Publicidade

Correio Braziliense

Alvim expôs como nunca lado autoritário do governo, avaliam especialistas

Roberto Alvim encerra a trajetória de 72 dias à frente da Cultura com um vídeo inspirado em Joseph Goebbels. Apesar do cenário montado e da trilha sonora, diretor de teatro negou referência ao regime de Hitler. Atriz Regina Duarte é convidada para o cargo


postado em 18/01/2020 07:00 / atualizado em 18/01/2020 18:35

(foto: Reproducao/internet)
(foto: Reproducao/internet)
O diretor de teatro Roberto Alvim ocupou o cargo de secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro por 72 dias. O dramaturgo deixou o governo na sexta-feira (17/1), após interpretar o ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels em um vídeo institucional, ao anunciar, no exercício da função, um programa do governo voltado para premiar artistas.

O professor de história Deusdedith Alves alerta que, desde 2019, o país se depara com uma sequência de posicionamentos do Executivo federal que remetem a ideias totalitárias. No entanto, para o estudioso, até a data de ontem, nenhum episódio de autoritarismo do governo Bolsonaro havia sido tão explícito quanto o vídeo de Alvim. 

"A diferença entre abuso e ameaça é o simples fato de ser explícito demais. Não foi a primeira vez que o governo elaborou um discurso que ameaça a democracia; mas foi a primeira vez que repetiu um discurso nazista. Essa perspectiva nunca tinha se revelado com tanta clareza", analisa.

O estudioso alerta que o vídeo institucional representa um desejo do governo federal de implementar uma “cultura perfeita” no Brasil, algo semelhante ao que tentou fazer a Alemanha Nazista de Hitler. 

"As falas do Alvim refletem exatamente aquilo que o nazismo pretendeu na área cultural, no âmbito arquitetônico, da música, da pintura e da literatura. Eles queriam uma arte que representasse o ideal de pureza. Mas o que seria a nossa pureza? Não temos uma ideia muito clara, a não ser a idealização da cultura ocidental absolutamente branca e a negação da diversidade cultural que existe hoje no Brasil”, diz Alves.

Ato "nojento"

"Goebbels foi um dos mais cruéis ministros da propaganda. Isso é nojento. É positivo que Alvim tenha sido demitido." Quem sentencia é Gábor Hirsch, 89 anos, sobrevivente de Auschwitz, ao saber do vídeo do então secretário de Cultura Roberto Alvim parafraseando um discurso do ministro nazifascista. 

Há 75 anos, no fim da 2ª Guerra Mundial, Hirsch escolheu permanecer no campo de concentração, pois não tinha mais força para longas caminhadas. Os Aliados estavam a caminho, e deixar o local com os soldados nazistas significaria a morte. O ex-prisioneiro representa, em sua fala, o sentimento de milhares de judeus, muitos deles filhos, netos ou bisnetos das vítimas da máquina de genocídio nazista. Hirsch mora em Zurique, na Suíça, e falou exclusivamente ao Correio.

Várias semelhanças

No vídeo que levou à sua demissão, Alvim não só usou um trecho do discurso adaptado às suas falas, como reproduziu o semblante sisudo do homem acusado de crimes contra a humanidade. Com uma Cruz de Lorena à direita, ainda usou como trilha sonora a ópera Lohengrin, de Richard Wagner, compositor favorito de Adolf Hitler.

A emulação mais evidente a Goebbels no vídeo ocorre em uma fala do ex-secretário, quando Alvim afirma que “a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo — ou então não será nada”. 

No livro Joseph Goebbels: Uma biografia, do historiador alemão Peter Longerich, consta o discurso do ministro da propaganda: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande pathos (potência emocional) e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”.

Alvim tentou se defender. Disse que se tratou de uma “coincidência com uma frase do discurso de Goebbels”. “Não o farei e jamais o faria. Foi, como eu disse, uma coincidência retórica, mas a frase em si é perfeita: heroísmo e aspiração do povo é o que queremos ver na arte nacional”, argumentou. 

Pouco depois, porém, Bolsonaro exonerou Alvim. “Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do Governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência. Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum”, disse, em nota.

Convite a Regina Duarte

Horas após a exoneração de Alvim, a atriz Regina Duarte, de 72 anos, foi convidada pelo presidente Jair Bolsonaro para assumir a Secretaria Especial de Cultura. Ela pediu tempo para conversar com a família e deve dar uma resposta hoje. 

Logo após a exoneração de Alvim, parlamentares correram até o Executivo para indicar um substituto. “Mais de 40 políticos entraram em contato para sugerir alguém”, informou ao Correio uma fonte do alto escalão do governo federal.

Gestão conturbada 

A citação de trechos do ideólogo nazista Joseph Goebbels foi o último ato da conturbada passagem do dramaturgo Roberto Alvim no governo do presidente Jair Bolsonaro. Conservador, Alvim é discípulo de Olavo de Carvalho e gozava de grande prestígio junto ao chefe do governo. Em live transmitida nas redes sociais na quinta-feira, o presidente sentenciou: “Ao meu lado, aqui, o Roberto Alvim, o nosso secretário de Cultura. Agora temos, sim, um secretário de Cultura de verdade. Que atende o interesse da maioria da população brasileira, população conservadora e cristã”.

Antes de comandar a Secretaria Especial da Cultura, o dramaturgo já havia trabalhado à frente do Centro de Artes Cênicas (Ceacen) da Funarte. A aproximação com Bolsonaro ocorreu à época da campanha presidencial de 2018, quando Alvim declarou apoio ao então candidato do PSL. Quando estava na Funarte, Alvim costumava destacar a necessidade de se combater o “marxismo cultural”, uma expressão amplamente utilizada na Alemanha nazista. Também à frente da fundação, ele provocou forte reação da classe artística ao atacar, com ofensas, a atriz Fernanda Montenegro. Nas redes sociais, a chamou de “intocável” e “mentirosa”.

Alvim, como a maior parte dos ministros e secretários do governo, foi convidado para integrar a equipe após demonstrar alinhamento com ideais conservadores.

Por essa razão, quando o presidente o nomeou para comandar a pasta de Cultura, em novembro, disse que Alvim teria “porteira fechada”. O secretário imprimiu uma guinada conservadora na administração da área. Nomeou membros da Cúpula Conservadora das Américas e defensores da promoção de filmes com valores patrióticos e de preservação da família. Também esvaziou a Ancine, a Agência Nacional de Cinema.

Alvim nomeou ainda o jornalista Sérgio Camargo para a presidência da Fundação Palmares. A escolha gerou uma grande onda de protestos, já que, em postagens nas redes sociais, Camargo pediu o fim do movimento negro e afirmou que a escravidão no Brasil foi “terrível”, porém “benéfica” para os descendentes. “Negros do Brasil vivem melhor que os negros da África”, escreveu. Em meio às repercussões, a Justiça suspendeu a nomeação do jornalista. E o presidente Bolsonaro decidiu revogá-la.

O vídeo de inspiração nazista encerrou o mandato de Alvim marcado por turbulências.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade