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Correio Braziliense

Marcos Pontes: ''Prefiro trabalhar a ficar cacarejando''

Em entrevista, o ministro de Ciência e Tecnologia detalha a reformulação de toda a pasta a fim de colocar o país na rota da inteligência artificial, e aponta outros detalhes para os próximos anos de governo


postado em 09/10/2019 06:00 / atualizado em 10/10/2019 12:42

Apesar das dificuldades orçamentárias, o ministro da Ciência e Tecnologia mantém o otimismo e tem planos ambiciosos(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Apesar das dificuldades orçamentárias, o ministro da Ciência e Tecnologia mantém o otimismo e tem planos ambiciosos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Buzz Lightyear, o famoso astronauta do desenho Toy Story, tinha como lema “ao infinito e além”. Marcos Pontes, o ministro de Ciência e Tecnologia do governo de Jair Bolsonaro, não é muito diferente. Sua meta é colocar o Brasil entre os 20 países mais inovadores do mundo e fazer da nação uma potência no lançamento de satélites. “Se eu não tivesse grandes metas, se eu nunca tivesse grandes objetivos, eu nunca chegaria ao espaço. Então, temos que colocar objetivos grandes”, garante. 

Nesta entrevista, concedida nesta terça-feira (8/10) pela manhã no ministério, ele detalha a reformulação de toda a pasta a fim de colocar o país na rota da inteligência artificial, promover o uso da Base de Alcântara, expandir a cobertura de internet a todas as regiões do Brasil, incrementar os centros de inovação, concluir o acelerador de partículas, e, de quebra, criar um instituto de pesquisas oceanográficas, algo que o Brasil ainda não tem. 

Com as dificuldades orçamentárias, o único brasileiro que já foi ao espaço manteve os pés fincados no chão nesses primeiros nove meses de governo, em que não faltaram altos e baixos, em especial, quando viu os recursos que garantem o custeio das bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) se esgotarem em setembro, mesmo com os constantes alertas de que o dinheiro iria acabar uma hora. “Às vezes, eu me sinto falando no deserto, pois a gente precisa motivar os jovens para as carreiras de ciência e tecnologia”, diz. 

Agora, mais tranquilo, com a pasta reestruturada, ele já tem inclusive datas para algumas das metas. Espera, por exemplo, ver a Base de Alcântara funcionando em 2021. Ele acredita que, este ano, o Congresso aprova o acordo de salvaguardas tecnológicas, depois, será mais um período para definição de modelo de negócios com o empresariado nacional e internacional e comunidades locais. Passada essa fase, que deve levar de seis meses a um ano, chega-se à de execução e lançamentos propriamente ditos. 

A conversa com jornalistas convidados se deu antes da sanção do novo marco regulatórios das telecomunicações, no Planalto, uma das apostas do governo para ampliar o acesso à internet aos pontos mais remotos do país. “Eu queria primeiro organizar as coisas em vez de ficar cacarejando antes do ovo. Primeiro, queria ter as coisas feitas e ter coisas para falar. Por isso, esperei um tempo. Vamos começar a aparecer mais. É um ministério que tem a capacidade enorme de ajudar o país e outros ministérios. É o jeito que eu gosto de trabalhar. Eu vou fazendo as coisas e, quando estão prontas, eu entrego, porque ficar falando antes, às vezes, não dá certo”, destaca Marcos Pontes. A seguir os principais trechos da entrevista.

Desafios como ministro


O ano tem sido corrido, mas muito bom, por outro lado, sabe? Porque eu brinco e falo que este ministério é o mais divertido que tem. É uma caixa de ferramenta que pode auxiliar todos os outros ministérios. A tecnologia está em todo o lugar e, aqui, a gente vai desde o incentivo de jovens para as carreiras de ciência e tecnologia, que é uma coisa de que eu gosto muito, passando por pesquisa e inovação, até chegar à tecnologia aplicada. Fizemos algumas mudanças no ministério este ano, de forma que ele não fique só nas políticas públicas e nas regulações, mas que também apoie a chegar a um produto final. Há uma grande quantidade de conhecimento acumulado nas teses de mestrado, doutorado e pós-doutorado, mas que, no final, termina num protótipo que fica num canto do laboratório cheio de poeira. A gente precisa pegar esse conhecimento e transformar em novos produtos, novas empresas e novos empregos. Então, o ministério tem uma função muito grande de servir como um hub que conecta todos esses esforços de inovação no país e ajuda a levá-los até o ponto-final.

