Covid-19

"Butantan e Anvisa são inimigos", lamenta fundador da agência

Sanitarista Gonzalo Vecina avalia que politização da vacina fechou o canal existente entre a autoridade sanitária e o instituto de pesquisa. Caso estivesse à frente da agência, Vecina diz que também suspenderia os testes. Mas liberaria após ouvir as explicações

Sarah Teófilo
postado em 10/11/2020 22:19 / atualizado em 10/11/2020 22:22
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

Fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o sanitarista Gonzalo Vecina Neto disse que a agência deveria ter dialogado com o Instituto Butantan antes de suspender os testes da CoronaVac, vacina contra o novo coronavírus. O imunizante está sendo desenvolvido pelo Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac.

“A Anvisa poderia ter dialogado com o Butantan, e o Butantan poderia ter dialogado com a Anvisa. Mas esse canal, pelo visto, acabou. O Butantan e a Anvisa são inimigos. E aí, isso vai prejudicar o Brasil e a vacina. Esse clima foi criado pelo Bolsonaro, de um lado, e pelo Doria (João Doria, governador de São Paulo) do outro. Isso está claro: tem dois lados envolvidos nessa peleja que não tem a ver com a busca de uma solução para a sociedade brasileira”, afirmou ao Correio.

A situação teve início com a morte de um voluntário que, depois se soube, boletim de ocorrência da Secretaria de Segurança Pública de SP apontou que a causa foi suicídio. O Butantan, na manhã desta terça-feira (10), frisou que a morte não tinha relação alguma coisa a vacina, e que havia enviado informações à Anvisa na sexta-feira. A Anvisa, por sua vez, disse que não recebeu informações detalhadas sobre o caso, e que só soube da situação na segunda-feira (9), devido a um problema do sistema.

A todo momento, o diretor-presidente da agência, Antonio Barra Torres, frisou que a decisão foi técnica. Apesar de já ter a informação sobre a causa da morte, ele afirmou que iria aguardar dados completos e que os testes seriam retomados apenas após uma análise do Comitê Internacional Independente. A politização, no entanto, dominou o debate público no momento em que o presidente Jair Bolsonaro comemorou a paralisação dos testes e anunciou uma vitória sobre João Doria. Adversário político do presidente, o governador tucano anunciou a chegada de 120 mil doses da CoronaVac para o estado de SP.

Se estivesse na Anvisa, Vecina Neto disse que também teria tomado a decisão de suspender os testes. Mas ressaltou que após informações sobre a causa, “não há dúvida de que o estudo tem que prosseguir”. Para ele, ainda que a agência tenha pontuado a necessidade de um posicionamento do comitê, pela urgência do assunto, talvez não fosse o caso de esperar isso.

Ainda assim, o fundador da agência se diz confiante com a independência da Anvisa. “Acho que o presidente honra o diploma dele, e os servidores, com certeza, estão fazendo o possível para preservar o capital de credibilidade que a Anvisa tem no Brasil e no mundo. Eu acho, e quero acreditar, que todos estão trabalhando para manter a credibilidade que a Anvisa conquistou. Não acredito que esteja se entregando a qualquer tipo de chantagem política”, disse.

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