce há dias. Quando questionado sobre o prato que a mãe faz que mais gosta de comer, Kaleb, o mais velho presente naquele momento na casa respondeu, contrariando a fala de crianças da mesma idade, mas em situação diferente da dele: “Macarrão instantâneo”.

 

O termômetro que Tatiana utiliza para explicar que as coisas ficaram mais caras, se baseia no preço do pão e do feijão: “Antes, com R$ 5,00 conseguia comprar duas sacolas de pão. Agora, vem pouco. Um para cada um e olhe lá. Hoje, nem o feijão dá pra comprar com 5 reais porque está mais de R$ 8 o pacote. A sardinha também aumentou. E até o miojo que é o que a gente mais consome, antes era 60 centavos e já encontra a R$ 2”, compara.

 

“A gente passa aperto direto. Falta alimento. Carne é uma vez só no mês, quando recebe. Essa semana mesmo, faltou feijão. Às vezes, falta o arroz. Às vezes a gente recebe doações da igreja. É o que ajuda. Mas o meu sonho é trabalhar de carteira assinada. O ruim é conseguir creche. Tentei escola para os outros dois maiores, mas não tem vaga aqui e os dois que estudam percorrem um longo caminho a pé”, conclui, mostrando a dura vida que os filhos enfrentam desde cedo. 

 

 

 

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