"A gente precisa pegar esse conhecimento e transformar em novos produtos, novas empresas e novos empregos" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Momentos de maior tensão


Eu diria que tudo tem acontecido como uma curva de Gauss (curva de probabilidade, em formato de sino). Começou relativamente tranquilo no final do ano passado, porque ainda faltava bastante tempo. À medida que foi chegando próximo do limite do dinheiro que a gente tinha, a tensão aumentou. Mas, agora, eu diria que já está na parte baixa da curva de novo. Vai dar certo. Estou muito animado com o ministério, porque começamos a ver resultados de coisas que nós queríamos colocar desde o ano passado, quando entramos na transição. À época, falei: o ministério precisa estar mais próximo das pessoas, dar mais qualidade de vida, ser mais produtivo, proativo. Reestruturamos nossa capacidades aqui dentro. Uma coisa muito boa foi a liberdade que eu recebi do presidente Jair Bolsonaro de poder escolher as pessoas. Não teve absolutamente nenhum tipo de pressão política. Com isso, eu tenho uma equipe em que posso confiar, de jogar uma meta e eles correrem atrás e isso ser cumprido.

Expansão da banda larga


Deve sair nas próximas semanas o orçamento para a gente fazer a conexão do Nordeste Conectado. Para este ano, o orçamento é de R$ 30 milhões. Para o ano que vem, de R$ 53 milhões. Nesse projeto, são 77 cidades conectadas com um backbone (rede principal) que vai transportar 100 gigabytes por segundo e interligar mais de 2,5 mil universidades e escolas nesse caminho, 736 unidades básicas de saúde e hospitais, delegacias e prefeituras.

Também tem o Norte Conectado, que vai recuperar o projeto chamado Amazônia Conectada. Vai ser a maior extensão de fibra ótica instalada em um projeto, com mais de 10 mil km de fibra pelos rios da Amazônia, que atenderá a boa parte das cidades mais próximas dos rios. A gente tem que levar fibra ótica para essas cidades por razões normais, porque melhora a economia, segurança, educação e saúde

Satélite SGDC


O nosso Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC) estava parado até o ano passado. Não estava sendo usado. Ele tinha, pasmem, apenas seis antenas conectadas, sendo que o satélite tem capacidade para 50 mil pontos. Quando cheguei, quis saber o que estava enroscado nesse negócio. Tive que ajustar processos que chegaram ao STF e ao  TCU, e resolvemos o problema. Hoje, já têm mais de 10 mil pontos instalados. Isso atende a mais de 3 milhões de crianças que vivem em locais distantes, nas comunidades em que não chegava internet. Agora, estamos loteando o restante dos pontos com outros ministérios, como os da Cidadania, da Agricultura e da Justiça.

Internet 5G


Ela está chegando. Já limpamos três das quatro faixas de frequência completamente para fazer a transição. Estava previsto para fazermos o leilão dessas frequências em março do ano que vem, mas vai atrasar um pouco. No entanto, deve ser em 2020 ainda o leilão da 5G. Isso vai ser muito bacana também porque a gente vai ter 5G sendo colocada nas cidades, mas também porque vai melhorar a produtividade geral em todas as coisas. 

Além disso, tem um valor associado ao leilão, o que vai me dar mais recursos para poder investir no país e melhorar a infraestrutura. Não foi determinado ainda (como serão divididos os recursos do leilão), mas pretendo ter uma parcela considerável em termos de obrigações, porque conectar um país desse tamanho não é fácil e não é barato.

Mas, de qualquer forma, a instalação da 5G não vai ser rápida. Existe uma sequência e temos de determinar a maneira mais eficiente de fazer essa migração, de forma a reduzir a possibilidade de interferência. A gente ainda não bateu martelo de como isso vai ser.

