Frente de Evangélicos condena protesto contra aborto legal de criança

A Frente condena, ainda, o ''oportunismo'' de parlamentares que participaram do ato e hostilizaram a criança, os familiares e os profissionais de saúde

Diário de Pernambuco
postado em 17/08/2020 09:34
 (foto: Bruna Costa/DP)
(foto: Bruna Costa/DP)

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito cobra investigação dos protestos liderados por um grupo de religiosos — católicos e evangélicos — na frente do Cisam, no Recife, contra a interrupção da gestação de uma criança, de apenas 10 anos, estuprada por um tio.

A Frente condena, ainda, o “oportunismo” de parlamentares que participaram do ato e hostilizaram a criança, os familiares e os profissionais de saúde. Nesta manhã, a criança deve tomar medicamentos para a expulsão do feto. O processo de aborto foi iniciado na tarde do domingo.

O aborto motivou pessoas favoráveis e contrárias à interrupção da gestação a se manifestarem, nesse domingo (16/8) na frente do hospital público onde a criança está internada. A instituição de saúde fica em Recife, para onde a garota foi levada depois de médicos do Espírito Santo, onde ela vive, afirmarem não ter condição de realizar o procedimento.

Autorizado pela Justiça

A autorização para o aborto, segundo divulgado pelo site UOL, foi dada pelo juiz Antônio Moreira Fernandes, da Vara da Infância e da Juventude de São Mateus (ES), cidade onde a menina grávida mora. Ele atendeu pedido do Ministério Público Estadual (MP-ES), para quem o fato de a gestação decorrer de um estupro e representar riscos para a mãe torna o aborto legal.

Porém, apesar da decisão, o hospital para onde a garota foi levada, em Vitória, disse que não tinha condições para realizar o procedimento, argumentando que o tempo da gestação está muito avançado.

Esse, aliás, tem sido o argumento dos que tentam impedir o aborto. A ativista de extrema-direita Sara Winter chamou o procedimento de ilegal em um vídeo que divulgou nesse domingo. Sara foi muito criticada por ter divulgado o que seria o primeiro nome da menina e o endereço do hospital para onde foi levada.

Confira a nota da Frente:

“Um grupo de religiosos, católicos e evangélicos, se reuniu diante de um hospital no Recife (PE) para protestar contra a interrupção da gestação de uma criança, de apenas dez anos, estuprada por seu tio. Junto com parlamentares como os deputados Clarissa Tércio, do PSC e Joel da Harpa, do PP, que participaram do ato, hostilizaram a criança, os familiares e os profissionais de saúde.

Cobramos que os envolvidos nesse episódio sejam investigados e, em caso de crimes, punidos.

Mesmo tendo autorização judicial para realizar o procedimento e, ainda que o Código Penal, desde 1940, garanta a interrupção segura da gravidez à mulher violentada, os religiosos gritavam “assassina” e oravam para que o aborto não fosse executado, segundo o noticiário.

Com seus gritos também perturbaram mulheres grávidas em um momento de alta fragilidade e culparam uma criança, sem maturidade fisiológica e emocional e que vinha sendo estuprada nos últimos 4 anos.

Em nenhum momento os gritos se voltaram contra o estuprador. Em nenhum momento se apiedaram dessa criança, há tanto tempo violentada no corpo e na alma.

Lembramos que Jesus só demonstrou desprezo pelos fariseus, porque eles colocavam seus valores acima do amor. Todas as vezes que eles tentavam vencer Jesus com argumentos, eram destroçados pela inteligência do Mestre.

Nossa oração é que a Graça e a Misericórdia dEle alcancem essa garota que precisa do conforto espiritual num momento tão duro, ainda no início de sua vida. E que a Igreja seja um local de conforto e não de julgamento para ela e seus familiares. Os que escolheram jogar pedras estão indo contra a Palavra de Deus, pois atacam uma criança ao invés de acolher como fez nosso Mestre. Que a justiça se encarregue de julgar essas pessoas por expor uma menor de idade a essa tortura psicológica.

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito é solidária à criança de dez anos e sua família, vitimas de imensurável dor. E entende que é direito, protegido pela Lei e por decisão judicial, a interrupção da precoce gravidez, resultado do crime de estupro.

Condenamos também que políticos, em especial os ligados às bancadas religiosas, e influenciadores digitais usem o episódio para disseminar o ódio, colocando culpa e mais dor sobre a vítima.”

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