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Correio Braziliense

''Não deixaremos o nazismo prosperar'', diz representante da comunidade judaica

Mourad Belaciano, diretor do Grupo de Estudos do Oriente Médio da Associação Cultural Israelita de Brasília, diz que é preciso alertar a população para que a ideologia nazista não ganhe espaço no país


postado em 18/01/2020 07:00

(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
O vídeo em que o ex-secretário especial da Cultura Roberto Alvim anunciava o Prêmio Nacional das Artes com ecos da propaganda nazista gerou, na sexta-feira (17/1), repúdio imediato da comunidade judaica brasileira. Tanto a Confederação Israelita do Brasil (Conib) quanto a Associação Cultural Israelita de Brasília (Acib) emitiram notas condenado o teor da peça, que levou à exoneração de Alvim.

Em entrevista ao Correio, Mourad Belaciano, diretor do Grupo de Estudos do Oriente Médio da Acib, diz que as referências nazistas em um pronunciamento feito por um integrante do governo federal é "inadmissível" e causa de grande indignação. Ele também diz que a comunidade judaica "vai fazer de tudo para que essa ideologia não prospere no país".

Ainda segundo Belaciano, o país ainda tem muitos defensores da democracia. A demissão de Alvim e a rápida reação de autoridades e da imprensa ao episódio, argumenta, são sinais de que "a nossa democracia, que passa por problemas, é capaz de resistir a aventureiros que deponham contra a própria democracia".

Como o discurso do agora ex-secretário de Cultura repercutiu entre a comunidade judaica?
As pessoas estão indignadas e consideram inadmissível que um agente público de tão alto nível, ocupando cargo federal, se manifeste plagiando um ministro de Hitler. Joseph Goebbels atuou durante todo o período nazista. Ele era um dos homens de confiança de Hitler, da linha de frente da ideologia. Se o Estado alemão se nazificou, foi por força de três grandes esteios: a força política do Estado, com normas e leis; a policial, com a Gestapo e a SS; e a propaganda e as ideias. E ele (Goebbels) é um dos esteios desse projeto. 

Foi um dos maiores desastres que a humanidade já conheceu. É indignante ver homens públicos, em pleno século 21, repetindo e vangloriando a era nazista, que aconteceu há mais de 80 anos. É preciso expor, chamar a atenção da população. Essa história não pode ser repetir. E não pode se repetir com brasileiros. A ideologia que ele defendia, e ele usou a arte para defendê-la, claramente segrega e classifica os indivíduos conforme características sociais, culturais. É uma ideologia nefasta. A comunidade judaica vai fazer de tudo para que essa ideologia não prospere no país.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, na quinta-feira, que Rodrigo Alvim era o melhor secretário de Cultura da história do Brasil. Na sexta-feira, o exonerou. Como o senhor enxerga a postura do presidente?
Após a repercussão dos fatos, o próprio presidente declarou o desligamento do secretário em função do posicionamento infeliz. O ato de sexta-feira é muito mais concreto. É um fato. É um desligamento. E ele repudia as formas de totalitarismo, se colocando como amigo da comunidade judaica.

O senhor considera que o episódio revela traços de um governo com viés autoritário?
Eu torço para que não seja isso. Se for, alguma nuvem pode estar se formando. Essas declarações negam a caminhada da história. Uma união de forças nos anos 1980 resultou em um novo Estado democrático de direito. E essa história não tem que ser apagada. Se existem forças que querem fazer retroagir a história, vão se deparar com a própria história. Ainda que a política esteja muito mal tratada pelos próprios políticos, existem forças democráticas que têm feito manifestações importantes. Em poucas horas, o secretário de Cultura estava demitido. Seja a imprensa de um modo geral, a pequena comunidade judaica ou (o presidente da Câmara) Rodrigo Maia, foram reações imediatas. Isso é uma garantia que a nossa democracia, que passa por problemas, é capaz de resistir a aventureiros que deponham contra a própria democracia. 




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