"A instalação da 5G não vai ser rápida" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Orçamento do ministério


Essa questão do orçamento pegou todo mundo. Este e o ano que vem, diga-se de passagem, são anos de preparação. Nós pegamos a situação fiscal bastante complexa e ruim, e os nossos orçamentos foram contingenciados no começo do ano. No nosso ministério foi 42,27% de contingenciamento, quase metade. Então, você tem que ajustar os seus gastos, ajustar os custos e priorizar os projetos, de forma a manter o andamento. Então, a primeira coisa que nós protegemos foram as unidades de pesquisa. O orçamento já era baixo. Se eu cortasse o orçamento dali, inviabilizaria essas pesquisas. Mas nenhuma unidade de pesquisa teve orçamento contingenciado durante o ano. A gente saiu apertando o cinto em todos os lugares para proteger a parte operacional, especialmente as bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que são a irrigação da pesquisa básica do país. 

Não houve nenhum contingenciamento nas bolsas até o momento em que tínhamos dinheiro. Já se sabia que, para chegar até o fim do ano com a quantidade de bolsas que nós tínhamos para cumprir todos os contratos, deveríamos ter R$ 1,58 bilhão, mas tínhamos, no orçamento feito no ano passado, R$ 784 milhões. Então, já tinha deficit inicial. Além disso, o mês de dezembro do ano passado, a gente pagou com o orçamento deste ano, o que aumentou o deficit. Então, esse deficit chegou a R$ 330 milhões. Desde o começo do ano, tenho falado sobre isso: “Olha, a gente precisa cobrir aí”. Vim avisando que só tinha como pagar até agosto, e, de fato, entrou em situação de emergência no último mês. E o que eu fiz: peguei R$ 82 milhões, que correspondem a um mês, da parte de fomento e passei para a área de bolsas. 

Agora, vêm os próximos meses. A gente está no aguardo. Tem duas possibilidades. Uma delas é os R$ 250 milhões que foram destinados para a gente pelo acordo da Petrobras e da Lava-Jato, que é quase o valor exato que a gente precisa (R$ 248 milhões). Ou pode ser “dinheiro novo” injetado pelo Ministério da Economia por meio de projeto de lei no Congresso. Mas a indicação é muito boa, e diria que estou mais tranquilo, porque estava tenso demais. Tenho uma expectativa muito boa de que a gente consiga terminar o ano pagando todas as bolsas e ficando tranquilo.

CNPq


Até agora, a situação mais difícil vivida na pasta foi a questão do CNPq. Se você se coloca no lugar de qualquer um desses 80 mil pesquisadores que estão sem saber como será o próximo mês, é uma situação complicada. Passei muitas noites sem dormir pensando nisso. Não por mim, mas porque podemos interferir na vida das pessoas, e o ministério está aqui para fazer o bem, e não o contrário. 

A junção do CNPq com a Capes não faz muito sentido, exceto na parte econômica. E, se houver a necessidade de juntar os dois, o local ideal é dentro do ministério que trabalha com pesquisa e desenvolvimento, que é a finalidade dessas bolsas. 

Nós estamos reestruturando o CNPq. Vamos parar de pagar aluguel e mudar para o prédio antigo. Além disso, a própria gestão será repensada. Eu preciso mesmo de tanta gente? Você tem que fazer uma análise se é necessário esse tanto de gente para fazer determinada tarefa.

Descontingenciamento 


Esse primeiro desbloqueio não era o que eu estava esperando. Eles tinham outras prioridades mais urgentes naquele momento. Foi o que me explicaram, mas não sei dizer quais eram exatamente. Conversei lá e, para este segundo desbloqueio, espero que venha mais. Estou esperando um desbloqueio de recursos para o Projeto Sirius em torno de R$ 80 milhões. Depois R$ 30 milhões para o projeto Nordeste Conectado. Mais cerca de R$ 10 milhões para o Norte Conectar. O que eu estou esperando dá um total de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões. Me falaram que dá tranquilo para ter esse valor. Eles falaram que ia ter reunião da Junta de Execução Orçamentária esta semana, então mais um desbloqueio deve estar próximo.

