EDUCAÇÃO

Bolsonaro nomeou mais ministros para o MEC do que qualquer outro governo

A conta é expressiva e superior a qualquer outro governo no período democrático no Brasil. Trocas ocorreram em uma escalada de polêmicas até um suposto esquema de corrupção

Talita de Souza
postado em 30/03/2022 10:41 / atualizado em 30/03/2022 11:11
De Vélez à VIctor Godoy, o MEC teve cinco nomeações, muitas polêmicas e uma denúncia de corrupção -  (crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil-Ed Alves/CB/D.A Press-Isac Nobrega-Flickr/MEC)
De Vélez à VIctor Godoy, o MEC teve cinco nomeações, muitas polêmicas e uma denúncia de corrupção - (crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil-Ed Alves/CB/D.A Press-Isac Nobrega-Flickr/MEC)

O secretário-executivo do Ministério da Educação (MEC), Victor Godoy Veiga, foi nomeado para assumir interinamente a pasta nesta quarta-feira (30/3). Ele é o quinto a ocupar o mais alto cargo do órgão que gerencia a educação brasileira. A conta é expressiva e superior a qualquer outro governo no período democrático no Brasil: em três anos de gestão, o presidente Jair Bolsonaro (PL) teve que fazer cinco trocas no comando do MEC, em uma escalada de polêmicas até um suposto esquema de corrupção entre os gestores. 

Com a nomeação de Godoy, Bolsonaro ultrapassou o número de ministros da Educação indicados por Dilma durante o segundo mandato interrompido, entre 2015 e 2016 — foram quatro comandantes da pasta indicados pela petista. O primeiro governo da chamada Nova República, após a ditadura militar, teve cinco indicados ao MEC, por José Sarney. No entanto, Bolsonaro já o ultrapassou visto que irá indicar um novo nome para assumir o MEC, e não só de forma interina. 

Antes de Godoy, todos os que passaram pela mais alta cadeira da pasta no governo Bolsonaro foram afastados ou pediram demissão após se envolver em polêmicas. Relembre: 

  • Ricardo Vélez (janeiro de 2019 a abril de 2019)

Ricardo Vélez, o primeiro nomeado pelo chefe do Executivo, foi também o primeiro a marcar a pasta pelos interesses ideológicos. Demitiu, ainda em janeiro de 2019, a presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Maria Inês Fini, sem motivo aparente. Os secretários-executivos também foram trocados quatro vezes em três meses de gestão.

O ministro da Educação, Ricardo Vélez
O ministro da Educação, Ricardo Vélez (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Além disso, o ministro enviou uma carta para as escolas do país com a orientação de que os alunos fossem obrigados a ler o slogan da campanha de Bolsonaro e que as crianças fossem filmadas enquanto cantavam o Hino Nacional. Vélez também ordenou a criação de uma comissão no Inep para “fiscalizar o conteúdo” do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Por fim, e um dos atos que o levou a queda, foi uma declaração do ex-ministro de que ele pretendia revisar os livros didáticos que contavam a história do golpe militar de 1964 e a ditadura militar no Brasil, em um aceno de que mudaria o teor do conteúdo para dizer que foi uma “revolução” e não um ato ditatorial. Ele foi demitido em 8 de abril de 2019.

  • Abraham Weintraub (abril de 2019 a junho de 2020)

Abraham Weintraub foi o segundo ministro da Educação de Bolsonaro. De forte viés olavista, Weintraub marcou a pasta com discursos contrários às minorias e contrários ao STF. Além disso, a edição do Enem liderada por ele foi a primeira com um erro em massa no cálculo das notas dos participantes.

No discurso de saída, Weintraub disse que estava se sentindo inseguro e que a mudança de ares será benéfica até para o animal de estimação da família
No discurso de saída, Weintraub disse que estava se sentindo inseguro e que a mudança de ares será benéfica até para o animal de estimação da família (foto: reprodução/Youtube)

Ele deixou o ministério após ser gravado em uma manifestação de apoiadores de Bolsonaro, em Brasília, com falas contrárias à Suprema Corte.

“Eu já falei a minha opinião, o que eu faria com vagabundo”, diz ele no vídeo gravado. Weintraub fazia uma referência à uma fala dita por ele durante a reunião ministerial de 22 de abril em que falava que “botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF”. Ele foi demitido em 18 de junho de 2020.

  • Carlos Decotelli (não chegou a tomar posse - 25 de junho de 2020 a 30 de junho de 2020)

Pouco depois, Bolsonaro escolheu Carlos Decotelli para substituir Weintraub em 25 de junho de 2020. O nome deveria ser uma forma de apaziguar os ânimos e encerrar a crise causada pelo ex-ministro: um nome de um professor, mestre, com doutorado em uma universidade da Argentina e pós-doutorado na Alemanha.

