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Crise do "gabinete paralelo" faz Milton Ribeiro sair queimado do MEC

Após dizer que colocava "a cara no fogo", Bolsonaro demite ministro acusado de manter "gabinete paralelo" com pastores

Ingrid Soares
Luana Patriolino
Cristiane Noberto
Taísa Medeiros
Deborah Hana Cardoso
Victor Correia
postado em 29/03/2022 06:00
 (crédito: CLAUBER TOLEDO/PR)
(crédito: CLAUBER TOLEDO/PR)

Não havia mais palavra para manter o pastor Milton Ribeiro no governo de Jair Bolsonaro. A revelação de que exemplares da Bíblia foram distribuídos em julho de 2021, com fotos do então ministro e dos dois pastores suspeitos de formar um "gabinete paralelo" no Ministério da Educação, tornaram insustentável a permanência do pastor presbiteriano à frente da pasta. A pressão para afastar Milton Ribeiro já estava muito forte no fim de semana. Na segunda-feira (28/3), Ribeiro não resistiu às suspeitas e entregou a carta de demissão.

Os rumores sobre a queda de Ribeiro ficaram mais fortes na manhã de segunda-feira. Até então, especulava-se a possibilidade de ele apenas se licenciar do cargo para responder às investigações sobre o caso. No entanto, aliados convenceram o presidente Bolsonaro de que não valia a pena prosseguir com o desgaste.

Foi uma mudança e tanto na postura da Presidência. Na quinta-feira, o chefe do Planalto fez uma defesa categórica do então auxiliar da Educação. "O Milton, eu boto minha cara no fogo por ele. Estão fazendo uma covardia", disse Bolsonaro durante uma transmissão nas redes sociais.

Ontem, após reportagem do jornal Estadão sobre a distribuição de bíblias com fotos de Ribeiro e dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, o presidente não perdoou o ministro. Em uma associação de religião com política pública, o evento foi organizado pelo ministério em Salinópolis (PA), cidade a 220 km de Belém. O encontro reuniu prefeitos e secretários municipais e contou com a presença do próprio titular da pasta e dos pastores.

Depois do evento, Milton Ribeiro aprovou a construção de uma escola no município por meio do firmamento de um termo de compromisso com a prefeitura no valor de R$ 5,8 milhões.

No ápice da crise política, na tarde de ontem, Milton Ribeiro foi chamado para uma reunião no Palácio do Planalto. No encontro, o titular do MEC entregou a carta de demissão, na qual refutou as acusações. A demissão foi publicada na edição desta segunda-feira do Diário Oficial da União (DOU). Segundo o documento, a exoneração ocorreu "a pedido" de Ribeiro.

Durante o fim de semana, aliados e pastores próximos ao governo calcularam os efeitos de uma eventual saída de Ribeiro. Ainda acreditava-se que um afastamento seria suficiente para abaixar a temperatura, temporariamente. Essa convicção a respeito da inocência do então ministro estaria registrada na expressão "Até breve", que constava na primeira versão da carta que seria entregue ao Planalto. Mas essa estratégia naufragou, ante o peso das suspeitas de corrupção no governo de Jair Bolsonaro.

Milton Ribeiro assumiu o comando do MEC em 16 de julho de 2020, após uma série de crises na liderança da pasta. Desde o começo do governo Bolsonaro, o ministério vinha sendo alvo de disputas pelo seu comando. Em jogo, está o terceiro maior orçamento do governo federal, estimado em R$ 159 bilhões.

"Não temos nada"

A queda do ministro Milton Ribeiro coloca em xeque o discurso do presidente Jair Bolsonaro de que não há corrupção no governo. No ano passado, durante a CPI da Covid, as denúncias de que se negociava propina de US$ 1 por dose fragilizaram ainda mais a política de enfrentamento do governo contra a pandemia.

O deputado Giovani Cherini (PL-RS), vice-líder do partido na Câmara, reitera que ainda não há comprovação nenhuma dos fatos, e que o governo continua sem corrupção. "Por mais que alguns setores da oposição e da imprensa procurem bastante para ver se conseguem mudar essa imagem, por enquanto não temos nada", apontou.

Para o cientista político Rodrigo Gallo, o ministro Milton Ribeiro não foi demitido pelo presidente Bolsonaro, mas sim pelo candidato à reeleição Jair Bolsonaro. "Provavelmente ele foi convencido de que precisaria enfrentar essa crise de olho nos efeitos negativos da divulgação dos áudios para sua candidatura", analisou.

Este discurso, na visão do mestre em ciência política e professor da pós-graduação do Ibmec-DF Danilo Morais, é corroborado pela falta de investigações no governo Bolsonaro, gerando impressão enganosa de que não há casos de corrupção. "A corrupção é um fenômeno sistêmico, enraizado e que certamente segue operando", destacou.

O cientista político André Rosa acredita que uma investigação poderia deslocar apoiadores para candidatos da terceira via. "A instalação de mais uma CPI se somará à CPI da Covid-19 e, sendo assim, a depender da maneira que for explorada nos meios de comunicação, poderá deslocar apoiadores para candidatos postulantes à terceira via insatisfeitos com o atual presidente da República", projetou. 

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