Salvaguardas tecnológicas


Estamos prestes a aprovar o acordo com os Estados Unidos, e isso, obviamente, sendo do setor, para mim é uma coisa que conta muito. Tem a parte de aplicação militar da Força Aérea Brasileira, que é uma coisa, mas do ponto de vista daqui do ministério, o Centro Espacial de Alcântara (MA) também pode ter aplicação comercial. Então, eu quero empresas de outros países pagando para fazer lançamentos aqui. 

"Quero empresas de outros países pagando para fazer lançamentos aqui" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
O acordo beneficia só o Brasil, pois é simplesmente uma permissão dos EUA para que o Brasil lance foguetes e satélites de quaisquer países que contenham algum componente americano. Desenvolver uma área espacial no país contribui com um monte de coisas. O país vai ter soberania no momento em que a gente conseguir projetar os nossos satélites, e construir, testar, decolar e operar esses satélites. O fato de você operar o Centro Espacial de Alcântara de uma forma comercial nos dará recursos para desenvolver esses satélites no Brasil, além do desenvolvimento da região, que é muito importante também, mesmo porque você precisa desenvolver aquilo para poder atrair clientes. 

A costa norte do país é muito boa para lançar em qualquer ângulo de órbita sem ter interferência no meio, por estar perto (da linha) do Equador. Algumas empresas dos EUA, do Japão e da Itália já demonstraram interesse, mas eu não estou preocupado com isso agora, porque quero, primeiro, passar o acordo no Congresso. 

Dividi esse projeto em três fases. A primeira é assinatura do acordo e aprovação do acordo pelo Congresso. Uma vez aprovado, eu entro para a segunda fase, que são planos de negócio, que significa ir ao estado, conversar com as empresas internacionais, com as comunidades e com o governo local. E, na terceira fase, a gente passa para execução, que é começar os lançamentos propriamente ditos. Se for muito rápido, neste ano ainda a gente passa no Congresso. Nos seis primeiros meses do ano que vem, a gente faz esses planos de negócios, tem os ajustes necessários em mais seis meses e começa a operar em 2021.

É um ponto de inflexão das telecomunicações do país. Estava enroscada fazia anos e, agora, vai ser uma mudança muito grande para o futuro das telecomunicações e a possibilidade de conectar o país como um todo. 

Vão vir desdobramentos para ajustar políticas públicas e portarias. A Secretaria de Telecomunicações já está trabalhando com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) — pois ela faz a fiscalização, e a gente, a política pública —, para definirmos onde vai ser aplicado qual recurso. Então, esse decreto será feito de forma a direcionar esses recursos, que vão vir dos bens reversíveis, que estão sendo calculados pela Anatel e pelo TCU, e será publicado até novembro. 

Mas espero que não seja menor do que R$ 20 bilhões, R$ 25 bilhões. Um valor considerável e importante para o país. Essa política pública vai ser construída a várias mãos, de forma que a gente possa atender às necessidades do país.

Sirius


Projeto Sirius está nessa briga pelo orçamento. É um projeto importantíssimo para o país. O pessoal da Economia e da Casa Civil já comprou a ideia. Vai ter um investimento este ano e no ano que vem, mas não é tudo o que a gente queria ter. São R$ 150 milhões para o Sirius, e já dá para acender algumas das linhas. Você pode pensar no Sirius como um grande microscópio. Ele analisa qualquer tipo de matéria. Um exemplo de utilização dele é na área de farmácia, no desenvolvimento de novos remédios. Outra é no pré-sal. Imagina conseguir melhorar a produção do pré-sal em 20%? Um acelerador de partículas desses é caro, mas é um investimento.

Ciência e tecnologia não são custos, são investimentos. A gente investiu R$ 1,3 bilhão no Sirius até agora. Para terminar, preciso de mais uns R$ 400 milhões. Agora estaremos colocando mais R$ 150 milhões lá. Está perto de terminar, e já vai acender algumas linhas e começar a produzir. É um projeto extremamente importante, ao qual a gente deu prioridade por causa disso. Até metade do ano que vem, pretendemos acender duas ou três linhas. Ao todo, podemos acender 27 linhas. Do dinheiro que foi investido no Sirius, 87% foi investido no Brasil, com empresas brasileiras, produzindo emprego no Brasil. 