Handout picture released by Brazilian Presidency press office of President Jair Bolsonaro (L) and his new Minister of Education Carlos Alberto Decotelli, the first black minister in his cabinet, at Planalto Palace in Brasilia, Brazil, on June 26, 2020.   Brazil's new Education Minister has not yet taken office, but he is already the subject of much controversy, with several of the academic titles on his resume being contested. - RESTRICTED TO EDITORIAL USE - MANDATORY CREDIT "AFP PHOTO / BRAZILIAN PRESIDENCY / MARCELO CORREA " - NO MARKETING - NO ADVERTISING CAMPAIGNS - DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS / AFP / Brazilian Presidency / Marcos CORREA / RESTRICTED TO EDITORIAL USE - MANDATORY CREDIT "AFP PHOTO / BRAZILIAN PRESIDENCY / MARCELO CORREA " - NO MARKETING - NO ADVERTISING CAMPAIGNS - DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS
Handout picture released by Brazilian Presidency press office of President Jair Bolsonaro (L) and his new Minister of Education Carlos Alberto Decotelli, the first black minister in his cabinet, at Planalto Palace in Brasilia, Brazil, on June 26, 2020. Brazil's new Education Minister has not yet taken office, but he is already the subject of much controversy, with several of the academic titles on his resume being contested. - RESTRICTED TO EDITORIAL USE - MANDATORY CREDIT "AFP PHOTO / BRAZILIAN PRESIDENCY / MARCELO CORREA " - NO MARKETING - NO ADVERTISING CAMPAIGNS - DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS / AFP / Brazilian Presidency / Marcos CORREA / RESTRICTED TO EDITORIAL USE - MANDATORY CREDIT "AFP PHOTO / BRAZILIAN PRESIDENCY / MARCELO CORREA " - NO MARKETING - NO ADVERTISING CAMPAIGNS - DISTRIBUTED AS A SERVICE TO CLIENTS (foto: MARCOS CORREA)

Um perfil altamente técnico e não ideológico, foi o que o governo queria pontuar. No entanto, cinco dias depois, Decotelli deixou o cargo por incitar uma nova crise, dessa vez por dados falsos no currículo. Ele foi desmentido pelo próprio reitor da Universidade de Rosário, que informou que o professor não era doutor por ter a tese reprovada na instituição.

Além disso, a Bergishe Universität Wuppertal, na Alemanha, instituição em que Decotelli supostamente teria completado o pós-doutorado, emitiu uma nota em que diz desconhecer o título.

  • Milton Ribeiro (junho de 2020 a março de 2020)

Decotelli foi substituído por Milton Ribeiro, um pastor presbiteriano que prometia um comando baseado no estado laico. Por fim, foi destituído do cargo por envolver dois pastores da Assembleia de Deus na pasta, em um esquema ilegal de dar preferência ao repasse de recursos para prefeitos que negociaram com os religiosos.

O ex-ministro da educação, Milton Ribeiro, que deixou o cargo nesta segunda-feira (28)
O ex-ministro da educação, Milton Ribeiro, que deixou o cargo nesta segunda-feira (28) (foto: Isac Nobrega)

Os gestores dos municípios afirmam que os pastores pediam entre R$ 15 a R$ 40 mil — e até mesmo 1 kg de ouro — apenas para protocolar o pedido na pasta.

 

  • Enquanto era ministro, Ricardo Vélez disse que os livros didáticos seriam revistos para que as nomenclaturas "golpe" e "ditadura" fossem retirados
    Enquanto era ministro, Ricardo Vélez disse que os livros didáticos seriam revistos para que as nomenclaturas "golpe" e "ditadura" fossem retirados Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
  • No discurso de saída, Weintraub disse que estava se sentindo inseguro e que a mudança de ares será benéfica até para o animal de estimação da família
    No discurso de saída, Weintraub disse que estava se sentindo inseguro e que a mudança de ares será benéfica até para o animal de estimação da família Foto: reprodução/Youtube
  • Bolsonaro e Decotelli durante o ato de nomeação do professor. Ele não chegou a tomar posse por escândalos que vieram à tona relacionados à mentiras do currículo
    Bolsonaro e Decotelli durante o ato de nomeação do professor. Ele não chegou a tomar posse por escândalos que vieram à tona relacionados à mentiras do currículo Foto: MARCOS CORREA
  • Milton Ribeiro prestou depoimento à Polícia Federal:
    Milton Ribeiro prestou depoimento à Polícia Federal: "local pequeno para manusear a arma" Foto: Isac Nobrega
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