Imprensa

Após perder quatro contratos, Rodrigo Constantino é mantido na Gazeta do Povo

Após comentários machistas relacionados a estupro e pressão de sua própria redação, empresa resolveu pela permanência do jornalista, alegando não haver "afronta aos limites razoáveis da liberdade de expressão"

Ana Luísa Santos*
postado em 06/11/2020 15:51
 (crédito: Reprodução/Instagram)
(crédito: Reprodução/Instagram)

Após demissões da Jovem Pan, Grupo Record, jornal Correio do Povo e Rádio Guaíba por conta de comentários machistas e ofensivos após repercussões sobre o caso Mariana Ferrer, o jornalista Rodrigo Constantino foi mantido no quadro de colunistas do jornal Gazeta do Povo. Em comunicado assinado pela diretora da unidade de jornais do GRPCOM, Ana Amélia Filizola, publicado nesta sexta-feira (6/11), o veículo analisou o posicionamento do jornalista e afirmou que, em sua coluna, Constantino explicou melhor o que queria dizer na live feita nas redes sociais.

“Isso não nos impede de considerar que suas manifestações iniciais foram inoportunas e infelizes, intempestivas e formuladas com imprecisão, dando margem a dúvidas que precisaram ser esclarecidas. É compreensível, portanto, parte do desconforto e constrangimento que despertou em muitas pessoas”, diz o comunicado.

A nota também faz referência ao conteúdo do texto publicado na coluna de Constantino na última quinta-feira (5/11), destacando o pedido de desculpas do colunista e que ele defende penas mais duras para estupradores no país, além de ressaltar que o jornalista não fez referência a nenhum caso específico quando falou sobre o assunto em live.

“Constantino procurou novamente explicar a sua intenção, apontou suas próprias falhas e pediu desculpas. Apesar de sabermos e de respeitarmos entendimentos diversos, não nos parece que, ante as explicações e os pontos por ele abordados, estejamos, necessariamente, diante de uma afronta aos limites razoáveis da liberdade de expressão”, aponta a carta de esclarecimento.

Contantino gerou revolta ao falar, via streaming, sobre supostos padrões de comportamento feminino que seria reprováveis e chegou a envolver a própria filha para explicar seu ponto de vista, alegando que, em caso de estupro da jovem, perguntaria as circunstâncias do crime e, a depender do que ouvisse, não denunciaria o ato e ela ficaria de castigo, por se colocar em risco.

Pressão da redação por posicionamento

O posicionamento do veículo não foi divulgado sem pressão interna. A opção de não se manifestar rapidamente sobre o caso não agradou aos profissionais da redação da Gazeta, que chegaram a redigir uma carta, entregue à diretoria na última quinta-feira (5/11), em que se lia que o comentário feito pelo colunista violaria os valores defendidos pelo jornal.

“As colaboradoras da Gazeta do Povo consideram extremamente frustrante compartilhar espaço com esse tipo de declaração, que não vem acompanhada de pedido de desculpas. Não se trata de mera distorção de palavras, ele foi agressivo, desrespeitoso e tratou indignamente as mulheres”, diz o documento.

A nota assinada por mais de 120 funcionários do jornal encerra pedindo que a empresa seja mais firme em relação a uma decisão. “A Gazeta do Povo quer proporcionar um ambiente onde as mulheres se sentem seguras para desempenhar seu trabalho ou, ao contrário, um ambiente em que o machismo e a violência moral, verbal e, eventualmente, física, seja vista como tolerada pela direção?”, pontua a carta.

“Neste cenário, as colaboradoras entendem haver um incentivo ao assédio, à cultura de julgar a vítima e desestímulo a denúncias. Com isso, há perda de respeito e engajamento aos valores e ideais do grupo”, finaliza o comunicado.

*Estagiária sob supervisão de Ed Wanderley

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