Inteligência artificial 


O Brasil não pode ficar para trás em inteligência artificial. A gente tem esforços esparsos no país e temos que juntar esses esforços. Trabalhamos junto com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para criar oito laboratórios de inteligência artificial no país. Ontem (segunda-feira) estava começando a revisar o edital para isso.

Quatro deles serão em São Paulo e o restante, fora de São Paulo. Esses laboratórios vão interconectar em rede todos os esforços sendo feitos no país. Um deles é para trabalhar na ponta da inteligência artificial, como se fosse uma inteligência artificial geral. Ele será conectado com segurança cibernética, porque pode dar resultados e pegar demandas da área. Os outros laboratórios serão para inteligência artificial aplicada. A princípio, eles serão aplicados à agricultura, saúde, cidades, indústria, serviços e gestão e administração.

A inteligência artificial sendo usada para melhorar serviços do governo como um todo. Na área de saúde, por exemplo, estamos com um projeto em 10 hospitais e queremos ampliar para 100 hospitais. Muita gente morre por falta de assepsia, e se a gente conseguir detectar isso antes, no começo do problema, conseguimos salvar a pessoa. Para isso, tem um sistema que estamos financiando aqui que ajuda nisso. Ele observa, mapeia os resultados dos exames e, quando nota qualquer indício de que um paciente vai ter infecção, avisa. Dessa forma, o médico pode tomar providências para salvar aquela pessoa. Outra ideia mais simples, mas interessante, é um sistema de leitura do sangue.

Tem gente que detesta tirar sangue, e há um sistema que permite que você coloque o dedo em um leitor digital, que emite um tipo de luz eletromagnética por um minuto e meio, e o sistema consegue ler o espectro da sua corrente sanguínea. O sistema consegue determinar quais moléculas fazem parte e faz um exame de sangue completo somente com o dedo. Como está no primeiro estágio, os resultados são comparados com exames de sangue feitos de forma tradicional. O sistema já tem 75% de acerto. A ideia é colocar isso na rede de hospitais públicos. É barato para colocar esse tipo de coisa. As tecnologias já estão sendo feitas. É só questão de dar o pulo final para certificação e jogar no mercado. 


Brasil, país inovador


Ainda não somos um país inovador. Eu acho que a gente tem um longo caminho pela frente. Existe um índice de inovação que é calculado sob a análise de 78 indicadores, ou mais, e o Brasil está em 66º lugar. Em termos de produção de conhecimento, nós estamos entre 12º e 14º. Ou seja, a gente está muito bem em publicações e muito mal, no meu ponto de vista, em inovações. O ideal para um país como o nosso era estar entre os 20 primeiros.

Essa (discrepância) é a questão a que a gente tem que responder aqui. A gente tem um mea culpa a fazer. Lógico que não depende só de nós, depende de outros ministérios também, mas isso é culpa nossa, porque a gente não está incentivando as empresas a participarem.

"Ainda não somos um país inovador" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Materiais avançados


O presidente Jair Bolsonaro tem falado bastante desde o ano passado sobre grafeno, nióbio, terras raras e etc. Está em processo final a criação de uma Política Nacional para o Desenvolvimento de Materiais Avançados, assim como uma Política Nacional para o Desenvolvimento de Inteligência Artificial. Vai sair como dois decretos. Assim que sair a política de materiais avançados, vamos lançar o primeiro laboratório de grafeno, nióbio e terras raras. A produção de grafeno deve ser no Rio de Janeiro. Eles acreditam que é um bom investimento fazer isso lá para o Estado como um todo.

O laboratório vai ajudar nas técnicas de produção e no desenvolvimento de tecnologias para produtos. O laboratório vai sair ainda este ano. Uma vez publicado o decreto da Política Nacional para o Desenvolvimento de Materiais Avançados, o laboratório sai em menos de um mês. Porque, na verdade, vamos pegar um laboratório nosso e converter para que ele comece a trabalhar focado em grafeno. Não quero construir nada novo. 

