MEIO AMBIENTE

Incêndios no Pantanal cresceram 210% neste ano, mostram dados do Inpe

Dados consolidados do Inpe apontam que o bioma, que arde em chamas, registrou 14.489 queimadas de 1º de janeiro até 12 de setembro, contra 4.660 no mesmo período do ano passado. Verbas diminuirão em 2021

Augusto Fernandes
postado em 14/09/2020 06:00
 (crédito: Mayke Toscano/Secom-MT)
(crédito: Mayke Toscano/Secom-MT)

Os incêndios florestais no Brasil cresceram de forma vertiginosa ao longo de 2020 em quase todos os biomas, de acordo com informações registradas pelo Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe). De 1º de janeiro a 12 de setembro, o órgão contabilizou 125.031 queimadas no país, o maior registro para o período desde 2010, quando 182.170 focos de calor foram mapeados no mesmo intervalo.

Na comparação com o ano passado, a quantidade de incêndios nas florestas brasileiras já subiu 10% em 2020. O crescimento mais alarmante é no Pantanal. Em relação ao intervalo entre 1º de janeiro e 12 de setembro de 2019, o número de queimadas no bioma deu um salto de 210% neste ano — passou de 4.660 para 14.489.

Apesar de restar pouco mais de três meses para o fim de 2020, este já é o maior índice de queimadas para o bioma em um único ano. Segundo o levantamento do Programa Queimadas, que reúne dados desde 1998, o recorde de incêndios no Pantanal havia sido registrado em 2005, quando foram contabilizadas 12.536 ocorrências em todo aquele ano.

O Pantanal, aliás, é a área ambiental que tem registrado o maior crescimento de incêndios desde o primeiro ano de gestão do presidente Jair Bolsonaro. Em 2019, quando 10.025 queimadas na região foram contabilizadas pelo Inpe, a alta nos focos de calor foi de aproximadamente 493% na comparação com 2018, quando foram mapeados apenas 1.691 incêndios. Nunca antes o Programa Queimadas havia constatado um aumento tão elevado para o Pantanal.

A quantidade elevada de queimadas já fez o bioma perder cerca de 15% do território. Conforme números do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) ao menos 2,2 milhões de hectares do Pantanal já foram deteriorados por conta do fogo. O Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul são os estados mais afetados: ambos perderam pouco mais de 1 milhão de hectares da floresta.

Floresta amazônica


Enquanto isso, a área florestal do Brasil mais afetada pelo fogo em 2020 é a Amazônia: até o último sábado, o Inpe registrou 60.675 incêndios na região, 8% a mais do que o contabilizado no mesmo período de 2019 (56.085). No ano passado inteiro, a quantidade de queimadas na floresta foi de 89.176, 30% a mais do que os 68.345 focos de calor na Amazônia em 2018.

Segundo o Inpe, a área desmatada na Amazônia por conta do fogo foi de 1.359km² em agosto. O número é o segundo maior para o mês dos últimos cinco anos, perdendo apenas para agosto do ano passado, quando as queimadas consumiram 1.714km² da floresta.

Outra região em que os incêndios estão em alta é a do Pampa. Segundo os dados mais recentes do Programa Queimadas, o bioma já apresenta uma evolução de 38% em relação ao que foi contabilizado até 12 de setembro de 2019 (as queimadas subiram de 1.055 para 1.459). Os focos de calor na floresta contabilizados neste ano já superam a estatística de todo o ano de 2019, quando aconteceram 1.420 incêndios no Pampa.

A Mata Atlântica é mais um bioma em que as queimadas estão aumentando em 2020. Segundo o Inpe, a floresta teve 11.439 incêndios até o último dia 12, uma alta de 5% comparada às 10.873 queimadas registradas até a segunda semana de setembro do ano passado.

Por enquanto, os únicos biomas do país em que os focos de calor diminuíram ante 2019 foram a Caatinga e o cerrado. O primeiro apresenta uma queda de 12% (os incêndios caíram de 3.117 para 2.714), e o segundo contabiliza um recuo de 7% (os focos de calor baixaram de 37.055 para 34.255).

Menos recursos


Apesar da alta nos registros de incêndios florestais, a previsão é de que os principais órgãos federais que cuidam dos biomas do país tenham menos orçamento em 2021. De acordo com o Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) para o ano que vem apresentado pelo Executivo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) podem ter um corte de R$ 126,1 milhões nas suas verbas.

Segundo a proposta entregue pelo Palácio do Planalto ao Congresso em agosto, a estimativa de repasses da União para o Ibama no próximo ano é de quase R$ 1,65 bilhão (sendo que pouco mais de R$ 513 milhões dependem da aprovação dos parlamentares). O ICMBio, por sua vez, pode receber até R$ 609 milhões (desse valor, R$ 260,2 milhões precisam do aval do Legislativo). Neste ano, os órgãos tiveram, respectivamente, em torno de R$ 1,7 bilhão e R$ 679,4 milhões.

O governo não prevê nenhum centavo para ações do programa de Prevenção e Controle do Desmatamento e dos Incêndios nos Biomas. Em 2020, Ibama e ICMBio tiveram pouco mais de R$ 128,4 milhões autorizados pelo Palácio do Planalto e outros R$ 5,7 milhões aprovados pelo parlamento para essa finalidade.

Precisamos reverter essa situação

“A situação é bastante preocupante. O Brasil vinha, há alguns anos, adotando políticas públicas que reduziram os índices de desmatamento e de incêndios, e o setor econômico entendeu a importância de conciliar a conservação da natureza com o aspecto produtivo. Mas, com as recentes mudanças governamentais, houve um retrocesso muito grande, com diminuição tanto de recursos financeiros quanto de recursos humanos. Isso não pode, especialmente no momento em que as queimadas estão aumentando. Com certeza, falta empenho. Nós temos a obrigação de ajudar que os biomas do país sejam preservados. Não apenas por sermos brasileiros, mas por sermos cidadãos do planeta. Existe uma série de questões relacionadas a esse problema. Há córregos, rios e nascentes sendo prejudicados, animais morrendo, plantas sumindo e comunidades tradicionais sem ajuda. Precisamos urgentemente de um novo direcionamento para reverter essa situação e de mais decisões que tenham a participação da sociedade civil.”

César Victor do Espírito Santo, engenheiro florestal e integrante do Fórum das ONGs Ambientalistas do DF e Entorno

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