A disputa eleitoral no Brasil ganhou um novo campo de batalha: a metodologia das pesquisas. O questionamento da pré-campanha de Flávio Bolsonaro a um levantamento do instituto AtlasIntel, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), expõe como a tecnologia está transformando a forma de coletar a opinião dos eleitores.
Na ação, a defesa do candidato alega que a reprodução de um áudio, divulgado pelo site The Intercept em 13 de maio, mesmo dia em que o levantamento começou, teria induzido uma percepção negativa sobre ele. O instituto, por sua vez, rebateu a acusação. Segundo o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, o áudio foi exibido aos entrevistados somente após a conclusão do questionário principal. O episódio, no entanto, é a ponta do iceberg de uma tendência que inclui vídeos, estímulos visuais e o uso de inteligência artificial para analisar as respostas do público.
Tradicionalmente, as pesquisas se baseavam em questionários diretos, por telefone ou presenciais. Agora, alguns institutos adotam o chamado “tratamento de estímulo”, em que o entrevistado é exposto a um conteúdo específico, como um trecho de notícia ou um vídeo que viralizou nas redes sociais, antes ou depois de responder a uma pergunta. O objetivo é medir o impacto real que a informação tem sobre a intenção de voto.
Além disso, a inteligência artificial tem sido empregada para analisar respostas abertas de forma mais complexa e para segmentar o eleitorado com um nível de detalhe muito maior. Isso permite identificar nichos de eleitores e entender suas motivações de maneira mais profunda.
O debate sobre a nova metodologia
A inovação, contudo, traz um debate ético e jurídico. De um lado, os institutos de pesquisa defendem que essas ferramentas modernizam os levantamentos, aproximando-los da forma como o eleitor consome informação hoje, principalmente por meio das redes sociais. Argumentam que os métodos permitem captar reações mais espontâneas e fiéis à realidade.
Do outro lado, críticos e campanhas políticas apontam para o risco de manipulação. A escolha de um áudio ou vídeo com viés negativo ou positivo poderia direcionar a resposta do entrevistado, contaminando o resultado da pesquisa. A principal preocupação é que a ferramenta, em vez de medir a opinião, acabe por moldá-la.
O desafio da Justiça Eleitoral é acompanhar essa evolução tecnológica e garantir que as novas metodologias não firam o princípio da isonomia entre os candidatos. A decisão do TSE sobre o caso pode estabelecer um precedente importante para as próximas eleições, definindo os limites e as regras para o uso de estímulos audiovisuais e outras tecnologias na aferição da opinião pública.