Ensino superior 


No ano passado, durante a transição, a ideia era trazer o ensino superior para cá. Mas eu não quis a junção naquela época, porque eu já tinha identificado os problemas do ministério, e precisava organizar tudo primeiro. Depois,  vamos preparar o caminho e, gradualmente, trazer o ensino superior. Isso pode ser que aconteça a partir do ano que vem. É uma hipótese interessante, de que eu gosto, porque a minha ideia é utilizar as universidades e, principalmente, os institutos federais como vetores de inovação no país. Isso a gente precisa ter bem claro.

Pesquisadores/concursos


A gente entra em uma negociação grande com a Economia, porque o peso da folha de pessoal  é muito grande, então, eu não estou sentindo muita possibilidade de ter concursos públicos em breve para recontratar. Não é fácil contratar um pesquisador, porque demora para ser desenvolvido o conhecimento em determinada área. Essa reposição de pesquisadores é complexa. Aí é onde entra a importância das bolsas do CNPq. Às vezes, eu me sinto falando no deserto sobre a questão de bolsas do CNPq, importância do CNPq. Vai nas universidades, centros de pesquisas, empresas que trabalham com pesquisas e pergunta quantos já tiveram bolsa do CNPq. Você vai ver a quantidade deles.

O CNPq é importante para a formação da pesquisa básica no país. Usamos essas bolsas para formar um pesquisador júnior. Quando o pesquisador sênior se aposentar, você já tem uma pessoa treinada para aquilo. O problema é contratar essas pessoas. É um problema sério que a gente tem. E eu não tenho uma solução ainda para isso. O concurso público seria uma, mas não tenho solução agora. Não é só segurar os nossos pesquisadores no país, eu quero atrair pesquisadores de fora para trabalhar aqui.

O incentivo acontece quando o setor privado começa a investir no sistema e começa a ter projetos com duração e investimentos privados. Não adianta esperar que as empresas participem da pesquisa básica. Isso é função do Estado. Você alimenta pesquisa básica, tem um sistema bem estruturado de desenvolvimento de pesquisa aplicada, com isso consegue atrair investimentos do setor privado e atrair salários bons. E, convenhamos, o pesquisador tem que ser recompensado com salários adequados para a importância que ele tem. Dessa forma, a gente muda e começa a atrair gente. O deficit de pesquisadores vai aumentar.

Demissão no Inpe


O Inpe está firme e forte, como sempre esteve, produzindo dados. Os dados são corretos. A interpretação dos dados daquela época é que foi incorreta. A questão do Galvão não teve nada a ver com dados do Inpe, teve a ver com a atitude dele em brigar com o presidente publicamente, o que não funciona. Ele acabou passando por cima de mim, a gente conversou e ficou completamente desconfortável. Hoje, está lá o Darcton Damião, que é um especialista da área. O Inpe está muito bem e vai ser ampliado. A gente tem planos para o Inpe ser um sistema de modelamento com dados completos. Com uma junção de vários tipos de dados que vão servir para modelamento de atmosfera e uma série de outras coisas.

Relações internacionais 


É onde eu levo vantagem pelo fato de ser astronauta. O cargo vem na frente do nome. Por exemplo, vocês notaram que geralmente eu vou alguns meses antes do presidente ir aos lugares. Isso não é por acaso. Eu fui a Israel e conversei sobre tecnologia. E tecnologia é interessante, porque acaba influindo em todas as áreas. Existia um acordo, por exemplo, entre os respectivos ministérios de ciência e tecnologia e eu conversei com o ministro de lá e conversei com o Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. Isso é interessante porque, geralmente, para você ter acesso como ministro ao chefe de Estado, primeiro-ministro, príncipe, é raro.

Geralmente, eles não conversam muito com os ministros, conversam com os outros chefes de Estado, mas a função de astronauta acaba chamando a atenção. Ai eles querem conversar comigo para perguntar como é no espaço, como me sinto no espaço. Eu falei para o Netanyahu: “Já que tem esse acordo entre os dois países na área dos dois ministérios, a gente podia levar isso a nível de país que, com isso, a gente consegue encaixar uma série de outras possibilidades. Como um acordo guarda-chuva, em que a gente consegue encaixar agricultura, defesa, saúde e outras áreas que usam tecnologia’’. Aí ele falou: “Vamos fazer”. Fizemos, preparamos o acordo, e, quando o presidente foi lá, já tinha um acordo entre países. Isso é uma coisa boa de você abrir caminho.

Pesquisa oceanográficas


Não temos um instituto de pesquisas oceanográficas. A gente tem coisas espalhadas. A Marinha tem alguma coisa, a USP outra, mas não tem um instituto para isso. A gente tem o Projeto Pirata, que tem 12 boias. Um litoral do tamanho do Brasil com 12 boias não faz nem cócegas. Temos que ter milhares de boias espalhadas. Temos que ter pesquisadores com navios e submarinos. A gente precisa explorar mais, cientificamente falando, o nosso litoral, o nosso mar. Utilizar satélites para captar esses dados todos. Essa é outra grande batalha. 

Pendências 


A primeira pendência pra mim é conectar o Brasil. A infraestrutura de conexão do Brasil, com fibra ótica e satélite. Levar internet para dentro da cidade, para fora da cidades, para propriedades rurais, fazendas. 

Motivo do silêncio


Eu queria primeiro organizar as coisas. em vez de ficar cacarejando antes do ovo. Primeiro, queria ter as coisas feitas e ter coisas para falar. Por isso, eu esperei um tempo. Vamos começar a aparecer mais. É um ministério que tem a capacidade enorme de ajudar o país e outros ministérios. É o jeito que eu gosto de trabalhar. Eu vou fazendo as coisas e quando está pronto eu te entrego, porque ficar falando antes, às vezes, não dá certo. 

Privatizações


Vamos com calma. Isso está sendo feito de uma maneira bem-feita. As nossas três empresas, Ceitec (Comissão de Incorporação de Tecnologias), Correios e Telebras, entraram para o PPI (Programa de Parcerias de Investimentos). Vão ser feitos estudos e, dentro desses estudos, (a decisão de privatizar) vai ser determinada primeiro pela melhor governança e gestão das empresas. Porque não vale a pena você vender um caco. Então, melhorar a governança das empresas, melhorar a gestão, melhorar a empresa em si. PPIs servem pra isso e, também, qual é a melhor maneira de fazer. Porque são empresas grandes e importantes. Isso está sendo feito lá no PPI.

Eu não sou contra, absolutamente. Sou a favor de a gente fazer a coisa da maneira correta, e isso está sendo feito. Então, estou muito feliz de que as empresas estejam lá no PPI. Os estudos estão sendo feitos. No final desses estudos, pode ser que eu fale: “Ok, essa empresa, por alguma razão, é importante ficar no governo”.

Quando você faz essa privatização, tem que preservar a utilização pública. A Telebras tem uma importância pública grande em termos de conectar o país. Igual aos Correios, que é a instituição no país, que está em basicamente todas as cidades. Então, preservados esses interesses públicos, eu acho que não tem problema nenhum. É um caminho de você modernizar as coisas, fazer com que fique mais dinâmico, melhor para os funcionários também. 

Teve uma audiência pública em que  conversei com os funcionários dos Correios, porque é ruim essa situação de ficar na dúvida do que vai acontecer. Mas o Floriano (Peixoto, presidente dos Correios) tem trabalhado nisso, de reforçar a governança, resolver os problemas de gestão da empresa. E foi um compromisso que eu assumi quando acabou a audiência, de colocar algumas ações.

Primeiro, para o Floriano: vai continuar a reforçar a empresa. Quanto mais forte estiver a empresa, melhor, inclusive para  o caso de privatização. Segundo: eu vou correr atrás de saber o mais rápido possível e definir se entra para a privatização ou no PPI. Agora, ela está nessa situação e existe um marco regulatório. Durante o processo, caso ela vá para o Plano Nacional de Desestatização, no meio do caminho tem que ser construído um marco regulatório, que inclui todas essas condições de manutenção dos serviços essenciais públicos; e dos funcionários, de como que eles têm que ser preservados e como vão ser feitos esses acordos.

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